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Workshop ‘Doenças Tropicais’: “Colônias deram mais do que receberam”, diz Rita Pemberton

08 jul/2015

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Professora da Universidade de York com pesquisas e cursos sobre a história de Trinidad e Tobago, nos campos da saúde, medicina e do ambiente no Caribe, Rita Pemberton proferiu uma das mais aguardadas palestras do workshop Doenças Tropicais: Prelúdio a Rockefeller –  problemas de saúde em Trinidad e Tobago, 1900-1930. Na apresentação, ela destacou que o desafio da expansão imperial estimulou o desenvolvimento da medicina tropical, sendo importante também para a fundação de publicações especializadas e escolas de medicina na Europa. Pemberton examinou a situação da saúde em Trinidad e Tobago nas três primeiras décadas do século 20, quando a colônia foi uma possessão britânica valorizada com a produção de cacau e petróleo. Era uma “meca” para os imigrantes, destacou a pesquisadora.

Sobre o aparecimento de revistas e instituições na Grã-Bretanha, ela lembrou a publicação The Journal of Tropical Medicine, de 1898, e a Escola de Medicina Tropical de Londres, criada em outubro de 1899. Já a Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene data de 1903. De acordo com Pemberton, essas instituições possibilitaram a investigação de doenças como a malária, a doença do sono e a ancilostomíase, algumas das quais já erradicadas. Esses centros tornaram-se referência em questões médicas nos trópicos. Em 1913, citou, a London School foi consultada sobre a campanha da ancilostomíase pelo Conselho Rockefeller e pelo médico Wycliffe Rose, que trabalhava para a Fundação Rockefeller.

“Não se deve presumir que este foi um presente do império britânicos às colônias como contrapartida aos ‘benefícios’ proporcionados por essas instituições”, observou Pemberton. “Argumenta-se aqui que, com referência à Trinidad e Tobago, a contribuição das colônias era mais do que simplesmente financeira, e deram mais do que receberam no curto prazo”, ressaltou a conferencista.

Contexto histórico

As ilhas de Trinidad e Tobago foram colônias separadas até sua unificação pelo império britânico, em duas fases: em 1889 e 1899. Embora os dois territórios fossem geográfica e economicamente diferentes, Trinidad, a ilha maior, era o centro da administração colonial. De acordo com Pemberton, a união provocou desigualdade e desconforto.

Tobago pertencia aos britânicos desde 1815, mas, devido às incertezas políticas, o desenvolvimento da ilha como colônia de plantação foi frustrado. A indústria do açúcar enfrentou desafios no século 19, incluindo custos de produção, falta de modernização e interesse de investidores. A situação foi complicada pela abolição dos escravos e a emancipação política. Para donos de plantações, a abolição os privou de mão de obra. O século 20 começou com uma nova classe de proprietários de terra, nativos beneficiados com o fim da escravidão. O setor de cacau tornou-se forte e rentável, fornecendo a base para a receita da ilha.

Trinidad aproveitou a qualidade do seu cacau para lucrar, mas perdeu posição para Gana (África) e pela queda da produção na década de 1920. No entanto, a ilha se beneficiou com a exportação de petróleo, ganhando importância como fornecedora da marinha britânica; mudou a produção de carvão para o petróleo durante a Primeira Guerra Mundial. Com oportunidades mais atraentes de emprego, Trinidad atraiu imigrantes de outras áreas do Caribe com economias menos favorecidas. Foram para a capital e arredores da região sul, rica em petróleo. Embora, a ilha pulsasse com sua riqueza natural, precisava de infraestrutura. Nas três primeiras décadas do século 20, a ilha estava entre as mais prósperas da região, mas sua riqueza não se refletia na saúde e nas condições sanitárias.

Administração da saúde em Trinidad e Tobago

Autoridade máxima da área de saúde na colônia, o cirurgião geral atuava auxiliado por um conselho, formado por chefes de hospitais, um oficial de porto e oficiais distritais de saúde. Havia dois hospitais: na capital Port of Spain, com 320 leitos, e outro em San Fernando, com capacidade para 120 pacientes. Pacientes com bouba eram atendidos em St. Clair, Santo Agostinho e Arima; um hospício prestava assistência em St. Ann e um leprosário, em Cocorite. As instituições serviam à população, que aumentou de 250 mil, na virada do século, para cerca de 400 mil em 1930.

Condições de saúde em Trinidad e Tobago

Uma epidemia de varíola, embora de pequena proporção, atingiu a ilha no início do século 20, mas não foi reconhecida pelas autoridades. Pemberton ressaltou que os dados oficiais eram conservadores: foram registrados 4.335 casos, com 27 mortes. Esse número pode ter sido o dobro, afirmou a pesquisadora.

Em 1912, em Tobago, uma epidemia de disenteria afetou 3.179 pessoas, provocando 466 mortes. Entre as causas, estariam a seca prolongada “de gravidade sem precedentes”, o que diminuiu o abastecimento de alimentos provocando pobreza e privação na comunidade. Fome, peste, ignorância, superstição eram “explicações oficiais para todas as erupções de doenças da colônia nesse período”, explicou. No entanto, “havia, sim, a falta de serviços adequados à população, situação que persistiu até a década de 1950”, ressaltou Rita Pemberton.

Malária, tuberculose e ancilostomose, além de disenteria e doenças venéreas foram as principais e que mais provocaram mortes, incidindo na crescente taxa de mortalidade infantil. O índice chegou a 148,7 por 1.000 habitantes, descrito pelas autoridades como “não exatamente ideal”, destacou a pesquisadora da Universidade de York comentando a reação oficial ao problema.

A Comissão Internacional de Saúde em Trinidad e Tobago

A Comissão Internacional de Saúde fez campanha contra a ancilostomíase em Trinidad e Tobago, onde a doença era considerada grave, mas não foi totalmente erradicada. No entanto, o objetivo era contribuir para a melhoria do saneamento na colônia, principalmente nas áreas ocupadas pela comunidade indígena. As ações foram executadas de agosto de 1914, nas cidades de San Fernando e Sangre Grande, a dezembro 1924, em Tobago.

Uma parte importante da campanha era a experimentação sem o conhecimento e consentimento dos pacientes. Nas experiências, foram utilizados óleo de Chenopodium em doses mais pesadas do que o normalmente aceitável (de 50 gotas em vez de 3), na utilização de timol e Chenopodium.

Em 1883, o médico Bevan Rake, então superintendente do asilo de lepra, conduziu experiências sem o consentimento dos pacientes, utilizando pomada de mercúrio, óleo de chaulmoogra e ácido nítrico, revelou Pemberton. Segundo ela, o custo humano das experiências nunca foi avaliado. Este poder permitiu aos europeus um “maior controle sobre os corpos de pacientes não-brancos que, em razão de sua diferença, eram vistos como cobaias ideais”, acrescentou.

Para a pesquisadora, a doença era causada pela “estupidez e a ignorância dos pacientes”, sendo normal em comunidades não-brancas. A noção de medicina tropical, em vez de corrigir essa crença, contribuiu para a subnotificação do problema entre as mais altas autoridades.
Para as classes mais baixas em Trinidad e Tobago, este novo ramo da medicina não estimulou qualquer mudança em sua realidade cotidiana, concluiu sua conferência Rita Pemberton.