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Mesa discute antropologia médica, ecologia e saúde

28/03/2011

 

Antropologia médica, ecologia e saúde foi o tema da primeira mesa de discussão do Simpósio Internacional Relações Médico-Científicas entre Brasil e Alemanha: história e perspectivas, realizada em 24 de abril. Teve coordenação de Heloisa Domingues, do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast).

A apresentação de Michael Knipper, do Instituto de História da Medicina da Universidade de Giessen (Alemanha), teve como tema A diversidade étnica, migração e saúde na Alemanha, Brasil e mais além: perspectivas para a cooperação transnacional”. O pesquisador compartilhou algumas reflexões sobre as perspectivas da cooperação transnacional para a melhoria da atenção médica e a redução das disparidades de saúde em países como o Brasil, Alemanha, Peru e Equador.

 

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Da esq. para dir. Knipper, Priscila Faulhaber, Heloisa Domingues e Rolf
Horstmann.
Foto: Vinicius Pequeno

 

“Em tempos de rápidas mudanças sociais e culturais desencadeadas por fenômenos como ‘globalização’ e migrações, a cooperação transnacional é a chave para lidar adequadamente com os desafios relacionados com estes fenômenos no domínio da medicina e da saúde”, afirmou Knipper.

 

Segundo o pesquisador, a cooperação transnacional abre perspectivas importantes tanto para a pesquisa - por exemplo, em questões como a cobertura de cuidados de saúde, epidemiologia e qualidade do atendimento – quanto para a graduação médica. Afirma que estes temas, realmente complexos, devem ser abordados na interface entre a medicina, história, antropologia social e cultural.

Knipper falou ainda que problemas de identificação e adaptação cultural podem ocasionar doenças cardiovasculares e outras. E que, por razões culturais, a minoria étnica não consulta médicos. “Temos que humanizar o tratamento médico usando as questões culturais étnicas”, disse, citando como exemplo o Brasil, que já vem atuando neste sentido.

A emergência da medicina tradicional indígena no campo das políticas públicas foi o tema da apresentação da antropóloga Luciane Ouriques Ferreira, que entre 2004 e 2009 atuou no Projeto Vigisus da Funasa.

Pesquisadora da Secretaria de Identidade e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Luciene disse que se por um lado o Estado passa a utilizar a noção de tradicional para qualificar seus objetos, por outro, ações de “revitalização cultural” também passam a ser realizadas por povos e comunidades indígenas em múltiplos contextos locais.

 

Para compreender o processo de emergência da medicina tradicional indígena, a pesquisadora propôs uma reflexão sobre os discursos oficiais proferidos pelos organismos internacionais e pelas políticas públicas e as falas indígenas nos eventos comunicativos promovidos pela área de Medicina Tradicional Indígena, do Projeto Vigisus.

 

 

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Pesquisadora Luciene Ouriques. Foto: Vinicius Pequeno

 

 

Luciene falou também sobre as reuniões de parteiras, pajés e agentes indígenas de saúde, que aconteceram em aldeias indígenas do Alto Juruá, no Acre, em 2006, e que congregaram participantes de diferentes etnias da região.

“Os enunciados proferidos durante essas reuniões permitem perceber que os discursos, categorias, conhecimentos e bens disponibilizados pelas políticas públicas são apropriados e indigenizados pelos povos indígenas do Alto Juruá. Portanto, esses discursos passam a veicular outros sentidos, diferentes daqueles que originalmente eles possuem como políticas públicas. As diferenças culturais são redimensionadas e novos locais de cultura emergem a partir das relações entre os povos indígenas e o Estado”, concluiu.

As apresentações seguintes enfocaram George Foster, o paradigma boasiano, a antropologia das instituições na Guerra Fria e um estudo sobre genoma humano e a resistência inata à infecção.  

A pesquisadora Priscila Faulhaber, do Mast, se propôs a voltar no tempo e falar sobre antropologia médica na época da Guerra Fria (1936-1952), desconstruindo o paradigma boasiano que apontava para o cenário complexo de uma sociedade em formação, onde avultavam, num momento de intensa migração e movimento de pessoas, idéias e coisas, os problemas de mudança cultural, de racismo e discriminação, de formação de novos costumes.

Falou sobre a atuação de George Foster, alemão que lutou contra o antissemitismo e que se dizia socialista. Ele desenvolveu nos anos 1940 um programa de estudos etnográficos no Brasil, México, Peru e Colômbia. Segundo ela, “embora Foster em um depoimento afirmasse ser apolítico, partilhava com os norte-americanos o ethos de seu país, o que o levava a ver os latino-americanos e a cultura nativa hierarquicamente, através de estereótipos, excluindo-os de seus projetos de carreira nas instituições norte-americanas”.

A apresentação de Rolf Horstmann, do Bernhard-Nocht-Institut für Tropenmedizin/Hamburg, foi sobre pesquisas em sequenciamento de genomas. O pesquisador afirmou que a suscetibilidade às infecções é regida pelos genomas, pelas variantes genéticas de determinado grupo étnico. “Precisamos observar que caminhos metabólicos poderão proteger doenças infecciosas, para que possamos desenvolver vacinas e medicamentos”, afirmou Rolf.

Centro de competência internacional alemão para a saúde, o Instituto Bernhard Nocht de Medicina Tropical (BNI) desenvolve investigação, serviços e formação no domínio das doenças tropicais e das infecções emergentes. Os temas de investigação incluem estudos clínicos, epidemiologia e controle de doenças, tais como a biologia dos agentes patogenicos, seus reservatórios e vetores. O foco é sobre a malária, febres hemorrágicas e nematóides em tecidos.

Rolf abordou um estudo, realizado junto ao Ministério da Saúde da República de Gana, sobre as diferenças genéticas associadas com o nível de parasitas da tuberculose e também da malária encontrado no sangue.

 

 

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