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A ilustração a serviço da aventura científica

24/11/2022

Livro aprimora descrição de milhares de documentos visuais que dialogam com uma das maiores coleções de insetos da América Latina e joga luz sobre desenhistas

   Arte: Elias Sousa   

Arte exibe um desenhos de quatro insetos sobre um fundo quadriculado com medidas relativas à largura e outras medidas dos desenhos

Por Karine Rodrigues

Uma fêmea de Anopheles oswaldoi capturada da noite de 29 de novembro de 1940 em Açude do Morrinho, em Ceará-Mirim, no Rio Grande no Norte, materializa-se com riqueza de detalhes no livro de protocolo do casal de cientistas Leônidas de Mello Deane e Maria José von Paumgartten Deane. Mais de 80 anos depois, os desenhos em grafite e nanquim, realizados durante a campanha de combate ao mosquito vetor da malária Anopheles gambiae, surgem nas páginas de outro livro, A imagem a serviço do conhecimento: a entomologia nas ilustrações do acervo histórico da Fiocruz, recém-lançado pela Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) em formato e-book.

As imagens produzidas na lida da pesquisa científica não são apêndices no processo de produção de conhecimento, mas sim centrais na legitimação do discurso científico e na construção de seu lugar de enunciação 

Embora cientistas como os Deane dominassem – como ainda dominam – técnicas de desenhos para representar seus objetos de pesquisa, esses documentos eram produzidos, em sua maioria, por outro grupo de atores, os ilustradores científicos, que desempenharam um importante papel na produção do conhecimento, conta o livro organizado por pesquisadores e documentalistas do Departamento de Arquivo e Documentação (DAD) da COC/Fiocruz.

A obra traz à luz a trajetória dos desenhistas que atuaram na instituição ao longo de mais de um século e trabalharam em estreita associação com os pesquisadores na área da entomologia, representando fielmente os exemplares existentes em coleções científicas, para descrição e identificação das espécies. Trata-se de um registro inédito sobre a criação e o desenvolvimento do serviço de desenho na instituição, que dialoga com a Coleção Entomológica do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), uma das mais importantes da América Latina, constituída por cerca de quatro milhões de exemplares da fauna brasileira e de outras regiões do mundo.

O e-book é resultado de uma pesquisa iniciada em 2015, quando o DAD, responsável pela organização, preservação e acesso ao acervo arquivístico sob a guarda da COC/Fiocruz, elaborou um projeto para investigar as funções da ilustração científica nos trabalhos desenvolvidos no IOC, tendo como objeto os desenhos provenientes das atividades da área de entomologia. “As imagens produzidas na lida da pesquisa científica não são apêndices no processo de produção de conhecimento, mas sim centrais na legitimação do discurso científico e na construção de seu lugar de enunciação – no sentido das orientações para o significado do que é dito”, escrevem os organizadores na introdução do e-book.

Desenhista sentado em sua mesa de trabalho, com microscópio próximo a ele, e ladeado por dois pesquisadores, em um laboratório de pesquisa com armário ao fundo
Desenhista Antonio Viegas Pugas observado por Herman Lent e Ademar Guilherme Crédito:COC/Fiocruz

O conjunto abordado na pesquisa é formado por 8.638 desenhos pertencentes ao arquivo do IOC, produzidos entre 1901 – data do primeiro artigo sobre insetos publicado por Oswaldo Cruz (1872-1917), com registro do espécime número um da Coleção Entomológica, um Anopheles lutzii, feito pelo próprio pesquisador – e 2007, ano mais recente da incorporação de desenhos entomológicos ao patrimônio arquivístico. Realizados em laboratório ou em trabalhos de campo, foram elaborados por meio de técnicas realizadas à mão livre, como grafite, raspagem, aquarela, pastel e nanquim, e com apoio de microscópios, lupas e outros equipamentos.

Pesquisa levantou atributos documentais dos desenhos e informações sobre seu contexto de produção

A pesquisa realizou o levantamento e a análise de fontes primárias no acervo arquivístico do IOC e nos arquivos pessoais de cientistas da instituição – Oswaldo Cruz, Arthur Neiva, Dyrce Lacombe, Herman Lent, José Jurberg e Leônidas Deane –, além do acervo de depoimentos orais de pesquisadores, curadores e técnicos que atuaram nas coleções científicas. Foram buscados elementos intrínsecos, ou seja, constitutivos do documento, como o nome do desenhista, a técnica utilizada e as marcas de circuito percorrido pelos documentos, e extrínsecos, “aqueles que o documento aponta, mas não está nele e você tem que buscar fora, principalmente, metadados de contexto”, observa a historiadora Aline Lopes de Lacerda, coordenadora do projeto de pesquisa e organizadora da publicação com Ana Luce Girão Soares de Lima, Felipe Almeida Vieira, Francisco dos Santos Lourenço e Regina Celie Simões Marques.

“O documento informa sobre aquilo que está nele, mas ele pode informar muito mais. O livro mostra isso. Em uma investigação realizada a partir dos documentos, encontramos dados biográficos de 35 ilustradores, fizemos um mapa de como eles se articularam, analisamos como o IOC organizou esse serviço de desenho ao longo do tempo. Nada disso estava nos documentos como conteúdos deles, mas sim como possibilidade de ativação a partir da nossa pesquisa” explica Aline. A pesquisa e os dados levantados possibilitaram o aperfeiçoamento do protocolo de descrição dos desenhos na Base Arch, repositório de informações sobre o acervo arquivísticos da Fiocruz.

Capa de um livro com o título escrito em vermelho e o desenho de um inseto feito em nanquim
Livro é resultado de pesquisa realizada pelo Departamento de Arquivo e Documentação (DAD)

 À parte a existência dos desenhos, a pesquisa revelou que, nos arquivos da Fiocruz, a atuação do serviço de desenho e dos próprios desenhistas era invisível, pois não se encontrava registros sobre a rotina de suas atividades. Embora fossem protagonistas de uma atividade de grande importância na engrenagem do trabalho científico ao registrar, por meio dos desenhos, estruturas de insetos nem sempre compreensíveis na descrição textual, chamaram atenção as poucas menções a essa atividade na documentação. Algumas informações surgem em documentos mais administrativos, de gestão, como as ordens de serviço, onde constam, por exemplo, registros de viagens de desenhistas para trabalhos de campo.

Nos assentamentos funcionais, que retratam a trajetória profissional de servidores e colaboradores, constatou-se que nem todos os desenhistas ingressaram na instituição com essa função ou esse cargo, tendo alguns deles iniciado sua trajetória como serventes ou auxiliares de laboratório. Para elaborar minibiografias dos ilustradores científicos, a pesquisa recorreu também a fontes externas, como a hemeroteca da Biblioteca Nacional.

“Um resultado muito importante do projeto foi ter dado nome, rosto a essas pessoas, e uma minibiografia. A maioria não estava mapeada”, diz Aline, enfatizando que a publicação traz um catálogo ilustrado que apresenta, sob a forma de verbetes, os desenhistas e pesquisadores ilustradores na área da entomologia, como também outros profissionais que atuaram como ilustradores na instituição, mas que não possuem desenhos no acervo.

Sobre as razões da invisibilidade do ofício nos documentos institucionais, Aline destaca que os pesquisadores desempenhavam a atividade central, ao passo que fotografia e desenho eram considerados serviços auxiliares. “Percebemos que o serviço de desenho era muito acionado, mas não avaliado como sendo de primeira linha. É evidente a sua enorme importância, mas era considerado secundário. O cientista é que dizia se o desenho estava em condições de ser publicado”, acrescenta a historiadora, observando que o bom desenhista científico era aquele que colocava uma grande arte a serviço do trabalho científico.

Em cartas e livros de protocolos, pistas sobre funções do serviço de desenho

A análise nos arquivos pessoais de pesquisadores envolvidos no processo de formação e desenvolvimento da Coleção Entomológica, em especial as cartas, os livros de protocolo e os próprios desenhos, foi importante para revelar algumas funções que esses documentos desempenhavam no trabalho científico.

Muitas vezes as cartas traziam exemplares de insetos, num intercâmbio frequente entre pesquisadores na formação de coleções científicas. “Os exemplares eram enviados para estudos realizados por meio de comparação, observação e registro de diferenças em relação a espécies já descritas e, se fosse o caso, demarcação de nova espécie. Descrições de novas espécies eram também objeto de correspondência entre pesquisadores, por vezes acompanhada de desenhos. Quando dispunham de poucos exemplares do inseto em análise, o desenho ocupava seu lugar na correspondência”, escrevem os organizadores da publicação, que traz na apresentação texto do pesquisador Paulo Elian dos Santos, diretor da COC/Fiocruz entre 2013 e 2021, para quem o e-book “combina de maneira magistral a pesquisa histórica e o processamento dos documentos de arquivo”.

Outros pesquisadores da Fiocruz assinam capítulos do livro. Magali Romero Sá, do Departamento de Pesquisa em História das Ciências e da Saúde da COC/Fiocruz, escreve sobre os primórdios da Coleção Entomológica e conta como o desenvolvimento e a tradição dos estudos entomológicos no IOC se mesclam à história da instituição. Segundo ela, uma iniciativa importante para a divulgação dos trabalhos produzidos em Manguinhos foi a institucionalização do serviço técnico complementar de ilustração, fotografia e cartografia, essenciais para o trabalho taxonômico desenvolvido com as coleções institucionais de insetos.

Desenho feito em nanquim da vista dorsal de uma vespa
Fêmea da espécie Telonomus Fariai Lima desenhada por Carlos Leal Lacerda Crédito: COC/Fiocruz

Pesquisador do IOC/Fiocruz, José Jurberg, ele mesmo um pesquisador com mais de mil desenhos publicados, escreve sobre o legado dos ilustradores científicos. Já o pesquisador do IOC/Fiocruz, Márcio Felix, aborda as especificidades do trabalho do ilustrador enfatizando a estreita relação entre a Coleção Entomológica do IOC e o acervo de desenhos de entomologia. Para ele, “mesmo com maior rapidez e facilidade de realização, em muitos casos a fotografia não substitui um bom desenho, no qual é possível, por meio de técnicas específicas como o sombreado, evidenciar estruturas e formas de interesse que não estariam tão claras em uma imagem fotográfica”.

Os desenhos e seus autores

Na Linha do Tempo dos Desenhistas de Manguinhos estão os profissionais que atuaram na instituição de 1906 a 2013. Foram identificados no desempenho do cargo ou função de desenhista: Antonio Rodrigues Leal, Antonio Viegas Pugas, Carlos Rudolf Fischer, Celio Albano, Edith da Fonseca Nogueira Penido, Joel Sampaio Antunes, José Eduardo Prado, José Tavares de Lacerda Sobrinho, Luiz Augusto Cordeiro, Luiz Kattenbach, Manoel de Castro Silva, Raymundo Honório Daniel, Raymundo Porciúncula de Moraes, Renée Ferreira de Melo, Waldir dos Santos Botelho e Walter Alves da Silva. O livro destaca também pesquisadores que aprenderam as técnicas para representar as espécies que estudavam, como Fábio Leoni Werneck, Octávio Mangabeira Filho, Hugo de Souza Lopes e Marcos Kogan, que deixaram extensa produção de desenhos referentes a suas pesquisas.

O coração do livro está localizado no capítulo em que são apresentadas as minibiografias dos autores dos desenhos existentes no acervo, acompanhadas por ilustrações de alguns de seus trabalhos e uma foto de cada profissional.

Aline considera que o livro foi importante para o DAD, pois mostrou que o departamento pode desenvolver uma pauta de pesquisa, apesar da rotina de trabalho voltada ao tratamento técnico de organização e disponibilização de arquivos. Para ela, a iniciativa trouxe contribuições que vão beneficiar o público e a própria instituição, pois as informações reunidas na pesquisa vão entrar no circuito das bases de dados, aprimorando as descrições e o acesso aos desenhos. “Isso é bom para nós, para os pesquisadores e para a Fiocruz”.

Para a historiadora, o e-book organizado pelo DAD é uma ativação do patrimônio da instituição. “Quando se faz um recorte dessa natureza no acervo arquivístico, uma visibilidade é produzida e reforça o valor do patrimônio. Hoje foi essa publicação, amanhã pode ser uma tese. Os processos de patrimonialização vão sendo gerados pelos nossos acionamentos, as nossas iniciativas, o nosso refletir sobre o que está ali. Com a publicação ativamos esses documentos que estão distribuídos por vários conjuntos do acervo, finaliza.


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