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“As ciências humanas são centrais para a promoção da equidade em saúde”, afirma antropóloga

Debora Diniz avalia que essas áreas são fundamentais para a própria construção das perguntas da biomedicina

Karine Rodrigues

10 mar/2026

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“Não existe ‘relação sem violência’ entre um homem adulto de 35 anos e uma menina de 12. Quando a Justiça afirma o contrário, erra duplamente: falha na proteção da infância e ainda envia uma mensagem equivocada sobre o que significa proteger meninas”, escreveu Debora Diniz recentemente, posicionando-se sobre decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que absolvera um acusado de estupro de vulnerável. O único voto contra foi de uma desembargadora, frisou a antropóloga, chamando atenção para a importância da representatividade das mulheres. Após recurso do Ministério Público, o relator do caso voltou atrás e condenou o réu.

Cientista reconhecida no Brasil e internacionalmente pela defesa dos direitos reprodutivos, da igualdade de gênero e da justiça social, Debora expressa a sua posição sobre temas que fazem parte sua trajetória profissional cotidianamente e de várias formas: como professora, orientadora, pesquisadora, escritora, documentarista. Em todos os espaços que ocupa, faz ciência da mesma forma: implicando-se. “Foi desde sempre assim. É o mundo real que está diante de mim, que bate à porta, e eu vou tentar oferecer o melhor que o método científico tem para se mover ao lado dessa vida vivida”, conta ela, que ministrará a aula inaugural do ano letivo de 2026 da Casa de Oswaldo Cruz na próxima quinta-feira, dia 19 de março, no Salão de Conferência do Centro de Documentação em História da Saúde (CDHS), no campus da Fiocruz em Manguinhos, zona norte do Rio.

O tema da aula, Ciência como testemunho: ética, engajamento e mundo em disputa”, diz muito sobre a maneira como a professora da Universidade de Brasília (UnB) e docente e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva (PPGBIOS) — parceria da Fiocruz com as universidades Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e Federal Fluminense (UFF) — compreende, ensina e produz ciência. Embora descarte adjetivos como “imparcial” e “neutra” para definir a atividade científica, destaca que a ciência não é qualquer coisa: “É um regime de saber e poder com seus métodos, técnicas e regimes de validade. E em que eu acredito e os defendo e ensino, porque eu acho que são muito importantes para a transformação social”.

Na entrevista abaixo, a antropóloga, que atualmente participa de um projeto de pesquisa internacional que discute as consequências de se declarar o fim de uma emergência sanitária, fala sobre temas como aborto, feminicídio, intromissão da moral e da religião no debate científico, centralidade das ciências sociais para a equidade em saúde e outras formas de se contar uma história e comunicar ciência.

Você é uma referência na articulação entre a pesquisa acadêmica e a defesa de direitos. Fazer ciência engajada está na origem de sua trajetória profissional? O que a fez a seguir esse caminho?

Essa é uma pergunta interessante porque, na verdade, eu não consigo imaginar outra forma de fazer ciência que não seja escutando o mundo e estando vinculada às necessidades do mundo. Talvez todos os pesquisadores façam isso. Nomear dessa maneira talvez seja o que há de singular aqui. Talvez seja menos a forma de fazer ciência e mais a forma de nomeá-la, afastando construções como neutralidade e imparcialidade. É muito mais dizer: “É esse o compromisso que está na ciência que eu faço.” Talvez seja isso que eu tento nomear como algo importante de ser dito. Então talvez nem haja muito um porquê, algo que explique por que eu segui esse caminho. Foi sempre assim. É o mundo real que está diante de mim, que bate à porta, e eu tento oferecer o melhor que o método científico tem para caminhar ao lado dessa vida vivida. E quando eu digo “afastar construções como imparcialidade e neutralidade”, não é o mesmo que abandonar a confiabilidade do método científico. Pelo contrário. É tentar manter o rigor e a confiabilidade do método reconhecendo que os pés estão no chão.

O trabalho científico envolve questões éticas e metodológicas. Há alguma diferença quando essa atividade se dá em intersecção com o ativismo? Qual a importância de o cientista ter compromisso com a transformação da sociedade? 

Eu diria que toda cientista — seja de bancada, seja cientista social — tem os pés no mundo. Tem as suas lentes éticas para olhar o mundo, coloca-se nele de um certo jeito. E isso acaba definindo como ela faz e como responde às perguntas de pesquisa. Aqui me parece que a importância da nossa conversa é dizer: é preciso identificar essas lentes, nomeá-las, torná-las explícitas para quem nos lê. Então, o que acontece quando essa atividade se cruza com o ativismo? É que esse processo passa a ser explicitado como parte de um ciclo. As perguntas de pesquisa, o engajamento com as pessoas que vivem determinada realidade e os próprios resultados fazem parte dessa conexão, desse entrelaçamento — e isso é assumido e nomeado como tal. Eu acredito que a importância de a cientista ter esse compromisso é justamente porque nós vivemos neste mundo. A ciência precisa estar a serviço do bem comum.

Em sua reconhecida e premiada trajetória como pesquisadora, ativista na defesa dos direitos humanos e documentarista, você escolheu estudar e se mobilizar publicamente por questões que, em geral, suscitam muitas divergências. Em razão de seu posicionamento e dedicação em favor da descriminalização do aborto, por exemplo, você sofreu reiteradas ameaças e precisou sair do Brasil, em 2018. À distância, você segue atuante na pesquisa e na discussão sobre a redução das desigualdades sociais e em prol dos direitos de mulheres e meninas. Qual a maior dificuldade para sustentar esse modo de tentar transformar a sociedade?

Acho que hoje essa é uma pergunta que cabe para muitos pesquisadores no Brasil. Nós vimos isso na pandemia de Covid —e vemos também em quem discute vacinas hoje. Esse é um desafio que não aparece apenas em um tema moralmente sensível como a descriminalização do aborto. Hoje a ciência está nessa linha de frente, enfrentando controvérsias, desinformação, negacionismos. Acho que esse é um desafio ético para qualquer cientista que esteja engajado com questões importantes para a vida social, o que é a própria condição de fazer ciência. Então, por um lado, eu diria que há um senso de fortalecimento e de sentido, porque não fazemos ciência isoladamente. Ninguém recebe prêmios, ninguém promove transformações sozinha. Isso é sempre uma experiência coletiva. Talvez a maior dificuldade seja que, diferentemente de 10 ou 15 anos atrás, hoje nós precisamos dedicar muito tempo a comunicar a ciência de forma que ela consiga romper essas barreiras que, ingenuamente, esperaríamos que não existissem —como a desinformação e o negacionismo. Mas há também um efeito secundário benéfico: nós precisamos nos comunicar com outras pessoas. Precisamos sair das nossas bolhas, das nossas comunidades de pares acadêmicos.

No livro que você escreveu sobre a história da epidemia do zika vírus no Brasil, lançado em 2016, você destaca que houve um descentramento da ciência: “O Sul do país passou a escutar e acompanhar cientistas e clínicos e médicos de beira de leito nordestinos”. Rejeitava-se a existência de “ciência pensante no Nordeste”. Você é nordestina e construiu sua carreira fora de lá. O que está por trás do regime desigual de distribuição do reconhecimento da ciência no Brasil? Sem essa valorização não há verbas para pesquisas; não há voz…   

Eu sou nordestina e construí uma carreira acadêmica fora de lá, mas sempre com pesquisa vinculada à comunidade de Alagoas. O que está por trás desse regime desigual é também uma forma de se fazer ciência —são os investimentos, as prioridades— algo que órgãos de fomento no Brasil, como o CNPq e a Capes, têm tentado corrigir. Até porque nós precisamos encontrar maneiras não apenas de fazer pesquisa sobre as pessoas, mas com as pessoas. E isso passa não só pelas comunidades, mas também pelas pesquisadoras e pesquisadores locais.

Ainda na mesma obra, você avalia que “a neutralidade foi a melhor invenção criada pela ciência para aumentar a já imensa autoridade dos cientistas”. Discutir a suposta objetividade na produção científica é fundamental, mas como fazer isso em tempos de negacionismo científico?

Eu não quero dizer que os valores do método, da confiabilidade e do rigor científico não sejam importantes, ou que qualquer coisa possa ser chamada de ciência —de forma alguma. A ciência é um regime de saber e de poder, com seus métodos, suas técnicas e seus critérios de validade. São valores nos quais eu acredito, que eu defendo e também ensino, porque considero fundamentais para a transformação social. Agora, quando eu digo que sou uma pesquisadora engajada no feminismo e nos direitos humanos, isso não significa que eu seja menos confiável. Pelo contrário.

No Brasil, a interferência do conservadorismo religioso no campo dos direitos parece estar mais exacerbada. Em um contexto assim, a ciência se torna ainda mais indispensável. No entanto, para tentar ganhar legitimidade, a linguagem da ciência vem sendo usada por esses segmentos que reduzem o debate à perspectiva religiosa e moral. No Brasil, uma resolução de 2024 do Conselho Federal de Medicina (CFM), já derrubada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), impedia o uso da prática de assistolia fetal em abortos resultantes de estupro, em gestações após 22 semanas; e há uma associação de médicos católicos, onde os integrantes tratam a oposição ao aborto como responsabilidade profissional e defesa da vida…. 

Talvez, diferentemente do que acontecia uma ou duas décadas atrás, as disputas sobre as verdades científicas operavam com outros marcos narrativos. Havia outros enquadramentos de validade. Dizia-se, por exemplo: “Esse é um marco religioso sobre o início da vida” ou “esse é um marco religioso sobre o sentido da vida”. Hoje a disputa aparece dentro da própria linguagem da ciência. Mas aparece sem o respeito aos critérios de validade da ciência. Com o exemplo que você mencionou da resolução do Conselho Federal de Medicina: o que vemos ali é o uso do poder de regulamentar a ciência para restringir a prática médica. E, na prática, para definir uma política pública. Ou seja, há um extravasamento do poder de uma autarquia que regula a profissão médica. Esse poder passa a ser usado para interferir na política de saúde e restringir direitos de mulheres e meninas. Nós não podemos confundir falar em nome da ciência com falar com o rigor da ciência. O que o Conselho Federal de Medicina vem fazendo, nesse caso, é um abuso da representação do poder da ciência para restringir direitos. Não basta ser um órgão representativo da ciência. É preciso também compartilhar das formas de fazer ciência. Dos seus critérios de validade. Do rigor na comprovação das afirmações. Você mencionou também a Associação de Médicos Católicos. Aí temos uma adjetivação que torna impossível a prática científica tal como a entendemos. Isso é diferente de quando eu digo: “sou uma cientista comprometida com os direitos humanos”. Nesse caso, falamos de valores que pertencem a um Estado laico e a uma ordem republicana constitucional. Um marco religioso não se submete a esses valores da mesma maneira. Por isso, nem toda forma de engajamento ou adjetivação da ciência é equivalente. Algumas fragilizam os próprios métodos científicos. E comprometem os critérios de validade que sustentam a ciência.

Você é uma das autoras de artigo publicado na “The Lancet”, em janeiro do ano passado, que discute as consequências de se lidar com as emergências sanitárias, como as pandemias e epidemias, em termos exclusivamente temporais. Quando a transmissão em massa de uma doença cessa, quem e o que fica para trás? 

Esse é um projeto de oito anos, financiado pela Wellcome Trust, chamado After the EndDepois do Fim. O que estamos tentando demonstrar é que o tempo, assim como outros instrumentos de poder —recursos financeiros, educação, segurança— também é um recurso de distribuição de poder. Quando se declara o fim de uma emergência sanitária, não se trata apenas de uma decisão técnica. É uma definição de calendários. E esses calendários determinam muitas coisas: acessos, políticas, proteções. Eles definem quem são as vítimas legitimadas. Definem como uma comunidade será protegida. A nossa provocação é trazer o tempo para o centro da conversa. Pensá-lo como um instrumento de poder, mas também de cuidado. Porque o poder das políticas públicas de decretar o calendário das emergências tem consequências diretas. Consequências sobre como as pessoas vivem, como se protegem e como sobrevivem depois que esses calendários se encerram. Foi o que vimos acontecer com o Zika. E com a Covid.

Estudos e livros que você publicou, assim como documentários que você fez, mostram a importância de se analisar o processo saúde-doença para além da biomedicina, considerando noções históricas, sociológicas e antropológicas. Quão importante é a contribuição das ciências humanas e sociais para a promoção da equidade em saúde?

A sua pergunta toca em um marco importante sobre como entendemos fazer ciência. Muitas vezes se assume que promover a ciência é, basicamente, promover o regime de saber e poder da biomedicina. Mas não é assim. As ciências humanas são uma parte fundamental desse processo. Mais do que uma contribuição lateral, elas têm centralidade. O exemplo que discutimos antes mostra isso bem. Estamos falando de relações de poder, de produção de saber e de implicação das comunidades. Imagine uma política pública que decreta o fim do Zika. Aquela mesma comunidade continua sendo afetada por múltiplas arboviroses. Agora surge, por exemplo, uma nova epidemia de Oropouche naquele mesmo território. Se o conjunto de cientistas que esteve ali apenas coletou sangue, coletou mosquitos e depois foi embora, sem manter vínculo com a comunidade, haverá dificuldade de voltar. Será difícil retornar para compreender um novo fenômeno epidemiológico. Ou seja, as ciências humanas não apenas permitem compreender com mais profundidade os fenômenos de saúde e doença —no meu caso, as emergências sanitárias ou temas de saúde pública como o aborto. Elas também são centrais para a própria formulação das perguntas da biomedicina. Não é possível fazer pesquisa sobre vacina em uma comunidade sem construir vínculos de pertencimento e de confiança. Sem compreender como as pessoas entendem a saúde, a doença e as próprias relações de causalidade.

O Brasil é o país que atingiu, no ano passado, um número recorde de feminicídios, com quatro mortes de mulheres por dia em razão de violência doméstica e de discriminação; e onde, segundo a última Pesquisa Nacional de Aborto, realizada pela Anis, em 2016, o aborto é um fenômeno frequente entre mulheres de todas as classes sociais, grupos raciais, níveis educacionais e religiões e, por grande parte dos abortos serem considerados ilegais no país, as mulheres precisam se expor a riscos. O que essas duas realidades dizem sobre o Estado, sociedade brasileira e as nossas políticas públicas?

Nós vivemos em um Estado que não protege plenamente as mulheres. E isso aparece em muitos níveis. Não é apenas o feminicídio. Não é apenas a questão do aborto. Com o Zika, por exemplo —que foi um adoecimento que atingiu sobretudo mulheres em idade reprodutiva— ficou evidente que não é só o Estado, mas também as próprias políticas de saúde que têm enorme dificuldade de colocar a vida das mulheres e a igualdade de gênero no centro das proteções. Quando olhamos esse arquipélago de questões —o desamparo das mulheres, das meninas— vemos como tudo está conectado. Agora temos essa discussão judicial sobre gravidez infantil. E essa falsa controvérsia sobre idade de consentimento, sobre se é estupro ou não. Isso revela uma dificuldade mais profunda. Nós ainda não conseguimos pensar grandes questões sociais —como violência, saúde ou o próprio direito à vida— a partir de um marco que reconheça que são as mulheres e as meninas as mais afetadas. Enquanto esse marco não estiver no centro das políticas públicas, nós vamos continuar tratando essas situações como casos isolados, quando na verdade elas fazem parte de um mesmo sistema de desigualdade e de desproteção.

Você já disse que “a história não é contada pelo lado de quem sofre, mas por quem tem a palavra para contá-la”. Ao longo de sua trajetória, você deu voz à Josefa, Severina, Géssica, Conceição, Talia, entre outras tantas mulheres que surgiram em sua atividade como pesquisadora e que, em geral, são invisibilizadas. Como essa inclusão enriquece o trabalho científico? 

Nós não fazemos ciência apenas sobre as pessoas. Nós fazemos ciência com as pessoas. Talvez seja menos sobre “dar voz” e mais sobre encontrar mecanismos para que possamos, juntas, contar uma história. E também desafiar a forma como as histórias são contadas. É provocar uma mudança de posição: não apenas falar sobre pessoas e comunidades, mas falar com elas. Talvez por isso tenha sido tão importante, na minha trajetória, trabalhar também com documentários, fotografia e outras formas de escrever a ciência. São maneiras de abrir espaço para que as pessoas —e, em particular, as mulheres— façam parte de como essa história é contada.