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Samuel Pessoa: um cientista comunista em uma faculdade conservadora

07 dez/2016

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Por Glauber Gonçalves

O contraste entre o perfil conservador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e os posicionamentos políticos de Samuel Pessoa explica, em parte, como se construiu a memória em torno do cientista na instituição em que ele trabalhava.

Por um lado, a faculdade mantém a lembrança do catedrático em parasitologia que desenvolveu atividades de pesquisa e assistência que se tornariam referência no Brasil e no exterior. No entanto, optou por esquecer o professor comunista e combativo, que protagonizou enfrentamentos durante parte de sua trajetória acadêmica ao se posicionar pela defesa da saúde pública diante da pobreza de brasileiros e paulistas e ao denunciar a estrutura da elite do País, principalmente a agrária.

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As observações são de André Mota, coordenador do Museu Histórico Professor Carlos da Silva Lacaz, vinculado à Faculdade de Medicina da USP, que participou de seminário sobre a trajetória de Samuel Pessoa, organizado pelo Centro de Apoio à Pesquisa em História Sérgio Buarque de Holanda (CAPH) e pela COC em setembro, em São Paulo. “A memória de Pessoa permanece sob tensionamento numa faculdade de medicina conservadora, com laivos democráticos em parte de sua história, e ao mesmo tempo de uma instituição de medicina alinhada a golpes e assimetrias políticas e elitistas”, disse Mota.

Um discurso proferido pelo professor na década de 1940 na condição de paraninfo causou-lhe grandes problemas na instituição. Contundente, Pessoa denunciou os rastros de pobreza e miséria e as assimetrias existentes em São Paulo, desafiando as narrativas produzidas pelas elites paulistas da época. No período, o Estado atraía levas de imigrantes vindos do Nordeste e de Minas Gerais, em face da necessidade de mão de obra para atuar na produção cafeeira. “O Estado de São Paulo subsidiou esse movimento de migração”, disse Mota.

A memória de Samuel Pessoa permanece sob tensionamento numa faculdade de medicina conservadora, com laivos democráticos em parte de sua história

No período pós-guerra, a vinda de migrantes não cessou, porém já não era subsidiada. Espontâneo e com característica do êxodo rural, esse movimento ganhou contornos específicos nos anos 1950, estimulado por seca. Citando dados do Departamento de Migração e Colonização, Mota afirmou que, entre 1951 e 1955, entraram 762.707 migrantes na capital paulista. “Parte dos estudos de Samuel Pessoa flagrou essa situação, não apenas das condições de vinda dessa população, mas o tratamento que lhes era dado nas fazendas e na cidade de São Paulo, aliado às epidemias e endemias que impactavam a mortalidade daquela população”, explicou Mota.

Samuel Pessoa acompanhava de perto essa situação e escrevera sobre o tema, às vezes chocando-se contra os posicionamentos da Faculdade de Medicina ao lembrar que São Paulo não possuía a excelência médico-sanitária que sustentava deter. Provas disso, observava ele, eram a pobreza e as doenças que avançavam sobre o território paulista, em contraste com uma elite urbana e rural ainda talhada por um pensamento latifundiário e excludente. “O trabalhador na lavoura é explorado desumanamente pelo patrão. O que ganha não dá para a família comer. Está sempre devendo na venda, embriagando-se aos domingos para afogar as mágoas”, pontuara Pessoa.

Ao analisar o cenário, especialmente no interior paulista, Samuel Pessoa observava um alto índice de mortalidade infantil. A população sofria de doenças como malária, sarna, leishmaniose, esquistossomose e meningite.

De acordo com Mota, a partir de 1964, Pessoa e seus alunos e colaboradores diretos na Faculdade de Medicina da USP passaram a ser perseguidos. “Quando a ditadura militar chegou em 1964, e, segundo o professor Samuel Pessoa, a Faculdade de Medicina da USP deixou de pensar, sem dúvida sua presença e de sua equipe produziu uma das maiores fraturas na história da instituição”, declarou o pesquisador sobre o papel que esses nomes poderiam ter na restituição de uma saúde pública voltada à questão social e da pobreza. “Quando, em 2008, os professores perseguidos, cassados e expulsos da Faculdade de Medicina, parte deles ligada a Samuel Pessoa, foram reintegrados à instituição, ficaria cravada na memória a prova inequívoca de que esse passado não passará e de que reparações históricas serão sempre relevantes para se olhar o presente. Quando se quer olhar, obviamente.”