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Historiadora portuguesa investiga doutrinas clássicas em textos de higiene modernos

12/11/2018

“Como se manifesta, ao nível do discurso especializado e de divulgação, o impacto científico dos autores clássicos na produção de conhecimento higienista do iluminismo português?” Esta foi a questão que guiou a apresentação da historiadora portuguesa Carmen Soares no Encontro às Quintas, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). Em palestra realizada no Centro de Documentação e História da Saúde (CDHS), em Manguinhos (RJ), em 1º/11, a pesquisadora do Centro de Estudos Clássicos e Humanistas da Universidade de Coimbra debateu o tema “A presença (in)visível das doutrinas clássicas em textos de higiene dos sécs. XVIII e XIX”.

Ainda em andamento, a investigação de Carmen Soares tem o objetivo de identificar o impacto científico dos autores clássicos antigos, gregos e romanos, na produção de textos higienistas do iluminismo português. “A presença é visível e invisível porque depende do nosso olhar, do conhecimento para detectarmos ou não essa matriz mais clássica. Essa é a questão que se coloca. A minha formação é em estudos clássicos. Quando eu olho para os textos da época moderna, procuro ver neles esse olhar dos clássicos, se eles estão presentes, se não estão, como estão presentes. Esta é uma pesquisa em curso. É uma fase da pesquisa”, explicou a historiadora.

As duas fontes selecionadas por Carmen Soares são os tratados O homem médico de si mesmo (1760), de João Pedro Xavier do Monte, e Elementos de hygiene ou dictames theoreticos e practicos para conservar a saude, e prolongar a vida (1814), de Francisco de Mello Franco. Enquanto o primeiro autor é pouco conhecido pelos pesquisadores, o segundo é uma referência entre os médicos mais importantes na corte portuguesa de sua época. “Esses critérios foram tanto de ordem cronológica quanto tipológica, considerando o papel determinante para a renovação dos estudos médicos em Portugal, marcada pela reforma do ensino universitário, formalizada em 1772. Selecionei um tratado anterior e um posterior a conhecida Reforma Pombalina, marco institucional da chegada do iluminismo científico a Portugal”, disse.

A análise dos textos é uma chave para Carmen Soares compreender a relação dos “antigos” com os “modernos”, desvendando o que é ruptura, continuidade ou complementaridade em suas abordagens. Em relação à metodologia do seu trabalho, a pesquisadora portuguesa explica que a presença visível pode ser identificada nas citações e trechos de autores e obras clássicas enquanto a presença invisível aparece nas doutrinas e nos referenciais greco-romanos. “A herança clássica não deve ser avaliada com base somente na presença visível dos clássicos. Embora mais discreta, porque contida em doutrinas e princípios cuja origem não era necessário identificar, essa marca invisível desempenha papel fundamental no estudo da presença da matriz higienista antiga em obras das luzes”, esclareceu.

Em uma conclusão ainda provisória, Carmen Soares afirma que a presença dos clássicos nos tratados selecionados parece resultar mais da imitação do conhecimento produzido fora de Portugal do que de um convívio direto com as obras desses médicos antigos. Ainda de acordo com a historiadora da Universidade de Coimbra, os autores “modernos” não realizam uma assimilação passiva da matriz clássica, mas formalizam críticas de aceitação, acomodação ou questionamento em relação às fontes citadas ou implícitas. “As referências aos clássicos nesses autores no fundo funcionam como uma âncora cultural num período de efervescente revolução científica, como foi o Iluminismo. Há um processo criativo no diálogo com esse patrimônio”, disse.


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