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'Representações de cientistas são pautadas em estereótipos romantizados', afirma pesquisador

13/07/2022

   Imagem: Reprodução.   

Duas faces: homem branco ao lado de hulk

Por César Guerra Chevrand

Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), com ênfase nos estudos de representações de ciência e cientistas na cultura pop, geek e nerd, Fernando Alves é um dos autores do artigo Superaventuras e a representação da ciência: um olhar histórico para as produções cinematográficas sobre O Incrível Hulk nas décadas de 1970 e 2000, publicado na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos.

Os assuntos de ciência apresentados nos filmes coincidem com os assuntos de ciência efervescentes em suas respectivas épocas. Na década de 1970, o enfoque se deu nos efeitos radioativos das práticas de física nuclear

Assinado com a coordenadora do Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia e professora da COC/Fiocruz, Luisa Massarani, e com o professor do Cooperstown Graduate Program/State University of New York (EUA), Erik Stengler, o texto busca analisar como as representações de ciência e de cientistas mudaram historicamente nos filmes do Hulk, desde as primeiras produções nos anos 1970 até as mais atuais do século 21.

Fã de histórias em quadrinhos e doutorando em Ensino em Biociências e Saúde no Programa em Ensino em Biociências e Saúde do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Fernando explica a escolha do personagem Incrível Hulk para se observar como eram e são tratadas questões relativas a ciência, tecnologia e saúde em filmes de super-herói. De acordo com ele, “as representações de ciência e cientistas são pautadas em estereótipos romantizados desconectados da imagem social do cientista como profissão”.

Confira abaixo a entrevista:


   
   Fernando Alves. Foto: Sidcley Lyra.

Por que a escolha do Incrível Hulk para pensar a representação da ciência e dos cientistas no cinema?

A escolha do Incrível Hulk para pensar a representação da ciência e dos cientistas no cinema foi porque a história de origem desse personagem é baseada em duas famosas obras literárias O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde de R.L. Stevenson, escrito em 1886, e o livro Frankenstein de Mary Shelley, publicado em 1818. E as narrativas do personagem Incrível Hulk são baseadas em questões relativas à ciência, tecnologia e saúde durante todas as publicações do século 20 e continuam presentes no século 21, em que o cientista e a ciência podem ser idealizadas para grandes feitos. No entanto, dependendo das aplicações, podem gerar medo, repulsa e sofrimento, pois abordam temas científicos controversos (genoma humano, clonagem, transgênicos, usos nucleares, segurança pública e políticas de sigilo), especialmente ligados a testes em seres humanos, que precisam ser debatidos em comissões de ética.

Qual era a representação da ciência e dos cientistas nos primeiros filmes do Hulk dos anos 1970?

As produções dos anos 1977 e 1978 exibem narrativas do gênero drama romântico, em que os cientistas encontram situações problemas a nível pessoal e cotidiano. A representação geral desses cientistas é de profissionais que trabalham em instituições, suas funções estão ligadas a pesquisas vinculadas a um empregador. Eles têm acesso a equipes, laboratórios bem equipados e recursos financeiros que os viabilizam a exercerem suas atribuições científicas para pesquisas que beneficiem a sociedade. Enquanto os temas científicos têm como foco pesquisas nas áreas de: (1) ciências biológicas, com ênfase nas questões básicas de genética, a sequência do DNA e a função das mitocôndrias; (2) física nuclear, em que a radioatividade gama age como influência na mudança do DNA e (3) a neurociência como uma possível terapia para problemas psicológicos. 

Como esta representação se transformou dos primeiros filmes nos anos 1970 até hoje?

As representações nos filmes da década de 1970 são dramas românticos, enquanto a ciência nos filmes dos anos 2000 está mesclada em situações de ação explosiva e aventura. Os assuntos de ciência apresentados nos filmes coincidem com os assuntos de ciência efervescentes em suas respectivas épocas. Na década de 1970, o enfoque se deu nos efeitos radioativos das práticas de física nuclear e os estudos em saúde mental com a expansão dos centros universitários, dos movimentos sociais com ideais pacíficos contra a Guerra do Vietnã. Já nos filmes dos anos 2000, a ênfase foi dada à engenharia genética condizente com o desenvolvimento do Projeto Genoma Humano, formado por pesquisas colaborativas internacionais com objetivo de entender mais sobre o DNA e buscar possibilidades para cura e imunidade contra doenças que afligem os seres humanos.

Que estudos serviram de referência para a análise da relação entre super-heróis e ciência?

As referências para a análise da relação entre super-heróis e ciência foram várias. Para estruturar a metodologia foram utilizadas: as Teorias de Representação Social, de Serge Moscovici; a Análise de Conteúdo, de Lawrence Bardin; a Análise Comparativa de Filmes, de Lothar Mikos; e os Estudos de Mídias e Significados Culturais, de David Kirby. Enquanto na parte de refletir as ligações científicas nas histórias de super-heróis foram trabalhos como: A Ciência dos Super-heróis, de Lois Gresh e Robert Weinberg; A Ciência dos Superpoderes, de Juan Scaliter; e em especial, a dissertação e a tese do professor Robson Santos Costas, que pesquisa e analisa linguagens contemporâneas através da construção de memórias a partir de adaptações cinematográficas e histórias em quadrinhos de super-heróis.

Quais as principais críticas da academia às representações da ciência no cinema?

Não sei se podem ser consideradas como críticas da academia, porque o foco da pesquisa não foi a percepção dos pesquisadores sobre as representações de ciência em filmes, porém, dois aspectos chamam a atenção. Primeiro que os filmes são produtos de entretenimento, especialmente filmes de super-heróis, que por muito tempo foram considerados unicamente voltados para crianças e adolescentes, na maioria das vezes desvinculados da realidade e sem valor acadêmico. E, segundo, que as representações de ciência e cientistas são pautadas em estereótipos romantizados desconectados da imagem social do cientista como profissão, diminuindo a validade do cientista, colocando mais ênfase e importância nas instituições governamentais, nas forças armadas e/ou nas grandes empresas que utilizam do conhecimento científico para obterem ganhos econômicos, políticos e sociais.


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