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Especial História e Covid-19 | Precisamos de mais, e não menos, relativismo

2023-03-27

Karin Alejandra Rosemblatt (Universidade de Maryland)*

 
 

Há algum tempo, atores posicionados à direita do espectro político vêm se valendo de mentiras para avançar seus objetivos políticos, constituindo os achados científicos um alvo preferencial. Negacionistas do clima têm argumentado que os novos padrões climáticos são o resultado de variações naturais e não do uso de combustíveis fósseis pelos seres humanos. A pandemia de Covid-19 impulsionou uma profusão de mentiras: alguns sugeriram que a própria doença seria uma invenção, enquanto outros insistiram que os governos conspiraram com cientistas no intuito de difundir medicamentos perigosos ou tóxicos, incluindo as vacinas, e de impedir o acesso a tratamentos eficazes, como a ivermectina.

As motivações dos negacionistas são diversas. Muitos têm vínculos com corporações e estão apenas protegendo seus lucros. Políticos como Donald Trump e Jair Bolsonaro buscaram obter ganho político e apoio financeiro de atores do mundo dos negócios. Já as motivações dos cidadãos comuns são mais difíceis de serem apreendidas. Negacionistas do clima e da Covid-19 podem ser movidos por uma aversão à regulação estatal, por uma hesitação relativa às grandes farmacêuticas ou por um sentimento de desconfiança em relação às elites empresariais, políticas e intelectuais. Nos EUA e em alguns outros países, o ceticismo quanto à ciência produzida a respeito da Covid-19 emergiu de forma concomitante a ataques difusos a pesquisadores e universidades. Isso coincide com o processo mais amplo de desfinanciamento que tem atingido a pesquisa científica e as universidades. Finalmente, há os fatores que servem para ampliar ainda mais as bases do negacionismo, particularmente as mídias sociais e os algoritmos programados para fomentar controvérsias. A ascensão das chamadas fake news também foi alimentada pela facilidade com que hoje os negacionistas alteram ou falsificam fotografias, vídeos e reportagens jornalísticas.

Aqueles que procuram combater o negacionismo têm denunciado as fake news e insistido na necessidade de desmontar suas falácias com verdades científicas. Como era de se esperar, o campo pró-ciência tem confrontado alegações a respeito da ivermectina e das vacinas produzindo evidências abundantes em sentido contrário. Falsificar informação é, sem sombra de dúvida, algo errado que tem sido denunciado, apropriadamente, por pesquisadores sérios da área médica. Mas, por uma série de razões, esses esforços para combater o negacionismo e as fake news não têm sido tão eficientes quanto cientistas e acadêmicos gostariam. Em geral, eles não têm conseguido contornar a desconfiança dos negacionistas em relação às autoridades. Por mais paradoxal que possa parecer, os negacionistas têm sido capazes de encontrar fatos alternativos e uma ciência alternativa para suas alegações. Refutar tal ciência alternativa pode ser bastante desafiador. Quando a própria ciência envolvida é complexa, a comunicação com o público leigo exige não apenas que tenhamos a melhor evidência disponível mas também que o público confie nos cientistas e compartilhe suas premissas. Da mesma forma, a comunicação científica deve ser realizada de modo efetivo.

Conforme demonstram décadas de estudos sobre a ciência, a própria ciência não é absoluta. Pesquisas científicas geralmente estabelecem suas conclusões com base em tendências e correlações e não tanto a partir de uma noção rigorosa de causalidade. O conhecimento com frequência se revela parcial e está sujeito à mudança. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) rejeitou o uso de máscaras no início da pandemia, considerando-o desnecessário, e, em seguida, afirmou sua importância uma vez que a evidência da transmissão aérea do vírus se tornou disponível. O CDC agora indica que o uso de máscaras não é mais necessário, ainda que nem a evidência científica nem a epidemiologia da doença tenham se alterado. É compreensível que cidadãos comuns reajam com suspeita quando recomendações científicas mudam, especialmente quando indivíduos do público em geral conseguem enxergar as lacunas no conhecimento científico. A população com frequência se mostra atenta às muitas maneiras pelas quais a política dá forma à ciência – fato que se tornou ainda mais saliente recentemente.

Como os historiadores e demais estudiosos da ciência devem responder ao rumo tomado pelos acontecimentos? Muitos de nós fizeram coro às denúncias contra as alegações falsas e ratificaram consensos científicos. É claro que parece razoável confrontar aqueles que alegam que a pandemia é uma farsa. Tais alegações constituem um mal às pessoas que perderam familiares para a doença e àquelas que ainda convivem com suas sequelas. Alguns historiadores vão ainda mais longe e culpam o “relativismo”, na medida em que este teria alimentado a desconfiança na ciência. Eles responsabilizam os historiadores da ciência por insistirem na análise de como contextos sociopolíticos e econômicos condicionam a pesquisa, deixando de lado a ideia de imparcialidade científica.

Ainda assim, parece um esforço mal direcionado denunciar o relativismo conquistado a duras penas que tem caracterizado as análises da medicina e da ciência a partir da História e das Ciências Sociais. Tentativas de apresentar os cientistas como portadores de verdades inquestionáveis estão destinadas a fracassar, uma vez que é por demais evidente que ciência e política dão forma uma à outra e que o conhecimento científico está muito claramente atrelado a políticas de Estado (estando, portanto, sujeito às suspeitas profundamente arraigadas a respeito desse mesmo Estado). Os acadêmicos – com ou sem razão – são frequentemente vistos como implicados nas disputas políticas ou como insensíveis às realidades da vida das pessoas comuns. Eles também estão sob suspeita.

Em vez de insistir na distinção entre verdadeiro e falso, os historiadores e demais estudiosos da ciência deveriam ajudar a dar transparência ao modo como a ciência funciona. E os cientistas deveriam igualmente ser mais transparentes em relação ao que eles sabem e ao que eles não sabem. Precisamos comunicar mais e de maneira melhor como a própria ciência opera – em outras palavras, precisamos de mais historiadores e cientistas sociais capazes de explicar a ciência. Nas escolas, as crianças deveriam aprender como os cientistas chegam a estabelecer suas verdades (parciais e abertas ao debate). Como e por que cientistas confrontam as alegações uns dos outros? Que papéis desempenham os enquadramentos teóricos e a evidência empírica nesse processo? Como ideias de bem comum informam os interesses de pesquisa? O público também necessita de uma base sólida para a leitura e a compreensão dos dados. Ele precisa estar habituado à prática de decodificar os vieses e compreender seus efeitos.

É verdade que dotar o público de um entendimento melhor de como a ciência funciona – nas suas idas e vindas, às vezes retrocedendo ou equivocando-se – pode minar a fé na expertise. Mas, ao mesmo tempo, é provável que os cientistas conquistem confiança. Da mesma forma, os cientistas precisam expor de maneira clara suas relações com as políticas públicas e sua implementação. Devem insistir na necessidade de contribuir para as políticas sem, por outro lado, recear fazer a crítica aos agentes públicos. Devem, por exemplo, reconhecer que a saúde pública pode e deve ser moldada por noções, abertas ao debate, sobre riscos e sobre o próprio significado de bem-estar. Devem insistir em seu interesse pelo bem-estar público, coletivo, e desenvolver formas efetivas de comunicação direta com a população de todas as maneiras possíveis. Se a saúde pública é algo verdadeiramente público, então a política se torna inevitável.

*Karin Alejandra Rosemblatt é professora de História da Universidade de Maryland, College Park. É autora, entre outros, do livro The Science and Politics of Race in Mexico and the United States, 1910-1950 (2018). Atualmente, trabalha como pesquisadora principal em projeto de pesquisa de cinco anos financiado pela National Science Foundation (EUA) e destinado à promoção e à coordenação de estudos em história das ciências, da tecnologia, do meio ambiente, da medicina e outros saberes na região da América Latina e Caribe. A Red de Estudios de las Ciencias y los Saberes em Latinoamérica y el Caribe (RECSLAC, Network for the Study of Sciences and Knowledges in Latin America and the Caribbean) apoia oficinas pedagógicas, conferências e workshops para estudantes de pós-graduação e docentes. 

Tradução por Thiago da Costa Lopes. Revisão de Carolina Gomes de Sá. Leia aqui o texto orginal em inglês.


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