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Brasileiro teve papel central na volta da URSS à OMS, que completa 75 anos

06 abr/2023

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Por Jacqueline Boechat

Sob a guarda da Casa de Oswaldo Cruz, acervo do médico Marcolino Candau revela aspectos de sua trajetória à frente da agência de saúde internacional 

Fundada em 7 de abril de 1948, a Organização Mundial da Saúde (OMS) completa 75 anos em 2023. Desde então, o organismo criado pelo grupo de países vitoriosos da Segunda Guerra Mundial para ser a autoridade central nos trabalhos relacionados à saúde global, vem liderando esforços para debelar doenças fatais como a varíola e melhorar a qualidade de vida da população mundial. Recentemente, apesar de ganhar projeção inédita durante a pandemia da Covid-19, coordenando ações em resposta à emergência sanitária, o organismo foi criticado por líderes negacionistas, que a acusavam de atuar de forma ideológica. Seguindo o exemplo norte-americano, o governo brasileiro à época ameaçou a retirada do país do rol de membros da organização. 

Esse movimento, entretanto, vai na contramão da história de participação do Brasil na OMS: veio de um brasileiro, o médico Geraldo Horácio de Paula Souza, e um chinês, o diplomata Szeming Sze, a proposta, em 1945, para a criação de uma agência internacional especializada em saúde, que três anos mais tarde, culminou na criação da organização. A maior referência brasileira no organismo multilateral é, no entanto, o carioca Marcolino Gomes Candau, escolhido seu diretor-geral em quatro eleições seguidas, tornando-se o dirigente mais longevo a ocupar o cargo. 

Uma história brasileira na OMS

O arquivo de Marcolino Candau representa uma trajetória importante e, de certa forma, ímpar no cenário da saúde pública brasileira

Em 2021, uma segunda parte do acervo de Marcolino Candau chegou à Fiocruz, justamente quando a Organização Mundial da Saúde ocupava mais uma vez papel central no enfrentamento de uma crise sanitária, desta vez, a pandemia do novo coronavírus. Composto por cartas, diplomas, certificados e fotografias, entre outros documentos e objetos referentes à trajetória profissional do médico, com ênfase em sua atuação como diretor-geral da OMS entre 1953 e 1973, a nova remessa junta-se ao Fundo Marcolino Candau, disponível para consulta online na Base Arch

O bigode em linha reta, um sorriso nos lábios e o cabelo meticulosamente engomado e alisado para trás são marcas registradas nas diversas fotografias do fundo. As imagens retratam um Candau polivalente, participando tanto de cerimônias formais, reuniões em salões luxuosos, encontros com líderes mundiais políticos e religiosos, como de atividades em hospitais, laboratórios e trabalhos de campo. Além das fotografias, é possível examinar objetos, como medalhas e diplomas, e extensos relatórios, que relatam viagens a países diversos da África Subsaariana, Américas, Leste Europeu e Oriente Médio.  

"O arquivo de Marcolino Candau representa uma trajetória importante e, de certa forma, ímpar no cenário da saúde pública brasileira, pois Candau foi o primeiro brasileiro a dirigir um organismo especializado da ONU, a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 1953 e 1973, um período generoso e que correspondeu a algumas boas conquistas. Seus papéis chegaram à COC em duas levas, a última, vinda de Genebra, em plena pandemia, o que contribui para dotar o arquivo de maior integridade", explica Aline Lacerda, assistente técnica da vice-diretoria de Patrimônio Cultural e Divulgação Científica, que participou do processo de envio da segunda remessa do acervo para a Casa de Oswaldo Cruz.

Após passar por todos os processos de higienização, condicionamento, classificação e descrição e inscrição dos dossiês na Base Arch, os itens também ficarão abertos à consulta pública e serão liberados para acesso. 

Diplomacia marcou atuação de Marcolino Candau na OMS 

[Candau] trabalhou em estreita colaboração com a equipe, em Genebra, na Suíça, e ganhou reputação por suas habilidades diplomáticas

Candau passou a integrar a organização em 1950 a convite do primeiro diretor-geral da organização, Brock Chisholm, após experiência bem-sucedida no combate à malária pelo Serviço Especial de Saúde (Sesp), iniciativa conjunta dos governos brasileiro e norte-americano, durante a Segunda Guerra Mundial. Três anos depois, apoiado pelos países latino-americanos, Estados Unidos e alguns países europeus, chegou ao cargo máximo da OMS. Sob sua regência, a agência articulou e promoveu campanhas de vacinação contra a varíola, que mais tarde, alcançaram o objetivo de erradicar a doença, em 1980. 

De acordo com o livro World Health Organization: a history (Organização Mundial da Saúde: uma história), escrito pelo pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz, Marcos Cueto, juntamente com Elisabeth Fee e Theodore Brown, a gestão do brasileiro aumentou a visibilidade, estabilidade financeira e coerência administrativa da OMS. “[Candau] trabalhou em estreita colaboração com a equipe, em Genebra, na Suíça, e ganhou reputação por suas habilidades diplomáticas, utilizadas para aproximar a agência do Banco Mundial, da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês), do Departamento de Estado dos EUA e até do Congresso americano”, afirmam os autores na obra. 

A propósito, foi o talento diplomático de Candau que permitiu seguir um curso independente dos alinhamentos ideológicos da época. O início das atividades da OMS coincidiu com o aumento das tensões entre Estados Unidos e União Soviética, que culminou com o bloco socialista retirando-se em massa do organismo multilateral em 1949. Nesse contexto, o brasileiro assumiu a liderança da organização, sendo bem-sucedido em equilibrar os interesses dos dois polos, com destaque para a condução da campanha de erradicação da malária, pelos EUA, e do combate à varíola capitaneado pelos soviéticos. Estes acabaram retornando à OMS junto com seu bloco durante o mandato de Candau.   

O sucesso da gestão também pode ser verificado em números: o verbete dedicado a Candau no IO BIO Dicionário Bibliográfico dos Secretários-Gerais de Organizações Internacionais, elaborado por Cueto e Bob Reinalda, registra que “em 1953, a OMS tinha 81 países membros, uma equipe de 1.500 e um orçamento de nove milhões de dólares americanos, mas vinte anos depois, a organização incluía 138 estados, uma equipe de quase 4.000 e um orçamento de mais de 106 milhões de dólares americanos”.   

Candau conseguiu ainda que as diretorias regionais fossem designadas pelos países da região e não mais pela diretoria-geral. Suas gestões também foram marcadas pela definição de protocolos globais de tratamento e vacinação, pelo controle de qualidade de medicamentos, ações relacionadas a planejamento familiar, cuidados com o uso da energia atômica, além da inauguração de uma nova sede, em 1966. 

Marcolino Candau desenvolveu laços e conquistou a confiança das principais delegações representantes dos países-membros da OMS. Essa habilidade agregadora, ao lado da capacidade técnica e experiência, são fatores que podem explicar sua longa duração como diretor-geral da Organização Mundial da Saúde e sucessos, como o fim da varíola, única doença humana totalmente erradicada até hoje.