Fiocruz
Webmail FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ
imagem de “Trabalhamos em uma área de ponta e temos muito a dizer”

“Trabalhamos em uma área de ponta e temos muito a dizer”

André Felipe Cândido da Silva, professor do PPGHCS, fala sobre potencial do Brasil e da Casa para firmar parcerias com pesquisadores e instituições estrangeiras

Karine Rodrigues

26 fev/2026

Início do conteúdo

Coordenador, no Brasil, de um dos quatro projetos selecionados no edital para o Programa de Excelência em Pesquisa Internacional (Proep-Inter) da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), uma parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia de Portugal (FCT), o biólogo e historiador André Felipe Cândido da Silva vê o processo de internacionalização como uma oportunidade para se mostrar o potencial da produção nacional. “Muitas vezes, não nos vemos nesse lugar [da inovação], apesar de desenvolvermos abordagens inovadoras”, diz o professor do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde (PPGHCS/COC/Fiocruz), que cita como exemplo o papel pioneiro do Brasil no debate e nas práticas da Ciência Aberta, movimento que visa tornar a pesquisa e os dados científicos acessíveis a todos.   

André Felipe também chama atenção para as transformações nas formas de conexão com parceiros internacionais, tradicionalmente baseadas na ideia de um Brasil exclusivamente receptor de conhecimento. Ao enfatizar essa mudança nos termos das cooperações, destaca a expertise da Casa de Oswaldo Cruz: “Trabalhamos em uma área de ponta da historiografia, com discussões que estão muito fortes no cenário internacional e em que nós, brasileiros, temos muito a dizer”. Na entrevista, o pesquisador do Departamento de Pesquisa em História das Ciências e da Saúde (Depes) fala sobre a experiência na Universidade Xangai, na China, e destaca a importância das atividades de internacionalização.  

Como foi a sua experiência recente na China?  

Participei de um workshop promovido pelo Centro de Pesquisa para Saúde e Bem-Estar, da Universidade Xangai, já como uma primeira iniciativa de aproximação e com quem estabelecemos uma parceria. Foram diversos pesquisadores de vários países, com foco no Sul Global. O fato de enfatizar conexões com o Sul Global é um ponto que deve ser sublinhado, pois denota um esforço para promover circuitos de internacionalização que, não necessariamente, passem pelos países do Norte Atlântico. Não no sentido de excluí-los, mas de promover conexões, pois, tradicionalmente, privilegiamos ligações com a Europa ou com os Estados Unidos, quase como se uma internacionalização virtuosa fosse necessariamente com esses países. E o que esse workshop reforçou foi a tentativa de fortalecer redes do Sul Global. Deu para perceber que eles têm em alta conta a experiência brasileira, as nossas questões e debates. E há muito interesse pelo que significa a Fiocruz no terreno da saúde. Um foco muito importante foi a discussão sobre a descolonização das ciências, da saúde e do conhecimento e a promoção da relação entre saberes acadêmicos e não acadêmicos. Sobre a China, deu para notar que há um esforço para o fortalecimento de redes internacionais de pesquisa e de maior aproximação acadêmica com o Brasil. Em 2025, eles liberaram os vistos para os brasileiros. Foi possível identificar sinergias, planejamentos de intercâmbios de pesquisadores, de estudantes, de pós-docs com o nosso projeto, o Ecologias insubmissas [Selecionado no Proep-Inter 2025], além de pontos de contato com outros temas e setores de atuação da COC. Além disso, eles começaram a montagem de uma rede, com uma abordagem decolonial da saúde. Ela não é estritamente sobre saúde global, pois envolve debates mais integrativos, mais abrangentes do que é saúde e bem-estar.  Além de participar do workshop, dei uma aula na Universidade de Xangai para estudantes de engenharia ambiental, na qual abordei os debates ambientais mais cadentes em torno das discussões sobre sustentabilidade, ambiente, governança e saúde no Brasil.

Você foi um dos professores na Escola Internacional de Inverno promovida pela Casa em parceria com a Universidade Johns Hopkins. Como foi a essa experiência?  

Acho que abriu muitas portas. Foi muito relevante a iniciativa de juntar professores, de cá e de lá, identificar pontos comuns e colocar os estudantes para interagir. Essa é uma forma muito produtiva de promover a internacionalização: deixar os contatos e as sinergias surgirem na convivência entre os estudantes e pesquisadores. Dei uma aula com a Nicole Labruto, antropóloga que estuda Brasil, e nós identificamos um programa de pesquisa que nos interessa e que passa pela discussão das plantations como grandes vetores de transformação ecológica e epistêmica no mundo lusófono; do papel das ciências agrárias e da antropologia das ciências. A partir dali, já surgiram outras possiblidades de colaboração. Foi um exemplo de como, ao promover os contatos, as sinergias emergem. A experiência deixou claro que ambas as partes têm muito a dizer e compartilhar em esforços conjuntos de internacionalização.  

Qual a importância de eventos e cursos para o processo de internacionalização?   

Historicamente, os eventos são as instâncias mais simbólicas de promoção da internacionalização, pois é onde, efetivamente, especialistas de diferentes partes do mundo se colocam juntos para apresentar seus achados, harmonizar suas metodologias e tecer comparações. A historiografia das ciências mostra que os eventos foram vetores muito importantes da internacionalização, e acho que esse traço se mantém. Daí a relevância do apoio para que pesquisadores e estudantes estejam presentes nesses eventos e participem de associações internacionais. É importante que as instituições de pesquisa e ensino acadêmico no Brasil tenham linhas estruturadas e continuadas de apoio à participação de estudantes e pesquisadores nos eventos. Os cursos, por outro lado, constituem muito mais uma etapa de formação ou de introdução em um determinado campo de debates, mas são igualmente importantes. Um exemplo é o curso com a Johns Hopkins. Quando se está em interação com pesquisadores de outra nacionalidade se estabelece contato com outras abordagens, e, em muitos casos, com outras questões. Acho que isso é o próprio oxigênio da inovação acadêmica, porque é de onde podem surgir outras formas de fazer, de narrar e de ensinar. No caso do nosso programa [PPGHCS] e do nosso departamento [Depes], atuamos em uma área de ponta da historiografia, que é a história da medicina, da saúde, do ambiente, com discussões que estão muito fortes no cenário internacional e relativas aos desafios contemporâneos sobre as quais nós, brasileiros, temos muito a dizer. Então, temos um saldo acumulado de estudos de grande repercussão, mas que muitas vezes, por uma série de razões — uma das principais seria a questão linguística, de publicarmos predominantemente em português —, não atingem audiências mais ampliadas.   

Como a experiência brasileira pode contribuir para o debate sobre a internacionalização?  

A nossa experiência é muita rica. Não só em termos de temas e de abordagens, mas na maneira como estruturamos a prática acadêmica e científica. O fato de termos instituições públicas, e com uma consciência muito mais clara do papel público do conhecimento, é também uma contribuição muito importante que nós, brasileiros, e particularmente nós da Fiocruz, da Casa de Oswaldo Cruz, temos a dar nesses esforços de internacionalização. Podemos participar da internacionalização trazendo inovações, pois acho que, muitas vezes, não nos vemos nesse lugar. No caso das publicações científicas, estamos avançados no debate e nas ações de promoção da Ciência Aberta. Senti isso na minha passagem como editor da [revista História, Ciências, Saúde -] Manguinhos e acompanhando as iniciativas institucionais da Fiocruz Temos a Scielo [Scientific Eletronic Library Online, criada no Brasil na década de 1990, que contribuiu de forma pioneira com o modelo de publicação científica em acesso aberto]. Apenas agora europeus e norte-americanos estão pensando mais sistematicamente em modelos de sustentabilidade financeira e política dessas iniciativas. Muitas vezes, o debate sobre o idioma vem atrelado à publicação em periódicos de alto impacto, que estão vinculados a grandes casas editoriais privadas, e como esse conhecimento muitas vezes fica circunscrito porque está na mão dessas grandes corporações e precisa ser pago. Precisamos trazer essa perspectiva crítica em relação à internacionalização. Quer dizer, então, que aquilo que é considerado a ciência de ponta, reconhecida e valorizada como de excelência, é essa que é publicada nesses veículos, e em inglês, e que acabam promovendo uma privatização do conhecimento? Essa discussão não é de hoje. Acho que podemos ajudar a colocar isso nos fóruns internacionais porque, muitas vezes, está fora do horizonte de percepção dos nossos parceiros estrangeiros, embora eles estejam cada vez mais interessados em avançar nessa direção.