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Antologia de uma existência ou trajetórias de vida: pesquisadores discutem a multiplicidade de formas e de usos da biografia na história

03 maio/2012

O Encontro às Quintas para discutir “os usos da biografia na história” foi realmente diferente, por contar não apenas com uma, mas duas apresentações – de Yonissa Wadi e Temístocles Cezar – em que os professores mostraram as inúmeras possibilidades e os questionamentos em torno do gênero “biografia”. Isso acabou provocando dúvidas, como a de uma doutoranda atônita, que perguntou: “Afinal, professor, as biografias não existem?

 

Logo na abertura dos debates, Temístocles Cezar apressou-se em esclarecer que não questiona “a legitimidade da biografia” e, na realidade, “consegui chegar ao que chamo de antologia de uma existência, pois não me sinto capaz de fazer uma biografia”. Essa sua declaração revela uma autocrítica exagerada, pois o professor é autor de trabalhos de fôlego sobre Adolpho de Varnhagem, este, por sua vez, autor de diversos perfis biográficos publicados, no século 19, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

 

Temístocles Cezar disse não ser biógrafo e explicou que se dedica à historiografia, o ofício do historiador, que é estudar a teoria da história,  a escrita da história. Ele chegou à biografia a partir dos estudos historiográficos sobre a Nação e a independência, feitos durante o século 19.  

 

Cezar dirige o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integra grupos de pesquisa da área de historiografia, sendo uma referência nos temas relacionados à escrita e teoria da historia.

 

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Yonissa Wadi e Temístocles Cezar durante os debates. Foto: Vinícius Prqueno

 

Doutora em história, Yonissa Wadi é professora do curso de graduação em ciências sociais e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), e também disse que não fez uma biografia “na acepção tradicional”. A partir da “trajetória de vida de Pierina” ela conseguiu “trilhar um caminho rumo à história da psiquiatria e da loucura”. Sua tese de doutorado, que foi publicada, tenta desvendar quem foi aquela louca, filha de colonos italianos que imigraram para o Sul do país.

 

Em 1880 Pierina Cechini matou a filha de 17 meses afogada em uma tina de lavar roupas, e passou o resto de seus dias em uma clínica psiquiátrica. Os prontuários médicos, as cartas que a paciente escrevia aos médicos e funcionários do sanatório e à sua família foram o fio condutor da pesquisa.

 

Yonissa falou dos desafios do seu trabalho, em que busca acompanhar as tendências latino-americanas da produção historiográfica no campo teórico e metodológico. No final do século 19, disse, houve a “historiografia pioneira”, laudatória, “em geral escrita por colegas médicos, restringindo-se aos feitos das primeiras gerações de psiquiatras”.

 

A “historiografia crítica”, diz ela, “é a tendência mais recente”, em que “as perspectivas da historia tradicional, seus cortes e perspectivas foram revistos e ampliados”.  Novos estudos incluem diferentes temáticas de pesquisas, em que as fontes passaram a ser textos literários e de jornal, teses, desenhos feitos pelos doentes. “Isso tudo abriu novas perspectivas analíticas sobre as concepções de loucura e sua história”, afirma a pesquisadora.

 

As análises incluem os papéis desempenhados pelas instituições e seus atores, as famílias e as relações que estabelecem com os doentes. “Uma outra nova perspectiva, a da história social da loucura, leva em conta o que o louco sente e sonha”. Para a professora, “essas narrativas da loucura permitem a construção de uma nova história da loucura”.

 

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Pesquisadores e alunos da pós-graduação foram discutir os usos
da biografia na história
. Foto: Vinícius Pequeno

 

Este último “Encontro às Quintas” foi no dia 26 de abril, na sede do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz, na expansão do campus de Manguinhos, no Rio de Janeiro. O próximo será na mesma hora e lugar, no dia 10 de maio, quando a professora Claudia Viscardi, do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Juiz de Fora, vai falar sobre experiências mutualistas no Brasil entre os finais dos séculos 19 e início do 20, tema de estudos com o foco em associações de operários, em que todos contribuem para que cada um seja beneficiado individualmente.