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Se a pólio não for erradicada no mundo, corre-se o risco da volta de novos casos, diz consultora da OMS

03 nov/2015

O combate mundial à poliomielite teve dois avanços importantes em 2015. A Comissão Global para Certificação da Pólio declarou em setembro que um dos três tipos de vírus que causam a doença – o tipo 2 – foi erradicado no mundo. No continente africano, por ter completado um ano sem novos casos de pólio, a Nigéria foi retirada da relação de países endêmicos. Essa lista, que já incluiu 125 integrantes, hoje tem apenas dois: o Afeganistão e o Paquistão. 

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Os avanços são positivos, mas a meta é ir além: erradicar a poliomielite no mundo até 2018, explicou a consultora da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) Samia Abdul Samad, na conferência de abertura do seminário Pólio Nunca Mais: 21 Anos de Erradicação da Poliomielite no Brasil, promovido pela Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) e por Bio-Manguinhos em 27 e 28 de outubro. “A doença afeta hoje um número reduzido de crianças, mas se a erradicação não for completa, corremos o risco de voltar a ter casos de poliomielite”, declarou.

A luta pela erradicação, no entanto, enfrenta desafios, como a existência de conflitos em regiões afetadas pela doença ou em países onde até pouco tempo ela estava presente, como a Nigéria, onde insegurança e falta de comprometimento político representavam riscos ao não cumprimento das metas. “O envolvimento das equipes e o fortalecimento das ações levaram ao êxito mesmo com essa situação”, relatou Samia. Desde 11 de agosto de 2014, a África não registra casos de pólio.

Para se atingir a erradicação mundial da poliomielite, a consultora afirmou que é necessária a adoção de estratégias de impacto no que tange a vigilância epidemiológica, laboratórios e ações de comunicação. “A proposta para o período de 2013 a 2018 tem como objetivos a detecção e a interrupção da transmissão do poliovírus, o fortalecimento dos programas de imunização, a contenção do poliovírus e a certificação dessa contenção”, afirmou Samia.

Estratégia prevê mudança nos esquemas de vacinação contra a pólio

O fortalecimento do programa de imunização inclui uma mudança nos esquemas de vacinação, de acordo com a consultora. Com a erradicação do poliovírus 2, a vacina oral trivalente (que contém os poliovírus 1, 2 e 3 atenuados), popularmente chamada de gotinha, será substituída pela bivalente, que contém apenas os tipos 1 e 3, simultaneamente em todo o mundo, entre abril e maio de 2016.

“Como fazer uma substituição dessas em países como Afeganistão e Paquistão, onde vacinadores são assassinados? Imagina, no Brasil, o trabalho que vai se ter, ir em sala por sala de vacina, passar a informação e ter a garantia que ninguém vai usar a vacina trivalente”, afirmou Samia sobre os desafios da troca. Além da vacina oral, todos os países deverão aplicar uma dose da injetável até o fim de 2015 (ou 2016?). Isso será feito para evitar que o vírus tipo 2 volte a circular.

“Os vírus da vacina oral podem readquirir a capacidade de provocar a doença se permanecerem circulando em comunidades com baixa cobertura de vacinação”, explicou a consultora. “Se as crianças que irão nascer depois da substituição da vacina trivalente pela bivalente não receberem pelo menos uma proteção para o [poliovírus] tipo 2, poderemos ter a médio prazo uma comunidade com baixas cobertura de vacinação contra esse tipo, que poderá seguir circulando e adquirir capacidade de causar a pólio”, acrescentou.

Segundo Samia, para a introdução de uma dose da vacina injetável contra a pólio em todo o mundo até o fim de 2016, é preciso garantir a sua produção em quantidade suficiente para atender a demanda. “A vacina inativada é mais cara que a oral e tem uma oferta limitada”, disse Samia. No Brasil, atualmente já são ministradas duas doses da vacina injetável. Entre 2019 e 2020, a proposta é retirar a vacina oral de todos os programas de imunização do mundo.

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