Um grupo formado por oito professores e 30 alunos do Programa de Pós-Graduação da História das Ciências e da Saúde (PPGHCS) da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) e do Instituto de História da Medicina da Universidade Johns Hopkins, localizada em Baltimore, nos Estados Unidos, instituição de excelência mundial, descobriu, em um encontro no campus da Fiocruz em Manguinhos, na zona norte do Rio, que têm muitos interesses em comum.
Integrantes da Escola Internacional de Inverno Medicina, Tecnologia e Ambiente: perspectivas sócio-históricas, uma parceria entre a Casa de Oswaldo Cruz e do Instituto de História da Medicina da Johns Hopkins realizada no início do semestre passado, eles se reuniram durante cinco dias no Centro de Documentação e História da Saúde (CDHS) e em atividades externas para discutir as interações entre saúde, meio ambiente e o desenvolvimento e incorporação de tecnologias na prática médica, a partir das concepções da história e das ciências sociais dos séculos 20 e 21. O curso, uma das ações de internacionalização da Casa realizadas ao longo de 2025, foi coordenado por Gilberto Hochman, professor do PPGHCS e pesquisador do Departamento de Pesquisa em História das Ciências e da Saúde (Depes).
❝ A ideia é que a Escola Internacional de Inverno funcione não apenas como uma disciplina que vale crédito e um certificado, mas, principalmente, que seja de convivência acadêmica e pessoal com professores e alunos❞
Gilberto Hochman
Professor do PPGHCS
A programação foi intensa, com atividades nos períodos da manhã e da tarde. No primeiro dia, os quatro professores da Johns Hopkins, pesquisadores de destaque internacional nas áreas de história da medicina, saúde pública, antropologia ambiental e estudos sobre ciência e tecnologia, participaram de uma mesa-redonda aberta ao público, evento da Cátedra Unesco sediada na Casa de Oswaldo Cruz. Eles apresentaram as suas pesquisas, discutindo como as relações entre medicina, tecnologia e ambiente são atravessadas por desigualdades sociais e concepções distintas de cuidado e adoecimento.
“Convivência acadêmica e pessoal com professores e alunos”
Além das aulas, ministradas por uma dupla formada por um pesquisador de cada instituição, os participantes visitaram locais como o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), unidade da Fiocruz que produz imunizantes, kits de diagnóstico e biofármacos, e fizeram um passeio pelo campus da Fiocruz em Maguinhos, com parada no centenário Castelo Mourisco, que abriga a presidência da instituição. “A ideia é que a Escola Internacional de Inverno funcione não apenas como uma disciplina que vale crédito e um certificado, mas, principalmente, que seja de convivência acadêmica e pessoal com professores e alunos”, escreveu Hochman, na mensagem enviada aos alunos da Casa dias antes do início do curso. “A língua não será uma barreira nas aulas, pois teremos tradução simultânea e alguns pós-docs como facilitadores. Não sejam tímidos, interajam, falem”, estimulou o pesquisador, que, a julgar pelos comentários de professores e alunos sobre a semana de atividades, foi totalmente atendido em sua solicitação.
O plano de aulas foi aberto por André Felipe Cândido da Silva e pela antropóloga Nicole Labruto, professora do Departamento de Antropologia e diretora do Programa de Medicina, Ciência e Humanidades da Johns Hopkins, que apresentaram o tema Ecologias Insubmissas no Plantationoceno: Ciências e Saúde no Sul Global. Com pesquisas que integram a antropologia das ciências, os estudos pós-coloniais e a antropologia ambiental e estudos realizados no Brasil, com trabalhadores da indústria da cana-de-açúcar, ela se disse animada com a colaboração entre as duas instituições. “É uma oportunidade única. Tanto para os alunos norte-americanos quanto para os brasileiros, que, vimos aqui, estão trabalhando com temas superinteressantes e importantes nas áreas de história, medicina, saúde e ambiente”.
“Juntos, fazemos pesquisa melhor”
A aula sobre tecnologias médicas e cuidados de saúde no Brasil e nos Estados Unidos foi dada por Jeremy Greene, diretor do Centro de Humanidades Médicas e Medicina Social e do Instituto de História da Medicina da Johns Hopkins, e Luiz Alves, professor do PPGHCS. Sobre a parceria, o professor estadunidense destacou: “A iniciativa possibilita que jovens pesquisadores tenham ciência da existência uma rede de pessoas da área que estão comprometidas com a qualidade internacional da pesquisa e com o fato de que, juntos, fazemos pesquisa melhor. Podemos dizer isso para eles [os alunos] e serão apenas palavras. Mas quando vivenciamos a experiência, passando uma semana trabalhando juntos, de perto, o resultado é completamente diferente”.
Greene frisou ter sido gratificante rever Gabriel Lopes, professor do PPGHCS. Os dois se conheceram em 2014, quando o brasileiro, então aluno do programa, fez um doutorado sanduíche na Hopkins. Lopes também destacou o reencontro e elogiou o modelo de cooperação acadêmica transnacional da Escola Internacional de Inverno: “Mais que um espaço de formação avançada, consolidou uma comunidade de pesquisa dinâmica, sustentada pelo diálogo entre diferentes tradições historiográficas e campos disciplinares. A iniciativa evidenciou o potencial transformador de parcerias entre instituições de referência, promovendo o intercâmbio de ideias, a circulação de conhecimentos e o fortalecimento de vínculos entre pesquisadores em diversas fases de formação e de carreira”.
❝ A iniciativa possibilita que jovens pesquisadores tenham ciência da existência uma rede de pessoas da área que estão comprometidas com a qualidade internacional da pesquisa e com o fato de que, juntos, fazemos pesquisa melhor❞
Jeremy Greene
Diretor do Instituto de História da Medicina da Johns Hopkins
No curso, a aula sobre urbanização e espacialidades da saúde no século 20 foi dada por Lopes e Graham Mooney, professor do Instituto de História da Medicina da Johns Hopkins e da Bloomberg Escola de Saúde Pública. Os dois estão em contato desde o doutorado-sanduíche que o brasileiro cursou na instituição norte-americana: “Pela experiência que vivenciei com o Gabriel [Lopes], sei que as conexões feitas durante a Escola Internacional de Inverno seguirão pela vida. Então, não se trata apenas de aprender e se divertir agora. É como plantar sementes e colher os frutos no futuro”, disse Mooney.
Graduanda de Direito da Universidade Johns Hopkins, com foco em estudos sobre ciência ambiental e política, Sophia Baleeiro falou sobre os contatos que fez, observando que eles se estenderam do Salão de Conferência aos bares: “Ficávamos conversando por horas”, disse ela, dando exemplos de sinergias que testemunhou ao longo da semana no Rio de Janeiro: “Já na primeira conferência, com o Gilberto Hochman, meu amigo da Hopkins ficou surpreso ao saber de uma ligação entre o Brasil e a China que é importante para a pesquisa dele. Além disso, a pesquisa de um amigo que fiz aqui na Casa de Oswaldo Cruz, sobre suicídio em escravizados, tem relação com os estudos de um dos pesquisadores da Hopkins, sobre comercialização de corpos escravizados”, relatou, contando que “todo mundo encontrou meios de interagir, apesar da barreira da língua”.
Citado por Sophia, por suas pesquisas sobre racismo no contexto da medicina, Alexandre White, professor dos departamentos de Sociologia e de História da Medicina da Johns Hopkins, também destacou essa sinergia. “Foi interessante ver as conexões na produção acadêmica das duas instituições, como a questão das plantations, do manejo internacional de doenças e o diálogo entre tecnologia, saneamento e saúde. Para os alunos da Hopkins, foi fantástico virem aqui e refletirem sobre semelhanças e diferenças na condução das pesquisas desenvolvidas”, observou ele, que, na companhia de Gilberto Hochman, deu aula sobre as desigualdades e respostas às epidemias nos séculos 19 e 20.
Apresentações, discussões em grupo, visitas e um animado pós-aula
Estudante de mestrado de História das Ciências e da Saúde na Casa, Anderson Souza Costa disse ter ficado impactado pela experiência internacional oferecida pela unidade: “O principal foi vivenciar um intercâmbio que vai além do professor vindo do estrangeiro que fala e a gente escuta”. Interessado em histórias globais da saúde pública, Yemok Jeon, aluno coreano do doutorado em História da Medicina na Johns Hopkins, considerou que o período de estudos na Casa foi uma grande oportunidade para debater temas relacionados à saúde. “O SUS é realmente fascinante”, disse, acrescentando que tem interesse em saber mais sobre a política de saúde do Brasil, que, assim, como a Coreia do Sul, já viveu sob regimes ditatoriais.
A dinâmica das aulas e a interdisciplinaridade foram elogiadas por Bianca Scofano Barbosa, aluna de doutorado do PPGHCS: “Foi interessante perceber temas de pesquisa em comum entre nós e os alunos da Hopkins, mas também constatar que algumas visões são diferentes, e isso agregou muito”. Doutoranda no Programa de Medicina e Humanidades da Johns Hopkins, Júlia Alves falou sobre a oportunidade de fazer parte de uma parceria com uma instituição que é referência na área de história das ciências e da saúde. “Foi um intercâmbio muito proveitoso”.
Além dos ganhos para estudantes e pesquisadores, Nicole Labruto destacou a relevância do encontro diante do retorno da extrema-direita, das ameaças à democracia no Brasil e da administração de Donald Trump. “No atual momento político, é mais importante do que nunca manter essas colaborações acadêmicas e conexões intelectuais”, disse, desejando que a rede internacional construída durante o curso se mantenha: “A partir dessa colaboração, vamos criar mais oportunidades. Fiquem em contato uns com os outros”. A expectativa de que os elos estabelecidos durante a Escola de Internacional de Inverno sejam fortalecidos é concreta, pois a Casa de Oswaldo Cruz e o Instituto de História da Medicina da Universidade Johns Hopkins estão organizando novas atividades virtuais e presenciais para os próximos anos.