Dicionário dos Negacionismos no Brasil traz verbetes de pesquisadores da COC/Fiocruz

01/07/2022

Por César Guerra Chevrand


    

Quatro pesquisadores e professores da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) estão entre os colaboradores do Dicionário dos Negacionismos no Brasil, recém-lançado pela Cepe Editora. Organizada pelo professor e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp/Uerj) José Szwako e pelo professor e pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) José Luiz Ratton, a obra conta com a participação de 112 especialistas brasileiros e internacionais na produção dos verbetes.

De acordo com José Szwako e José Luiz Ratton, o Dicionário dos Negacionismos deve servir como “instrumento de reflexão, de produção e de valorização do conhecimento científico sistemático e institucionalizado”, inscrevendo-se, portanto, “de forma categórica no campo antinegacionista”. Como afirmam os organizadores na introdução da obra, “compreender os negacionismos no Brasil e suas consequências é tarefa urgente do campo científico”.

“Em 2020, José Luiz Ratton e eu percebemos que já havia uma quantidade significativa de pesquisadoras e pesquisadores longamente dedicados a alguns dos temas e motes que vinham sendo atualizados e deturpados por grupos e discursos negacionistas. A ideia do livro é alcançar um público mais amplo, com linguagem acessível e mais de 100 verbetes que vão de episódios históricos, como a Revolta da Vacina e o Fascismo, até dilemas e temas mais contemporâneos, como a variedade de negacionismos hoje conhecida”, afirma José Szwako.

Academia Brasileira de Ciência (ABC)

Autora do verbete que abre o dicionário, Dominichi Miranda de Sá explica a importância da Academia Brasileira de Ciência (ABC), criada em 1916, na “promoção do valor social da ciência do país”. Ao apontar a sua fundação “como um dos marcos do processo de profissionalização da carreira científica no Brasil”, a pesquisadora também ressalta a atuação da ABC contra o negacionismo científico e a desestruturação da ciência brasileira durante a pandemia de covid-19.

“O desafio desse enfrentamento para nós, cientistas de diferentes áreas do conhecimento, é enorme, mas definitivamente passa pela intensificação do nosso diálogo com a sociedade, com a aproximação do nosso trabalho do cotidiano da população, para produzir o sentimento contrário ao negacionismo: precisamos gerar confiança, precisamos promover solidariedade em torno de valores como o bem comum”, diz Dominichi Miranda de Sá.

Divulgação Científica

Responsável pelo verbete Divulgação Científica, Luisa Massarani explica como a divulgação científica “vai muito além de informar/transmitir conteúdos científicos para a sociedade”, destacando o seu papel de discutir como a ciência funciona e de atrair a “atenção da sociedade e governantes para a ciência e a importância de investir em pesquisa”. Mas a pesquisadora também salienta que a divulgação científica não é uma fórmula mágica que levará ao fim do negacionismo.

“A divulgação científica tem o papel de estimular o debate na sociedade de temas de ciência e saúde. Se bem feita, é uma iniciativa que permite a conversa e a troca de informações confiáveis de temas de ciência e saúde. É importante, no entanto, lembrar que isso não é suficiente - por si só - para evitar o negacionismo, visto que este se insere em uma desordem informacional mais ampla. Por exemplo, há estudos que mostram que muitas pessoas preferem acreditar em notícias falsas porque se encaixam melhor no sistema de crenças delas”, observa Luisa Massarani.

Fundação Oswaldo Cruz

Autor do verbete Fundação Oswaldo Cruz, Gilberto Hochman traça um breve histórico da trajetória da Fiocruz desde a sua fundação, num contexto marcado por crises sanitárias importantes, como epidemias de peste bubônica, varíola e febre amarela. Ao enfatizar o protagonismo da Fiocruz em “inúmeros desafios e iniciativas da saúde pública nacional e internacional” ao longo de mais de 120 anos, Hochman também destaca o seu amplo e primordial papel no enfrentamento da pandemia de covid-19 no Brasil.

"Desde 1900, a Fundação Oswaldo Cruz tem um papel central na afirmação da ciência, da inovação, da tecnologia e da saúde pública brasileiras. Em seus 122 anos de existência, e apesar do crescimento dos negacionismos nos últimos anos, a Fiocruz tem sido um agente na manutenção da confiança na ciência por parte da sociedade brasileira”, aponta Gilberto Hochman.

Negacionismo Científico

No verbete Negacionismo Científico, Simone Kropf explica como o termo não pode ser confundido com ceticismo ou ignorância e sim definido por “seu caráter intencional e articulado para produzir e disseminar desinformação e dúvidas, por meio de estratégias organizadas com o objetivo de contrariar evidências e alegações consensualmente reconhecidas pela comunidade científica”. Para o enfrentamento deste fenômeno, a pesquisadora afirma a necessidade de construção de vínculos mais sólidos entre ciência e sociedade, com maior engajamento das pessoas com o “conhecimento enquanto projeto coletivo”.

“Para combater o negacionismo é necessário, antes de tudo, compreender o que ele significa. Não de se trata, de modo algum, do mero fato de se duvidar. Dúvidas, questionamentos, críticas são constitutivos da própria ciência. O negacionismo é fundamentalmente um projeto, algo intencional, organizado, com alvos específicos. Se queremos combater suas táticas, devemos explicitar os interesses e grupos concretos que o sustentam”, conclui Simone Kropf.


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