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Encontro às Quintas: Patrimônio e desigualdade marcam nova pesquisa de Maria Inez Turazzi

17 nov/2016

 Maria Inez Turazzi diante do público
Um dos objetivos centrais da pesquisa de Maria Inez Turazzi é entender o papel das imagens das cidades na
construção social da ideia de pobreza. Foto: Vinicius Pequeno.

 

Convidada do Encontro às Quintas, a historiadora Maria Inez Turazzi, pesquisadora do Laboratório de História Oral e Imagem/UFF, citou o escritor e pensador alemão Goethe para explicar o tema de sua palestra Imagens da cidade: patrimônio e desigualdade na construção da paisagem do Rio: “Olhar apenas para uma coisa não nos diz nada. Cada olhar leva a uma inspeção, cada inspeção a uma reflexão, cada reflexão a uma síntese, e então podemos dizer que, com cada olhar atento, estamos teorizando”. Segundo ela, a frase de Johann Wolfgang von Goethe é muito inspiradora e apropriada ao tema escolhido. “Meu interesse é o estudo do nosso modo de olhar a paisagem do Rio de Janeiro em múltiplas dimensões”. Maria Inez Turazzi concentrou seu recorte no reconhecimento do lugar das imagens que representam uma dada paisagem na história de dois conceitos: patrimônio e desigualdade, que se desenharam ao trabalhar com fotografias e outras fontes iconográficas; especificamente, com a história da cidade do Rio de Janeiro.

De acordo com a historiadora, o conceito de patrimônio é relativamente recente (mais ou menos dois séculos), enquanto o de desigualdade remonta à Grécia Clássica. “Aristóteles já comentava sobre isso”, lembrou. Ressaltando que se baseava em um projeto de pesquisa em construção, disse que a paisagem do Rio não é a escolha de um tema, mas “um processo que leva em conta tanto experiências acumuladas quanto as indagações do presente, a inserção no mundo acadêmico, mas, também, na vida pessoal em questões que passaram a me chamar atenção cada vez mais”.

Maria Inez Turazzi abordou a articulação entre a semântica dos conceitos e os estudos sobre a cultura visual em determinado espaço-tempo. “Quando falo da experiência acumulada, e os questionamentos que inspiram essa construção, uma das inspirações para a construção desse tema foi a exposição no Museu da República [O Rio que se queria negar: as favelas do Rio de Janeiro no acervo de Anthony Leeds – apresentada entre setembro de 2015 e janeiro de 2016] a partir de imagens do antropólogo norte-americano. A pesquisadora da UFF disse que aquele evento (incluiu seminário e o lançamento de nova edição do livro “A Sociologia do Brasil Urbano”) ajudou a pensar o tema de sua pesquisa.

Ao se referir ao alemão Reinhart Koselleck, lembrou que ele se dedicou à história dos conceitos. Koselleck formulou uma teoria da história. Para o pesquisador, falecido em 2006, o surgimento do conceito moderno de história implicou em nova relação entre passado e futuro, e na introdução de um novo léxico. “Em termos metodológicos, o historiador realizou e comprovou a riqueza de uma investigação linguística das experiências temporais. Mas, é preciso salientar que linguagem sobre a qual ele se debruçou era sobretudo a linguagem verbal. Koselleck lembrava que, naturalmente, não é toda palavra do nosso léxico que pode se transformar em conceito”, disse a historiadora. No livro Futuro Passado [Contribuição à Semântica dos Tempos Históricos], ele analisa que a perspectiva temporal do passado se realinham recíproca e alternadamente de maneira contínua.

Maria Inez Turazzi declarou que uma ideia-chave da obra é o espaço da experiência e o horizonte das expectativas de uma dada coletividade como determinantes na construção do tempo histórico. “Eu acredito ser possível uma articulação entre a semântica dos conceitos e as linguagens visuais em determinado espaço-tempo. É com essa perspectiva que eu estou pensando em construir meu objeto de pesquisa”, declarou a historiadora.

Percurso do tema – Exposição Nacional de 1908

A historiadora afirmou que seu interesse em trabalhar com fotografia e temas relacionados ao Rio de Janeiro foi determinado pelo contato que teve com imagens da Exposição Nacional de 1908. O evento foi promovido pelo Governo Federal para comemorar o centenário da Abertura dos Portos (1808) e de fazer um inventário da economia do país. Tinha como objetivo apresentar a nova Capital da República – urbanizada pelo prefeito Pereira Passos e saneada por Oswaldo Cruz – a diversas autoridades nacionais e estrangeiras que a visitaram.

Maria Inez Turazzi defendeu o papel da fotografia não só na documentação de uma obra pública, mas para a criação da memória e na positivação da ação dos agentes empreendedores. Ela lembrou a importância do engenheiro Adolpho José Del Vecchio, que construiu a Ilha Fiscal. Para Turazzi, essa construção possui um sentido simbólico no Rio de Janeiro, pois transformou completamente a então conhecida “ilha dos ratos” fixando um monumento na entrada da Baía da Guanabara. Del Vecchio “era um engenheiro dileto do imperador” [Dom Pedro II], avaliou a historiadora. Ele também seria responsável pela construção do Porto do Rio de Janeiro, no início do século 20.

Na palestra, Turazzi falou também sobre a importância da fotografia digital. De acordo com a pesquisadora, a digitalização é uma ferramenta que abre muitas possibilidades para o estudo sobre as condições de trabalho, o gestual, as relações hierárquicas, as origens sociais. E citou como exemplo imagens de imigrantes portugueses pobres que vieram para a cidade no final do século 19 e foram engajados na obra do Porto do Rio de Janeiro. Esse empreendimento “tem a memória da presença afro, mas também lisboeta”, declarou.

Importância de Marc Ferrez, Augusto Malta e Anthony Leeds

“Esse trabalho com a história da engenharia me aproximou do universo de Marc Ferrez, que foi, sem dúvida, um dos maiores fotógrafos de todos os tempos”, disse Maria Inez Turazzi. Segundo a pesquisadora, a justificativa está em dois critérios: singularidade e excepcionalidade. Ela disse que Ferrez teve o acervo preservado, estudado e divulgado internacionalmente, “o que nem sempre ocorre com um excelente fotógrafo”, lembrou. O acervo de Marc Ferrez (1843-1923) está no Instituto Moreira Salles desde maio de 1998, compondo 15 mil imagens da Coleção Gilberto Ferrez (pesquisador e neto do fotógrafo carioca).

Na avaliação de Turazzi, um dos trabalhos possíveis em torno da obra de Marc Ferrez – ainda pouco conhecida, frisou – são estudos comparativos com outros fotógrafos ou sobre as ausências. Ela explicou que esses temas são interessantes, porém pouco explorados, o que também ocorre acerca da relação do fotógrafo com o Estado (tanto o monárquico quanto o republicano).

Falando ainda sobre o significado da obra de Ferrez, a pesquisadora lembrou o Fundo Arquivístico da Avenida Central – obra dirigida pelo engenheiro Paulo de Frontin – cujo álbum foi produzido pelo fotógrafo. De acordo com Maria InezTurazzi, esse detalhado projeto de Ferrez (que dedicou 50 anos à profissão) não encontra equivalente no mundo e mostra a relação entre a atividade fotográfica e o estado. O fotógrafo registrou as grandes construções da engenharia, trabalhou com reprodução de obras de artes e plantas, dedicou-se ao comércio de equipamentos fotográficos e ao cinema, neste caso já no final da vida, contou. Cuidadoso com a organização do que produzia, ele tinha uma “nítida intenção de memória”, destacou a historiadora.

Marc Ferrez era um politécnico da fotografia e participou de exposições internacionais e de reuniões da Sociedade Francesa de Fotografia. Debruçou-se sobre a química, a física, a mecânica e tinha contato com o que havia de mais avançado na fotografia. Conviveu com cientistas e produziu instrumentos ópticos para José Maria dos Reis, em 1871. Outra iniciativa do fotógrafo foi o desenvolvimento de um equipamento para imagens panorâmicas, um instrumento que permitia à câmera girar sobre a cena. O equipamento, porém, não foi preservado.

Paisagem e desigualdade

A historiadora defendeu a abordagem da desigualdade em sua pesquisa. Maria Inez Turazzi dividiu algumas das indagações sobre o tema estudado com os presentes à palestra: o conceito de desigualdade em sua universalidade e em sua dimensão histórica. Como empreender o estudo da semântica desse conceito considerando o estatuto filosófico dessa ideia como categoria do pensamento humano e, ao mesmo tempo, levar em conta a sua dimensão temporal e espacial, a sua dimensão histórica? Como definir o lugar da visualidade na formação do conceito e nas suas mutações espaciais e temporais? Qual o papel das imagens da pobreza e, em particular, das imagens da pobreza nas cidades para a construção social dessa ideia na consciência humana?

Para a pesquisadora, a desigualdade no Brasil tem a ver com a história de como ela foi construída. Segundo ela, isso é visto na naturalização nas novelas, no cartão postal, no souvenir da favela. “A gente tem uma ambiguidade diante dessa realidade que se expressa de forma tão evidente no espaço da cidade, que é uma maneira de pensar a desigualdade; ela não é igual em todos os lugares”, declarou.

“A maneira como a gente vê, se confronta, se expressa e representa tem as suas particularidades temporais e espaciais. É sobre isso que estou me debruçando agora”, adiantou sobre sua nova pesquisa.

Os processos de estranhamento e de naturalização da desigualdade social são ambos devedores das formas de produção e apreensão do mundo e da construção de paisagem. “O projeto [de pesquisa] não é especificamente sobre as favelas, mas sobre o modo de ver, rever e ‘transver’ – para usar uma expressão do poeta Manoel de Barros – a desigualdade através de imagens das favelas”, concluiu a pesquisadora.

Maria Inez Turazzi também falou sobre Augusto Malta, um dos primeiros a trabalhar em favelas do Rio de Janeiro; e sobre Anthony Leeds. Esse último, na avaliação da pesquisadora, subverteu os planos já consagrados na representação das favelas e inverteu as hierarquias espaciais da cidade. Segundo ela, em algumas imagens o antropólogo norte-americano apresentou a favela carioca de dentro e do alto a partir de um ângulo oblíquo e descendente, que projeta a cidade para longe e acentua o barraco como elemento preponderante de sua visualidade. Ela sugere seu equilíbrio duvidoso, como uma metáfora de toda tensão provocada no espaço da cidade do Rio de Janeiro e na sociedade brasileira em geral diante da persistência de suas imensas desigualdades, finalizou a historiadora da UFF.