Castelo da Fundação Oswaldo Cruz completa 100 anos

06/06/2018


Faixa comemorativa marca os 100 anos do Castelo de Manguinhos (Foto: Peter Ilicciev - CCS/Fiocruz)

O maior símbolo da Fundação Oswaldo Cruz está completando 100 anos em 2018. Idealizado pelo próprio cientista Oswaldo Cruz, que desenhou seus primeiros esboços, e projetado pelo arquiteto português Luiz Moraes Júnior, o Castelo Mourisco chega ao seu centenário tendo cumprido a missão desejada pelo patrono da Fiocruz, de ser o ícone do desenvolvimento da ciência e da saúde pública no Brasil.

(Confira o Especial 100 Anos Castelo Fiocruz da Agência Fiocruz de Notícias)

Para a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, além de ser um símbolo da ciência brasileira, o Pavilhão Mourisco é um monumento para expressar o caráter permanente que deve ter a atividade de pesquisa voltada para a resolução dos problemas de saúde.

“O Castelo é um símbolo da maior importância contemporânea, quando afirmamos que os recursos aplicados em ciência, tecnologia e inovação não devem ser vistos como gasto e sim como investimento no futuro do país como nação autônoma e inclusiva. É também um símbolo reconhecido pelos diferentes países com os quais a Fiocruz estabelece cooperação; um símbolo de uma ciência voltada para a saúde global, a justiça e a paz”, afirma Nísia.

“Por sua arquitetura singular, nos convida a uma reflexão sobre as relações entre arte, cultura e ciência, um encontro que enriquece a experiência de todos os que trabalham ou estudam na instituição, em suas diversas sedes no Rio de Janeiro e em outras cidades brasileiras, e de todos que levam consigo um pouco dela, seja por meio de resultados de pesquisa, cursos, vacinas, serviços, enfim, um pouco deste rico mosaico chamado Fiocruz”, completa a presidente.

Diretor da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), unidade técnico-científica responsável pela preservação e da restauração do patrimônio arquitetônico, ambiental e urbanístico da Fundação, Paulo Elian reafirma a importância do monumento.

“O Castelo Mourisco é o maior símbolo da Fiocruz e representa o êxito da ciência brasileira, desta instituição científica centenária e reconhecida por suas grandes contribuições para o país. A comunidade da Fiocruz e a sociedade reconhecem esse símbolo, seu valor científico e cultural. Nós da Casa temos sobre esse patrimônio enorme responsabilidade na sua preservação, pesquisa e uso social”, destaca.

Palácio das Ciências

Construído entre 1905 e 1918, o Pavilhão Mourisco foi erguido em uma colina na antiga fazenda de Manguinhos, de frente para a Baía de Guanabara, para substituir as antigas e improvisadas instalações do Instituto Soroterápico Federal, criado em 25 de maio de 1900. Principal edificação do Núcleo Arquitetônico Histórico (NAHM) de Manguinhos – também composto hoje pelo prédio do Quinino ou Pavilhão Figueiredo Vasconcellos, Cavalariça, Pavilhão do Relógio ou da Peste, Pombal ou Biotério para Pequenos Animais, Hospital Evandro Chagas e a Casa de Chá  – o “Palácio das Ciências” foi imaginado por Oswaldo Cruz para ser a sede do novo instituto, criado à imagem do Instituto Pasteur, de Paris, reunindo a produção de vacinas e remédios, a pesquisa científica e demais atividades ligadas à saúde pública.

“A ideia era marcar a gestão dele à frente da Saúde Pública e a própria presença da Saúde Pública nas ações do Brasil novo, republicano, com um Palácio das Ciências. Uma edificação suntuosa, não pelo luxo, mas pela sua expressão. Uma construção sólida e monumental para ser importante e durar no tempo”, afirma o arquiteto, urbanista e pesquisador do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Casa de Oswaldo Cruz, Renato Gama-Rosa, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Preservação e Gestão do Patrimônio Cultural das Ciências e da Saúde da COC.

De acordo com Renato Gama-Rosa, o estilo eclético que define o Pavilhão Mourisco teve três influências principais, ao longo de seus anos de construção. A primeira foi o Palácio de Montsouris, em Paris, que Oswaldo Cruz conheceu quando estudou na França. Ali já estava marcada a presença da linguagem neo-mourisca, que vivia um momento de valorização no final do século XIX na Europa. A segunda influência foi justamente o Castelo de Alhambra, em Granada, Espanha. “Na biblioteca particular de Oswaldo Cruz tem um livro sobre a Alhambra, que ele comprou e provavelmente mostrou ao Luiz Moraes Jr. O arquiteto copiou os seus desenhos. Depois do livro de Alhambra, as obras do Castelo ganharam outra dimensão”, explica Renato.

A terceira principal influência, revelada mais recentemente, foi a sinagoga de Berlim, que inspirou outras sinagogas mundo afora e também as torres do Castelo do então Instituto Oswaldo Cruz. “As torres do Castelo são cópias fiéis das torres dessas sinagogas”, diz Renato. Entre outras influências, Renato também destaca a presença da arquitetura de saúde da época. “As construções de saúde dessa época obedeciam à planta em formato H para permitir a ventilação cruzada dos ambientes”.

A construção

Para a construção do Pavilhão Mourisco foram utilizados vidros, telhas, revestimentos, mármores, ferros e luminárias importados da Europa. A maior parte do material chegava de barco, por meio de um cais instalado na Baía de Guanabara, cujas águas chegavam até onde hoje está a Avenida Brasil, inaugurada apenas em 1947. Ainda na primeira década do século XX, o primeiro e o segundo pavimentos do Pavilhão Mourisco foram ocupados por laboratórios, enquanto seguiam as obras nos pavimentos superiores.

O terceiro, quarto e quinto pavimentos do Castelo, incluindo seu terraço e suas torres, foram finalizados a partir de 1910. Em 1918, o museu e a biblioteca já estavam funcionando no terceiro andar e os trabalhos de ornamentação do hall e do salão nobre da biblioteca foram concluídos. Os equipamentos de laboratório e as instalações elétricas, térmicas, telefônicas e telegráficas também já haviam sido implementadas, caracterizando o Pavilhão Mourisco como um dos edifícios de maior sofisticação tecnológica do país, incluindo um elevador que funciona até os dias de hoje.

“O fato de o Instituto Oswaldo Cruz ter uma sede tão robusta e tão sólida ajudou na própria perenidade da instituição, com impacto para o desenvolvimento da ciência e da saúde no país. Se não houvesse uma obra de maior vulto nas antigas instalações da fazenda de Manguinhos, talvez a instituição não tivesse tido o progresso que teve. Era como se desde o início o Castelo simbolizasse a instituição”, comenta Renato Gama-Rosa.

Usos e conservação

Morto precocemente em 11 de fevereiro de 1917, Oswaldo Cruz não conseguiu ver o seu projeto concluído, mas o sonho de um “Palácio das Ciências” permaneceu vivo para as próximas gerações. O Núcleo Arquitetônico Histórico de Manguinhos foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico em 1981. Desde a criação da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), em 1986, o patrimônio histórico e cultural da Fiocruz está sob a sua guarda e responsabilidade. Segundo o arquiteto e pesquisador do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Casa de Oswaldo Cruz, a solidez do Castelo contribuiu para que não fossem necessárias muitas obras de manutenção ao longo dos anos. O maior esforço foi justamente para rever algumas reformas que descaracterizaram o projeto original.

“As maiores intervenções foram feitas para descaracterizá-lo internamente, no período dos militares, nos anos 1970. Quando a Casa de Oswaldo Cruz surgiu foi para desfazer uma série de intervenções mal feitas pelos militares na parte interna do Castelo, como fechamento de portas e vãos”, afirma Renato, que aponta os terraços e as torres como as áreas mais frágeis do Pavilhão Mourisco.

Atualmente, o Castelo Mourisco é ocupado pela Presidência da Fiocruz e seus setores administrativos, pelo Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da COC e pelo Instituto Oswaldo Cruz, unidade técnico-científica da Fiocruz. Além disso, o Castelo também abriga a Biblioteca de Obras Raras, sob a guarda do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnologia em Saúde (Icict/Fiocruz), e três salas de memórias, em homenagem aos cientistas Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e Costa Lima, que fazem parte do roteiro de visitação do Museu da Vida em Manguinhos. “São alguns usos que a gente fez questão de preservar. Tem que ter usos simbólicos, mas compatíveis com um monumento centenário deste porte”, diz Renato.

Para manter os setores em funcionamento, com dezenas de pessoas ocupando diariamente o Pavilhão Mourisco, a Casa de Oswaldo Cruz investiu, desde a sua criação, no setor de Educação Patrimonial. O objetivo era incentivar os trabalhadores da Fiocruz a respeitar o patrimônio da instituição.  “O nosso desafio, desde a criação da Casa de Oswaldo Cruz, é justamente conciliar o uso com a questão patrimonial. Por um lado o uso ajuda na conservação e na manutenção do edifício, mas por outro lado impõe uma série de medidas que não afetem os seus materiais originais. A gente teve que adotar o ar condicionado, por exemplo, para permitir o uso e o conforto de quem trabalha no Castelo. A gente faz um planejamento para que o uso seja possível, com o menor impacto possível”, explica Renato.


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