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Patricio Hevia Rivas: uma vida dedicada à memória e ao patrimônio cultural da saúde

09 jun/2020

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por Jacqueline Boechat

O médico, sanitarista e acadêmico Patrício Hevia Rivas, morto no dia 6 de maio aos 84 anos, marcou profundamente a história da saúde pública do Chile, atuando na área da medicina, da saúde pública, e no campo da preservação da memória e do patrimônio cultural da saúde. Sua importância se estende para além de seu país natal, na criação de redes de pesquisa em história e patrimônio da saúde e no estímulo a iniciativas nesta área, na América Latina.

Em reconhecimento à importância e ao protagonismo de Patricio Hevia, a Casa de Oswaldo Cruz e a Rede Latino-americana de Historiadores de Arquitetura Hospitalar reuniram alguns fatos sobre a sua trajetória, além de depoimentos de pessoas que conviveram com ele e que atestam a relevância de sua atuação e a perenidade de seu legado.

Uma concepção mais ampla do conceito de saúde

Formado em medicina pela Universidade Federal do Chile em 1961 e licenciado em Saúde Pública pela mesma universidade em 1967, Patricio Hevia defendia uma concepção mais ampla de saúde: “Tive meu primeiro contato com saúde e cultura nos anos 60 do século passado, quando conheci no Chile o grande educador Paulo Freire”, revelou durante a abertura do Terceiro Fórum de Informação em Saúde, ocorrido em 2009 no Brasil. Em 1998, no Serviço Metropolitano de Saúde do Norte, Hevia passou a se empenhar para fortalecer um eixo de interrelação entre arte, cultura e saúde, como estratégia para promover uma vida saudável aos pacientes e funcionários.

Em 2004, como integrante da Comissão de Patrimônio do Ministério da Saúde do Chile, visitou a Casa de Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, em uma de suas incursões com o objetivo de criar a Unidade de Patrimônio Cultural da Saúde. Conheceu, então, o trabalho da Fiocruz em sua missão de estudar e desenvolver pesquisas sobre a história das ciências e da saúde e de realizar ações de valorização e preservação de acervos (arquitetônico, documental, bibliográfico e museológico) da área da saúde.

Patricio Hevia também foi um dos responsáveis pelo processo que reconheceu o Antigo Hospital San José como Patrimônio Histórico do Chile, que se tornou um símbolo para a preservação de instituições de saúde e seu patrimônio cultural em diversas partes do mundo, inclusive o Brasil. A partir dessa iniciativa, a Casa de Oswaldo Cruz coordenou, de 2007 a 2012, uma rede de pesquisas sobre instituições e patrimônio da saúde, que resultou em inventários de bens patrimoniais nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Santa Catarina, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Amazonas, Pará, Paraná e Goiás.

O reconhecimento do Antigo Hospital San José como Patrimônio Histórico do Chile se tornou um símbolo para a preservação de instituições de saúde e seu patrimônio cultural em todo o mundo.

O médico esteve à frente da unidade chilena até 2013, empreendendo diversas ações que contribuíram para o estudo, a difusão e a conservação do patrimônio sanitário em âmbito nacional e internacional e para a organização da Rede Latino-Americana de Historiadores de Arquitetura Hospitalar, da qual participam seis países da América Latina, entre os quais o Brasil, representado pelos pesquisadores Renato Gama-Rosa, da Casa de Oswaldo Cruz, e Ana Albano Amora, da Pós-Graduação em Arquitetura, da FAU-UFRJ.

Depoimentos

O zelo à memória como base da luta permanente pela democracia

Nísia Trindade, presidente da Fiocruz

"Conheci Patricio Hevia Rivas em 2003, quando fomos apresentados pelo querido amigo Henri Jouval, então representante da Opas no Chile. À época eu dirigia a Casa de Oswaldo Cruz e fiquei encantada pela sensibilidade, força e compromisso social de Patricio. Era um período de muitas ideias criativas para integrar saúde, memória e arte e se gestava então a proposta de criar o programa de Patrimônio Cultural da Saúde, ressignificando usos e sentidos de muitas instituições asilares, sobretudo manicômios, no Chile. O Patrimônio Cultural da Saúde naquele país surgiu, assim, como resultado do processo democrático e da transformação das políticas de saúde, em especial, da saúde mental.

A presidente da Fiocruz conserva nítida a impressão do zelo com que Patricio Hevia tratava os encaminhamentos politico-institucionais: "O que nos parecia excesso e, talvez, vestígios dos traumas de um passado recente, era talvez um alerta sobre a natureza permanente da luta pela democracia", lembra. 

Seguimos em colaboração e em 2005 pudemos estreitar laços na Rede de América Latina e Caribe dedicada ao patrimônio da saúde. Com Fernando Pires, Paulo Elian e outros colegas da Fiocruz estabelecemos uma relação especial com Patricio Hevia. Além da sensibilidade, cultura e extrema cordialidade, tenho nítida a impressão que me causava a extrema cautela com que Patricio tratava os encaminhamentos politico-institucionais para nossas ações. O que nos parecia excesso e, talvez, vestígios dos traumas de um passado recente, era talvez um alerta sobre a natureza permanente da luta pela democracia. Daí a importância da memória e das instituições que, ao transformar o passado, como no caso dos novos usos para as instituições asilares, estabelecem um diálogo entre diferentes tempos históricos e transformam os sonhos em patrimônio. Patricio Hevia presente!"

Um legado humanista pela causa da saúde e do seu patrimônio cultural

Paulo Elian, Diretor da Casa de Oswaldo Cruz

"Conheci Patrício Hevia, em 2004, quando veio ao Brasil no intuito de fortalecer a iniciativa chilena de constituição de uma Unidade do Patrimônio Cultural na estrutura do Ministério da Saúde. Além de uma passagem por São Paulo, para contatos na BIREME (Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde), veio ao Rio, a convite de Nísia, então diretora da Casa de Oswaldo Cruz, para conhecer nosso trabalho.

Logo no primeiro encontro fiquei impressionado com sua trajetória, a visão humanista, a estratégia política e o entusiasmo que aquele homem imprimia a sua forma de abordar o sistema de público saúde e a necessidade imperiosa de protegermos o patrimônio cultural como parte um projeto coletivo. Nossa tarefa era criar uma rede latino-americana no campo do patrimônio cultural da saúde. Patrício foi incansável nas articulações para mobilizar companheiros de diversos países. 

Daí pra frente, tivemos muitos encontros: Salvador (BA), em 2005, Santiago do Chile, em 2007, e Rio de Janeiro, em 2008. Nesse ano, com o apoio fundamental de Patrício, a Casa assumiu a coordenação regional da Rede BVS de História e Patrimônio Cultural da Saúde. Foi um verdadeiro parceiro. A aproximação com a experiência chilena, conduzida por Patrício Hevia, foi um grande aprendizado político e de vida."

Incentivo ao conhecimento histórico da arquitetura

María Lilia Gonzáles Servín e Alicia Campos, integrantes da Rede Latino-americana de Historiadores de Arquitetura Hospitalar

Por meio da Unidade de Patrimônio Cultural da Saúde que dirigiu por 10 anos, Patricio Hevia contribuiu para a disseminação do patrimônio da saúde em nível nacional por meio de várias atividades, como a replicação dos nós de avaliação do patrimônio nos Serviços de Saúde em todo o Chile e da reunião anual de seus representantes. Também incentivou o conhecimento histórico da arquitetura da saúde através de pesquisas por meio de acordos com centros e universidades nacionais e internacionais. Foi nesse contexto que ele recebeu María Lilia Gonzáles Servín, que em 2012 desenvolveu o projeto ‘Registro do sistema arquitetônico de pavilhões da América Latina’, possibilitando o contato com profissionais e acadêmicos da área da saúde, facilitando a representação do Chile na Rede Latino-americana de Historiadores de Arquitetura Hospitalar, que ao longo do tempo foi fortalecida pelos esforços de seus membros."

Dedicação e paixão a uma causa

Fernando Pires-Alves, pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz

"Na primeira metade dos anos 2000 tive o prazer e conhecer e compartilhar ideias e projetos com Patrício Hevia. Naquele tempo, Patrício liderava alguns pouco colegas às voltas com a missão de instituir, no Ministério da Saúde do Chile, a Unidade de Patrimônio Cultural da Saúde. Era a forma que encontravam então para promover a preservação da memória da riquíssima e progressista tradição chilena na saúde pública, então, em tempos de desmonte.

Patrício havia visitado a Casa de Oswaldo Cruz, na Fiocruz, e, em seguida, conseguira na OPAS os recursos para financiar uma consultoria de especialistas brasileiros em Santiago. Para lá partimos eu e [a pesquisadora da COC] Wanda Hamilton. Naquela altura, Patrício já estava para além nos seus 70 anos completos, mas demonstrava uma capacidade de trabalho e um entusiasmo contagiantes. Foram dias de muito trabalho e de conversas prazerosas.

Depois, continuamos nos encontrando para estabelecer com outros colegas os fundamentos de uma Rede Latino-americana de História e Patrimônio Cultural da Saúde. Relembro com carinho esse convívio. A seu modo, Patrício me fez conhecer, pela sua dedicação, a uma causa que abraçava com afinco e pelas narrativas de sua vida pessoal, a tradição combativa do povo chileno."

Cumplicidade nas questões sanitárias

Henri E. Jouval Jr.

"Patrício Hevia e eu fomos contemporâneos quando trabalhamos na Organização Pan-americana de Saúde (OPS), entre 1986 e 2004. Nossa amizade se estabeleceu desde que nos conhecemos, porque tínhamos vivências comuns sobre as principais questões que se debatiam, na época: organização dos sistemas de saúde, atenção primaria e educação médica. Estes três temas ocupavam as agendas das reuniões de saúde da América Latina, e, por conseguinte, da OPS.

De um modo muito sintético, apenas para uma compreensão básica, o Chile implantou o Serviço Nacional de Saúde e a atenção regionalizada e hierarquizada por níveis de complexidade crescente, em 1961. Patrício Hevia foi protagonista relevante desse processo. No Brasil, esse período equivale ao que foi o ‘movimento da reforma sanitária’, que culminou na implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), em 1988.

Assim, nas reuniões da OPS, às quais me referi a ‘cumplicidade’ que se estabeleceu entre nós, foi imediata, ele, evidentemente, com muito mais experiência.

Entretanto, para fins desta publicação, meu depoimento sobre Patrício Hevia, tem outra dimensão.

Em 2003 fui designado pela OPS para ser o representante no Chile, no Governo de Ricardo Lagos. Obviamente, procurei Patrício Hevia, já aposentado da OPS, para me dar aulas sobre a saúde em Chile. Além de ajudar muito, pediu-me apoio institucional para o projeto que estava liderando, cujo objetivo era criar e promover a ‘memória da saúde’ chilena. Ele contava com o apoio do Governo, que já tinha instituído no Ministério da Saúde, em fins de 2002, uma Unidade de Patrimônio Cultural da Saúde em Chile. De imediato, lembrei-me da expertise da COC (Fiocruz), que ele não conhecia.

Quis o destino que, em 2004, numa solenidade realizada pela Embaixada do Brasil no Chile, estivesse Nísia Trindade Lima, então Diretora da Casa de Oswaldo Cruz.
Foi a oportunidade para intermediar um encontro dela com Patrício Hevia. Disso resultou um processo de cooperação técnica entre os dois países que foi frutífero.

Estou seguro de que a história de Patrício Hevia ficará definitivamente incorporada ao Patrimônio Cultural do Chile.”