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“A forma como a ciência e o cientista são representados pela mídia pode ser aprimorada”

07 out/2014

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A pesquisadora do Museu da Vida Luisa Massarani desenvolve intenso trabalho em Divulgação Científica, campo ao qual se dedica desde 1987. É diretora da RedPOP-Unesco (rede de popularização da ciência e da tecnologia para a América Latina e o Caribe), integrante do Comitê Científico da PCST Network, a rede internacional para Public Communication for Science and Technology, e coordenadora da SciDev.Net para América Latina e Caribe. Com pós-doutorado na University College London, na qual é Honorary Research Associate do Departmento de Estudos da Ciência e Tecnologia, Luisa publicou cerca de 60 artigos em revistas científicas. Nesta entrevista, ela aborda diversos temas voltados ao seu universo de atuação, incluindo o trabalho que resultou no artigo “Guerra, ansiedade, otimismo e triunfo: um estudo sobre a ciência no principal telejornal brasileiro”, escrito com os pesquisadores Yurij Castelfranchi, da UFMG, e Marina Ramalho, do Museu da Vida (Fiocruz), em que analisa a abordagem do assunto no Jornal Nacional, da Rede Globo.

Segundo ela, a ciência está na pauta de outros programas daquela emissora, como o Fantástico, e de outras redes, como Record. Luisa defende que “a forma como a ciência e o cientista são representados pode ser aprimorada”. Para melhorar a divulgação da C&T, a pesquisadora aponta a capacitação como um caminho importante a seguir. “Cursos de curta duração, por exemplo, atraem os jornalistas e têm um papel provocador bem interessante, especialmente se associado a materiais de apoio na Internet e impressos”, sugeriu. De acordo com Luisa Massarani, de 2009 a 2012, houve uma experiência interessante com a Rede Ibero-americana de Monitoramento e Capacitação em Jornalismo Científico, evento que reuniu 10 países latino-americanos. “Esses esforços, no entanto, precisam ser sistemáticos”, ressaltou. A seguir, a entrevista com a pesquisadora do Museu da Vida.

Recentemente o Journal of Science Communication (JCOM), publicou o artigo “Guerra, ansiedade, otimismo e triunfo: um estudo sobre a ciência no principal telejornal brasileiro”, no qual você, Yurij Castelfranchi e Marina Ramalho analisam o conteúdo de ciência e tecnologia no Jornal Nacional, o principal noticiário da TV brasileira. Mesmo não tendo um repórter exclusivo para a Divulgação Científica, o noticioso dedica mais de 7% de sua cobertura ao tema. Pode-se dizer que há uma preocupação em manter o público do telejornal informado regularmente em ciência e tecnologia? 

De fato, como você aponta, o principal telejornal brasileiro, que tem altos índices de audiência em nosso País, tem temas de ciência e tecnologia (C&T) como parte de sua agenda de notícias, sem ter uma editoria específica para C&T. Ou seja, a C&T compete com outros temas da economia, política, esportes, comportamento etc. e ainda assim ganha um espaço relativo importante. E nossos estudos sugerem que isso não ocorre apenas no Jornal Nacional: o Fantástico, por exemplo, programa de variedades de altos índices de audiência, também dá espaço importante para a C&T. Atualmente, temos um projeto de pesquisa que analisa outros gêneros televisivos da Globo e da Record, e também observamos presença da C&T. Isto contradiz a sensação freqüente na comunidade científica e de jornalismo científico de que a mídia em geral dá pouca atenção à área. Este dado ganha particular importância quando levamos em consideração o fato de que a TV está presente em 96,9% das 59,4 milhões de residências brasileiras e é a fonte mais importante de informações em C&T para a sociedade brasileira.

O telejornal também constrói o noticiário chamando atenção para a novidade, a emoção, dando ênfase a temas da saúde e da medicina. Mas o telespectador fica sem o contexto histórico da pesquisa, como se isso não fizesse parte da construção do novo. Esse enquadramento não é prejudicial ao entendimento das questões científicas pela população, que acaba não tendo acesso a aspectos importantes sobre como a pesquisa foi desenvolvida, até chegar ao triunfo de uma vacina ou medicamento ou à descoberta importante em outro campo do conhecimento?

Sim, você tem razão: dar espaço para a C&T na TV é um passo importante, em particular considerando o peso dado à pesquisa nacional. Mas não é suficiente. A forma como a ciência e o(a) cientista são representados pode ser aprimorada. Por exemplo, vemos que a face de cientista apresentada pelo telejornal é preponderantemente masculina: e de um homem de idade, branco. Mulheres aparecem em número bem mais reduzido, apesar de a comunidade científica brasileira atualmente ser bem equilibrada do ponto de vista de gênero. E quando aparece, igualmente é branca. Profissionais da ciência negros, mulatos e indígenas são praticamente inexistentes do universo midiático – embora é bem verdade que, possivelmente, isto ainda reflita a realidade da ciência brasileira. Esses dados só recentemente começam a ser registrados no Lattes, com a inclusão de questões relacionadas a essas características. A mulher cientista quando aparece no telejornal é mais jovem que o homem cientista; nossos dados sugerem um papel estereotipado do homem e da mulher cientistas: enquanto os homens saem para literalmente explorar outros mundos, as mulheres cuidam da saúde e do corpo. A ênfase na novidade e nas emoções conforme dada pelo telejornal, com pouco respaldo na construção histórica da ciência, é uma lacuna importante – mas expressa a própria dinâmica da TV e, em particular, dos telejornais. A meu ver, algumas dessas características não vão mudar (ou pelo menos não significativamente), justamente por estarem associadas à linguagem da TV. Mas a TV tem um papel importante em provocar as audiências para os temas de C&T. Cabe a nós, divulgadores da ciência, que atuamos em museus de ciência, aproveitar essa porta aberta e aprofundar mais as questões de C&T, em particular provocando uma maior discussão de temas que têm impacto na sociedade.   

Seu artigo no JCOM constatou que ainda há uma predominância na voz masculina no tocante às fontes de consulta. Por que isso ainda acontece, se temos a mesma porcentagem de homens e mulheres atuando no campo científico de modo geral?

Em nosso artigo, mostramos que de fato há mais homens cientistas sendo entrevistados – brancos e seniores. Acreditamos que isso esteja associado ao próprio imaginário de jornalistas, de que cientistas são homens, e os seniores dão maior credibilidade como fontes. Mas isso são conjecturas. Precisamos adicionar ao nosso estudo uma etapa de entrevistas com os jornalistas, para perguntar por que isso aconteceu. Nas palestras que dou, gosto de me referir ao livro autobiográfico do cineasta Luis Buñuel, Meu último suspiro, em que ele ironiza as interpretações psicanalistas dadas a seus filmes. Por exemplo, diziam que ele escolheu duas atrizes para o mesmo personagem no filme “Esse obscuro objeto do desejo”, para representar as personalidades distintas que o personagem tinha. Segundo Buñuel, a explicação era bem mais singela: a atriz era muito chata e foi despedida. Acho que em estudos de mídia e ciência (e outros), muitas vezes sofremos do que chamo o “Efeito Buñuel” e tomamos caminhos equivocados no momento de uma análise crítica.

Como melhorar a divulgação da C&T na imprensa brasileira? 

Me parece que um bom caminho é a capacitação de diferentes níveis. Cursos de curta duração, por exemplo, atraem os jornalistas e têm um papel provocador bem interessante, especialmente se associados a materiais de apoio na Internet e impressos. Entre 2009 e 2012, tivemos uma experiência bem interessante com a Rede Ibero-americana de Monitoramento e Capacitação em Jornalismo Científico, que reuniu 10 países latino-americanos, e realizamos um esforço particular na América Central. Esses esforços, no entanto, precisam ser sistemáticos.

A Medalha Fields, considerada o Nobel da Matemática, foi entregue recentemente ao brasileiro Artur Ávila Cordeiro de Melo, de apenas 35 anos, e mais dois outros cientistas estrangeiros. Esse tipo de prêmio pode impulsionar junto aos estudantes e, mesmo ao governo, o interesse em divulgar a ciência e mostrar que somos capazes de produzir pesquisa de qualidade no País?

Com certeza. Mas o caso de Artur tem uma outra característica instigante que foi menos abordada pela mídia: ele se interessou pela matemática a partir das Olimpíadas de Matemática, que tem envolvido, a cada ano, mais de 19 milhões de jovens da rede pública de todo o País, muitos deles do interior. Alguns educadores criticam o modelo das Olimpíadas supostamente por estimularem a competição entre os jovens. Eu vejo isso com um outro olhar: a meu ver, as Olimpíadas têm dado voz a jovens dos quatro cantos do País, muitas vezes de cidades minúsculas, inclusive com possibilidades reais de seguir seus estudos e chegar a uma universidade.

O Brasil aparece como líder em número de museus e centros de ciência na América Latina e Caribe, com 260 dos cerca de 460 espaços desse tipo reunidos no guia inédito que a RedPOP vai publicar em breve. Parece muito, mas o Brasil tem dimensões continentais e acaba tendo problemas para divulgar ciência e tecnologia no seu espaço territorial. Como diminuir essa distância do público em relação à DC? Projetos como o Ciência Móvel podem ajudar?

Em primeiro lugar, estes números precisam ser vistos ainda com certo cuidado. No Brasil, fazemos este levantamento desde 2005; justamente finalizamos a terceira rodada, agora em 2014. A cada levantamento, o número de museus identificados cresce, em parte porque novos museus estão sendo criados no Brasil, em parte porque estamos conseguindo identificar outros museus. É a primeira vez que fazemos este levantamento em nível de América Latina. Sabemos que, de fato, mesmo a Argentina, que tem uma tradição educativa, cultural e científica importante, tem um número bem menor de museus que o Brasil. Mas o México, por exemplo, ainda está sub-representado no guia: há 58 espaços, enquanto a estimativa é de que o número chegue a 400, se incluirmos os museus de antropologia que, a meu ver, também devem ser contemplados. Mas, de qualquer forma, concordo inteiramente com a sua afirmação: ainda é insuficiente o número de museus de ciência no Brasil. Só a região sudeste, por exemplo, concentra 60% dos museus de ciência brasileiros. Contamos nos dedos da mão o número de museus de ciência na região norte, que é imensa do ponto de vista territorial. Projetos como Ciência Móvel podem, sim, ajudar, com veículos diversos, como caminhão, vans, barcos e outros. Recentemente, conheci Barbara Streicher, que participa de um projeto bem interessante liderado pela Science Center Netzwerk da Áustria: são museus de ciência temporários, que ocupam lojas que estão vazias em bairros de menor poder aquisitivo. O projeto também percorre locais como prisões, levando discussões em torno de temas de C&T. Em outras palavras: os museus de ciência certamente são fundamentais e devemos lutar para que mais deles sejam construídos, Mas precisamos também viabilizar projetos itinerantes que percorram Brasil adentro.

Desde janeiro você dirige a RedPOP. À frente da entidade, você já participou de importantes eventos como a conferência PCST 2014, em Salvador, promovida pela primeira vez na América Latina; promoveu a mudança da imagem com um novo logo para a entidade e reuniu um guia inédito de museus e centros de ciência da região. Quais os próximos desafios que a RedPOP deverá enfrentar na sua gestão, até 2015?

Desde que assumimos a direção em janeiro, iniciamos vários projetos simultaneamente. Um deles você já mencionou: o primeiro Guia de Museus de Ciência da América Latina. É um trabalho de fôlego, que só foi possível por trabalharmos em rede, com organizações e pessoas nos distintos países da região. Acabamos a coleta das informações nessa etapa e já finalizamos os textos; agora vamos entrar na etapa de produção do livro, que será em dois idiomas, português e espanhol. Mas será um trabalho que estará sempre em construção, por conta do caráter dinâmico da área. Também já finalizamos um mapeamento das políticas de divulgação científica existentes na região. Um desafio importante agora é renovar o site, etapa que justamente iniciamos. Vamos fazer um mapa dos cursos de pós-graduação em divulgação científica existentes na região. E temos nosso evento em 2015 – o 14º Congresso da RedPOP, em Medellín, na Colômbia -, que é sempre um momento muito importante para a rede, em que profissionais práticos e acadêmicos de toda a região se encontram para compartilhar experiências e atuar em rede, com possíveis projetos conjuntos. 

No seminário “Divulgação científica e museus de ciência: o olhar do visitante”, organizado pela RedPOP e o Museu da Vida, havia uma preocupação com projetos para conhecer mais o público desses espaços. Por que é importante conhecer o público que vai a museus e centros de ciência? 

A divulgação científica tem crescido muito na América Latina – e nós não precisamos ser convencidos da importância disto. Mas o grande ponto de interrogação existente hoje é o que todas essas iniciativas significam do pronto de vista dos públicos. Que sentidos as pessoas constroem a partir das experiências museais? Será que essas visitas têm um papel na construção da cidadania, na construção de cidadãos mais críticos?

Você se dedica à divulgação científica desde a época da graduação em Comunicação Social, no final da década de 1980. De lá para cá, que avanços observados por você nesta área merecem destaque?

Creio que avançou muito. No Brasil, em particular, a última década foi de muita efervescência: vários museus de ciência foram construídos no País, há uma profissionalização da divulgação científica, inclusive com vagas de concurso público para quem quer seguir esse tipo de profissão; há editais para apoiar projetos práticos e acadêmicos de divulgação científica. O CNPq [agência de fomento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI)] e a Faperj [Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro] criaram inclusive áreas específicas para a divulgação científica. O CNPq também colocou no Lattes [Plataforma de integração de bases de dados de currículos, de grupos de pesquisa e de instituições em um único sistema de informações] a aba da popularização da ciência, dando mais visibilidade a ações nessa área. E a última conquista foi que o CA [Comitê de Assessoramento] de divulgação científica do CNPq desde o ano passado está dando bolsas de produtividade. Ainda é um campo emergente e em construção, mas é clara a sua importância.