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Lote de mosquitos encontrado em Paris é o único testemunho de coleção incendiada no Museu Nacional

2023-12-05

Em artigo, pesquisadores da Fiocruz relatam descoberta de remanescente de conjunto centenário organizado por Antonio Gonçalves Peryassú

Arte: Elias Sousa

 

Por Karine Rodrigues

Faltava pouco para a equipe de pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) concluir o inventário de uma coleção centenária formada por mosquitos. Naquela sexta-feira, 31 de agosto de 2018, ela deixou o edifício central do Museu Nacional/UFRJ, na Quinta da Boa Vista, zona norte do Rio, certo de que, na segunda-feira, estaria mais perto de finalizar a descrição do numeroso e diverso conjunto organizado pelo médico, sanitarista e naturalista paraense Antonio Gonçalves Peryassú (1879-1962). Na noite de domingo, porém, o Brasil foi surpreendido com o incêndio que destruiu grande parte do patrimônio sob a guarda da instituição. 

Todo o acervo entomológico do Museu Nacional, estimado em 12 milhões de espécimes, virou cinzas, inclusive a Coleção Peryassú, que estava na fase final de inventário, conduzido desde 2011 por Ricardo Lourenço-de-Oliveira, Teresa Fernandes Silva do Nascimento e Monique de Albuquerque Motta, pesquisadores do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do IOC/Fiocruz. Até às vésperas do incêndio, eles haviam contabilizado 722 mosquitos de 62 espécies, de 18 gêneros e 24 subgêneros de Culicidae, família que inclui vetores de doenças. 

A doação foi provavelmente feita, em mãos e em parcelas, a Émile Brumpt (1877-1951), professor responsável pela cátedra de parasitologia da escola parisiense desde 1919, que visitou o Rio de Janeiro e o MNRJ em 1922

Como testemunho do que fora a Coleção Peryassú restavam apenas o inventário e algumas fotografias digitais mais recentes. Um artigo da última edição da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos revela, porém, que um lote de mosquitos foi localizado no Instituto Pasteur, em Paris. A publicação é assinada por Ricardo Lourenço-de-Oliveira e Francisco dos Santos Lourenço, pesquisador do Departamento de Arquivo e Documentação (DAD) da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). 

O encontro com o lote remanescente se deu em 2017. Na ocasião, Ricardo Lourenço, então pesquisador convidado do Instituto Pasteur, observava a Coleção de Artrópodes da instituição quando se viu transportado para o conjunto do Museu Naciona/UFRJ, que estava sendo inventariado no Brasil. Os rótulos dos tubos cilíndricos diante de seus olhos traziam o nome do museu e a letra caprichada de Peryassú informando dados como o nome da espécie, data e local de coleta do mosquito, além da assinatura do próprio sanitarista paraense. 

Amostra do Instituto Pasteur tem espécies de diferentes biomas brasileiros  

“Fui olhar a coleção do Instituto Pasteur e, por acaso, dei de cara com as amostras do conjunto do Museu Nacional”, conta Ricardo Lourenço. O lote preservado em Paris, até recentemente desconhecido, é, portanto, “o único testemunho físico de como foi um dia a Coleção Peryassú antes de sua total destruição, em 2018”, escrevem os autores do artigo.  

Tubos da Coleção Peryassú preservados no Instituto Pasteur. Foto: Ricardo Lourenço-de-Oliveira

A amostra localizada no Instituto Pasteur reúne uma diversidade de espécies de diferentes biomas do Brasil. É constituída de exemplares acondicionados em 24 tubos, com um ou mais mosquitos, além de 36 exemplares dispostos separadamente em alfinetes. “São 24 espécies de 13 gêneros segundo a nomenclatura da época e que, hoje, corresponde a sete gêneros”, escrevem os autores, citando como procedência os estados de Goiás, Pará, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná e Rio de Janeiro. A espécie em maior número é, até hoje, um desafio para a saúde pública:  Aedes aegypti, transmissor de dengue, zika, chikungunya e febre amarela. Todos os mosquitos foram coletados entre 1918 e 1922, período em que Peryassú foi contratado pelo Museu Nacional/UFRJ para organizar a coleção, com exceção de uma espécie que traz a data de 2 de setembro de 1912, capturada em Goiás. 

A partir do encontro do lote, os dois pesquisadores iniciaram uma  busca de informações detalhadas sobre a formação e circulação da Coleção Peryassú e a trajetória do pesquisador, em especial, das redes acadêmicas, científicas e profissionais que ele construiu no período em que Peryassú trabalhou no Museu Nacional/UFRJ.  

Pesquisa de fôlego em busca de outros remanescentes 

“Utilizamos informações de periódicos da época em que Peryassú atuou, acessados na Hemeroteca da Biblioteca Nacional; de relatórios do Museu Nacional; de documentos de arquivos do próprio museu e das instituições que receberam mosquitos estudados por Peryassú; da sua produção científica e de outros pesquisadores que estudaram mosquitos; de correspondência entre pesquisadores e entre instituições estrangeiras e nacionais; e de obras gerais sobre história das ciências no Brasil, pertencentes aos acervos da Casa de Oswaldo Cruz,  do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT) e de outras bibliotecas”, detalha Francisco Lourenço, sobre a pesquisa desenvolvida para o estudo da História, Ciências, Saúde - Manguinhos e para outro artigo, publicado em Revista Pan-Amazônica de Saúde, uma biografia de Peryassú, 

No texto, eles contam que o naturalista paraense, considerado um dos pioneiros nos estudos da área no Brasil, fora contratado pelo Museu Nacional/UFRJ com a atribuição de criar uma coleção de culicídeos, que seria incorporada à Coleção Entomológica do Laboratório de Entomologia Geral e Aplicada, então constituída por artrópodes de interesse agrícola. Tal iniciativa já fora tomada por outros museus de história natural, situados fora do país, que passaram a se interessar pelos culicídeos quando se descobriu a associação entre mosquitos e doenças, na última década do século XIX. De fato, em 1899, uma rede mundial de coletas de mosquito foi criada pelo Museu Britânico de História Natural e pelo entomologista Frederick Vincent Theobald (1868-1930), contratado pela instituição.  

Em 1947, em frente ao Castelo: Peryassú está na primeira fila (5ºda esq. para dir.) ao lado do diretor do IOC, Henrique Aragão (terno preto). Foto: Acervo Casa de Oswaldo Cruz

Entre os colaboradores da rede criada em Londres estava o cientista Adolpho Lutz (1855-1940), por três décadas pesquisador do IOC. A instituição do Rio de Janeiro, aliás, já nasceu em 1900 com interesse voltado aos culicídeos. Tanto que Peryassú ali desenvolveu a sua tese de doutoramento. Intitulada Os culicídeos do Brasil, a tese, orientada por Oswaldo Cruz (1872-1917) e Arthur Neiva (1880-1943), discorria sobre a biodiversidade dos mosquitos, as doenças por eles transmitidas e o serviço da vigilância sanitária. Durante a produção da pesquisa, Peryassú recorreu a colaboradores para a coleta e envio de espécimes, não só do Rio. Segundo o artigo, essa ajuda se deu, especialmente, por parte de Carlos Chagas (1878-1934) e Neiva: “O numeroso material coletado durante a elaboração da tese teria sido depositado em Manguinhos, já consagrado centro de excelência no estudo da interseção doenças e seus insetos vetores”. 

Para organizar a coleção no Museu Nacional/UFRJ dez anos depois, o naturalista paraense contou mais uma vez com os colegas do IOC, além de outros pesquisadores. As contribuições vieram majoritariamente de localidades do Rio Janeiro, mas também recebeu contribuições de Pernambuco, Pará, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Foram colhidos ainda exemplares nas campanhas sanitárias governamentais contra a febre amarela e a malária, pois entre 1920 e 1922, Peryassú também trabalhava como inspetor do Serviço de Profilaxia Rural, atividade que incluía a captura de mosquitos.   

Intercâmbio científico com instituições de ensino e pesquisa  

De acordo com o inventário da Coleção Peryassú, disponível no Arca, repositório institucional da Fiocruz, o acervo organizado pelo sanitarista incluía os espécimens-tipo da espécie Anopheles oswaldoi, descoberta  por Peryassú, em 1922, além de mosquitos coletados em um período anterior à formação do conjunto, como a Wyeomyia lunata, capturada em Itatiaia por Carlos Moreira (1869-1946), do Museu Nacional, em 1903, e um macho de Aedes aegypti, capturado na cidade do Rio em 8 de agosto de 1912. Foram encontrados 329 tubos, dos quais 317 continham de um a 12 mosquitos. O restante estava vazio, um sinal de que a Coleção Peryassú era composta por um número maior de exemplares do que o descrito no inventário. Também foram fundamentais para Ricardo e Francisco Lourenço chegarem à tal conclusão os indícios de doações ou permutas de mosquitos para diferentes institutos científicos e estabelecimentos de ensino do Brasil e do exterior, realizadas na época em que o médico paraense trabalhava no Museu Nacional/UFRJ. Há registros de doações para o Instituto Kitasato, em Tóquio, em 1920, e às faculdades de Medicina de Assunção, em 1920, de Buenos Aires e de Praga, em 1921. Não foi encontrado livro de tombo da coleção. 

Gaveta da Coleção Peryassú no Museu Nacional. Foto: Ricardo Lourenço-de-Oliveira 

Ao contrário dos rótulos tradicionais das coleções zoológicas, os produzidos por Peryassú continham dados além dos taxonômicos. As informações eram inseridas no rótulo padronizado do Museu Nacional/UFRJ, onde ele anotava à mão, em tinta nanquim, “o nome da espécie e de seu autor, o número da espécie e do exemplar e as notas sobre o local de coleta, muitas vezes enriquecidas com o nome do coletor e com os dados sobre a biologia ou a importância sanitária da espécie”. 

Segundo a documentação localizada por Ricardo e Francisco Lourenço, o lote encontrado no Instituto Pasteur fora doado à Faculdade de Medicina de Paris e, em 1980, transferida do Laboratório de Parasitologia da instituição de ensino para a Coleção de Artrópodes, migração realizada pelo médico e entomologista François Rodhain. “A doação foi provavelmente feita, em mãos e em parcelas, a Émile Brumpt (1877-1951), professor responsável pela cátedra de parasitologia da escola parisiense desde 1919, que visitou o Rio de Janeiro e o MNRJ em 1922, 1924 e 1927, e interagiu estreitamente com os diretores Bruno Lobo (1884-1945), Arthur Neiva e Roquette-Pinto", diz o artigo. 

No Brasil, ao longo de 1919, lotes da Coleção Peryassú foram doados às faculdades de Medicina do Rio de Janeiro, do Pará e de Belo Horizonte. Em Minas, também receberam doações a filial do IOC, atual Fundação Ezequiel Dias, e a Repartição de Higiene. Porém, apesar de Peryassú ter preparado mosquitos para doação ou permuta para várias instituições de pesquisa e ensino no Brasil e no exterior, os pesquisadores da Fiocruz, eventualmente, localizaram os documentos de doação, mas não identificaram mais as amostras doadas. A única localizada foi mesmo a do Instituto Pasteur. 

“Graças à existência desse lote e do inventário da Coleção Peryassú podemos ter indícios diretos ou indiretos da biodiversidade de mosquitos das localidades investigadas na época, das atividades de pesquisa e ensino e das ações de doação e permuta empreendidas por Peryassú, assim como do seu entendimento sobre o papel de algumas espécies de mosquitos como vetores de doenças”, escrevem os autores, frisando a importância de museus e instituições de pesquisa adotarem como prática a produção e divulgação digital de inventários, documentos de doação e permuta de material, assim como imagens que registrem os espécimes de coleções biológicas. 


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