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Cardiologia surge no Brasil associada ao debate sobre a saúde do trabalhador

2023-08-28

Intercâmbio acadêmico com os Estados Unidos, impulsionado pela Política da Boa Vizinhança, contribuiu para a legitimação da nova especialidade, diz artigo 

            Arte: Elias Sousa 

Ilustração que mostra a imagem de uma mulher deitada, de bruços, com um caranguejo no ventre e uma mão cravando um punhal no caranguejo, que representa o câncer

Por Karine Rodrigues

Em 1937, ano em que Getúlio Vargas instaurou o Estado Novo, as doenças do coração mobilizavam a atenção do campo médico no país. Nas revistas da área e nas faculdades de medicina, profissionais ressaltavam a importância de se criar uma nova especialidade. Mas também havia resistências dentro da própria categoria em relação aos novos saberes e práticas. A introdução da eletrocardiografia como método de diagnóstico, por exemplo, suscitou debates e defesas dos meios tradicionais do exame clínico.

“Não tenhamos, pois, a ilusão de que o máximo de instrumental e de pesquisas complementares é a chave do bom juízo diagnóstico. Não raramente um pequeno grupo de sinais clínicos apurados com rigor constituem elementos bastantes e preciosos. São os ovos de ouro da clínica”, declarou o médico Arnaldo Marques, durante aula inaugural da cadeira de clínica da Faculdade de Medicina do Recife.

O episódio é relatado em artigo na Revista de História, da Universidade de São Paulo (USP), no qual a historiadora Simone Kropf analisa o discurso e a mobilização dos médicos pela constituição da cardiologia como especialidade no Brasil, nos idos de 1930 e 1940. “Em geral, o senso comum, e mesmo algumas interpretações mais tradicionais da história da medicina, produzidas pelos próprios médicos, veem esse processo histórico de surgimento e de institucionalização da especialidade médica como algo  automático, uma consequência ‘natural’, por exemplo, do acúmulo de conhecimentos em relação a determinado aspecto da área médica”, observa a professora do Programa de Pós-graduação em História das Ciências e da Saúde (PPGHCS) da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz).

No estudo, Simone mostra que esse processo não está circunscrito à esfera médica, com seus saberes e práticas. “Depende também de certas circunstâncias, da vida social daquele momento e dos interesses dos diversos grupos envolvidos”, explica, argumentando que, no caso analisado, o desenvolvimento da cardiologia esteve diretamente ligado ao processo político-social mais amplo, em especial, às mudanças no mundo do trabalho, realizadas pelo governo Vargas.

Essa perspectiva de análise, que considera a produção do conhecimento científico como social e historicamente determinada, é a abordagem praticada da Casa de Oswaldo Cruz e no campo em geral, acrescenta a historiadora, pesquisadora do Departamento de Pesquisa em História das Ciências e da Saúde (Depes) da instituição.

Pelo bem (da produtividade) dos trabalhadores

No período analisado no estudo, criara-se no país uma estrutura de proteção social para os trabalhadores urbanos, que seriam o “esteio econômico e moral” de um novo Brasil, segundo propalava o governo. Eles passaram a ter direito à assistência médica e previdência, de acordo com a Constituição Federal de 1934. “A preocupação de Vargas em combater a pobreza e aumentar a capacidade produtiva dos trabalhadores levou à criação de todo um aparato técnico e jurídico visando protegê-los das consequências de doenças, mediante benefícios que compreendiam assistência médica, seguros contra morte e invalidez e licenças por motivos de saúde”, escreve Simone. 

Naquela época, enfermidades como o câncer e as doenças cardiovasculares, que estavam associadas ao aumento da expectativa de vida e ao estresse da vida moderna, já eram destacadas pela área médica como um motivo de preocupação no país. Como as cardiopatias figuravam entre as causas mais importantes de morte ou invalidez entre trabalhadores, os profissionais que se identificavam como cardiologistas ressaltavam a necessidade de conhecimento, técnica e aparelhos especializados para prevenir, diagnosticar e tratar desses males, permitindo assim que os trabalhadores, tão fundamentais ao desenvolvimento nacional, pudessem realizar adequadamente suas atividades laborais e retornar às mesmas em caso de afastamento causado por essas doenças.

A eletrocardiografia, que já existia desde o início do século, passa a ser difundida nesse contexto, atraindo muitos médicos, mas também suscitando questionamentos. Até então, o diagnóstico clínico tradicional, “à beira do leito”, como se dizia, era uma prática da clínica médica em geral, enquanto o novo método pressupunha procedimentos especializados. Embora a tecnologia representasse de fato um avanço no entendimento das doenças do coração, “foi necessário todo um processo de persuasão, de convencimento em relação aos que praticavam esse diagnóstico de uma maneira mais tradicional”, observa a historiadora.

No artigo, Simone argumenta que o processo de institucionalização da nova especialidade médica se deu por meio de dois movimentos conectados entre si. Além de “a associação entre as doenças cardiovasculares e a saúde e a produtividade dos trabalhadores urbanos” ter propiciado “elementos discursivos e espaços de atuação para os médicos que buscavam tal especialização”, a introdução da eletrocardiografia, favorecida pelos intercâmbios com os Estados Unidos, “foi fundamental para a legitimação e diferenciação da figura do cardiologista como especialista”.

A pesquisa realizada por Simone sobre a história da cardiologia abriu caminho para um estudo específico sobre a Sociedade Brasileira de Cardiologia, realizado por Rodrigo Otávio Paim de Souza em sua dissertação de mestrado intitulada História da Cardiologia no Brasil: a construção de uma especialidade médica (1937-1958), concluída, sob sua orientação, no Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz em 2018.

“Mentor” da cardiologia brasileira visitou Instituto Oswaldo Cruz

A novidade chegara ao Brasil por meio do intercâmbio acadêmico com profissionais do Estados Unidos, à época impulsionado pela Política da Boa Vizinhança do governo Franklin Roosevelt (1933-1945). Uma referência no estudo da eletrocardiografia no país, o cardiologista Frank Norman Wilson (1890-1952) oferecia um curso anual sobre o tema na Universidade de Michigan e recebia estudante estrangeiros, entre os quais Dante Pazzanese (1900-1975), que replicou a experiência na capital paulista, oferecendo, em 1941, o primeiro curso de cardiologia anual no país, no Hospital Municipal de São Paulo.

No ano seguinte, Wilson veio ao Brasil para ministrar palestras e um curso intensivo de eletrocardiografia. No Rio de Janeiro, visitou o Instituto Oswaldo Cruz, e o Laboratório de Biofísica da Universidade do Brasil (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro), e acabou se tornando “mentor” da cardiologia brasileira. Muitos de seus seguidores desempenharam importante papel na criação da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), em 1943.

A vinda de Wilson ao país foi “decisiva para a afirmação da cardiologia no Brasil, e valiosa também para convencer seus colegas nos Estados Unidos a utilizar sua abordagem da eletrocardiografia”, escreve Simone, que realizou a pesquisa sobre a importância do intercâmbio Brasil-Estados Unidos para a história da cardiologia em colaboração com o historiador Joel Howell, da Universidade de Michigan. O trabalho foi o início de uma parceria que se iria se aprofundar no período em que ela realizou estágio de pós-doutoramento naquela universidade, abordando outros aspectos do intercâmbio entre os dois países.

Internacionalização da pesquisa

“É uma pesquisa que eu já vinha desenvolvendo sobre as relações entre médicos brasileiros e estadunidenses e que foi ampliada quando conheci o Joel. Ela é um exemplo do processo de internacionalização da pesquisa que temos aqui na Casa de Oswaldo Cruz. É um exemplo dessas trocas”, observa a historiadora.


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