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Projetos de desenvolvimento revelam diferentes imaginários sobre a Amazônia

29 abr/2020

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Por César Guerra Chevrand

Celeiro do mundo, para alguns. Pulmão do planeta, para outros. Os projetos voltados para o desenvolvimento da Amazônia ao longo do século 20 revelam as mudanças no imaginário da ciência e da sociedade sobre o território que hoje abrange os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão. Com sua natureza exuberante e a complexidade de seu ecossistema, a Amazônia é alvo da disputa de interesses científicos, políticos e econômicos que ultrapassam as fronteiras brasileiras e repercutem até hoje no cenário nacional.  

A ideia da natureza como recurso que tem de ser explorado para diferentes finalidades é uma persistência, mas concorre atualmente com outros discursos, mas hoje estamos num cenário muito mais complexo

Fundado pelo governo Getúlio Vargas em 1939, o Instituto Agronômico do Norte (IAN), localizado em Belém do Pará, exemplifica a relação da ciência e da tecnologia com a política desenvolvimentista para a Amazônia neste período. Criado no mesmo contexto em que outros projetos estatais foram implementados para incentivar a expansão industrial e agrícola no Brasil, o IAN pretendia transformar a Amazônia em "celeiro do mundo" e solução para a fome planetária. 

"A ciência e a tecnologia tinham um papel central no projeto do Instituto Agronômico do Norte. Este é um momento em que emerge a preocupação mais global em relação à fome. A Amazônia era fonte de riqueza graças ao extrativismo da borracha, mas entra nesse discurso em função dessa conjuntura. É um projeto muito claro de fortalecimento da presença do estado através de ações alicerçadas no conhecimento científico”, afirma o pesquisador e professor da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) André Felipe Cândido da Silva. Juntamente com a pesquisadora Dominichi Miranda de Sá (COC/Fiocruz), ele analisa as pesquisas desenvolvidas pela instituição no artigo Amazônia brasileira, celeiro do mundo Ciência, agricultura e ecologia no Instituto Agronômico do Norte nos anos 1940 e 1950.

No estudo, publicado na Revista de História da Universidade de São Paulo (USP), os autores explicam como a "teoria de funcionamento do ecossistema florestal”, desenvolvida pelo alemão Harald Sioli, orientou as pesquisas do Instituto Agronômico do Norte nos anos 1940 e 1950, com investimentos em policultura, canais de colmatagem no rio Amazonas, produção de alimentos, como arroz, milho, feijão e mandioca, e até mesmo a criação doméstica de búfalos na região.  

Ao partir do imaginário que a Amazônia era um território fértil e vazio a ser ocupado, o projeto desenvolvimentista do governo Vargas não era necessariamente antagônico ao discurso ecológico, que começa a ganhar contornos mais definidos também neste contexto. "Apesar de alguns efeitos danosos ao ambiente, o IAN tentou levar um padrão de agricultura sensível à ecologia local. É preciso modular isso. A gente não está falando de um projeto como os de hoje, de avanço agrícola da soja sobre a Amazônia. Está se falando da Amazônia como celeiro do mundo, mas não na perspectiva do monocultivo. Era uma visão um pouco mais sofisticada e adaptada às dinâmicas ecológicas e ao ecossistema local", afirma. 

Existe uma consciência maior sobre equilíbrio ecológico, a importância da conservação e a questão dos povos indígenas. Como mostra a repercussão internacional das últimas queimadas na Amazônia, essas questões têm efeitos políticos e sociais mais amplos

André Felipe explica que a evolução dos conceitos ligados à Ecologia ao longo do século 20 permite a análise dos diferentes projetos de conservação, proteção e desenvolvimento aplicados à Amazônia, deslocando a ideia de "celeiro do mundo" para "pulmão do mundo". "Isso tem a ver com a mudança fundamental na forma como a questão ecológica emerge nos anos 1960 e se organiza politicamente em termos nacionais e internacionais. É aí que você pode pensar de fato na Amazônia de um ponto de vista mais global em termos ecológicos. De fato, um bioma que tem um papel fundamental na manutenção de um equilíbrio ecológico global", diz o professor e pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz. 

De acordo com André Felipe, a consolidação da ideia da Terra como um sistema global e o fortalecimento do discurso ambientalista foram fundamentais para a construção do atual conceito de Antropoceno, ou seja, a identificação de nova era geológica marcada pelas modificações promovidas pelos seres humanos no planeta. Entre rupturas e continuidades com os antigos projetos de desenvolvimento, diferentes discursos disputam o imaginário sobre a Amazônia no século 21.  

"Essa ideia da natureza como recurso, como algo que tem que ser explorado para diferentes finalidades, seja para extrair minério, seja como fronteira agrícola, seja pelo avanço da pecuária, é uma persistência, mas concorre atualmente com outros discursos. Hoje a gente está num cenário muito mais complexo. Existe uma consciência maior sobre equilíbrio ecológico, a importância da conservação e a questão dos povos indígenas. Como mostra a repercussão internacional das últimas queimadas na Amazônia, essas questões atualmente têm efeitos políticos e sociais mais amplos", afirma.