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‘Encontro às Quintas’ debate estratégias de controle do câncer de mama

21/05/2018

A história das estratégias de controle do câncer de mama, especialmente o rastreamento mamográfico, foram tema de discussão do Encontro às Quintas, realizado no Centro de Documentação em História da Saúde (CDHS), em Manguinhos (RJ), no último dia 10. O evento contou com as apresentações dos pesquisadores Luiz Antonio Teixeira, da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), e Ronaldo Corrêa Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca), e também marcou o lançamento do livro O controle do câncer de mama no Brasil: trajetórias e controvérsias.

Parceria entre a Fundação Oswaldo Cruz e o Inca, a obra faz parte da série Depoimentos para a História do Controle do Câncer no Brasil, que tem o objetivo de recuperar a memória relacionada às ações contra o câncer no país, a partir de personagens que contribuíram para a elaboração ou a implementação de políticas, programas ou ações relacionadas ao controle da doença. O lançamento do livro aconteceu logo após o encontro promovido pelo Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz.

Em sua apresentação, o pesquisador e professor da Casa de Oswaldo Cruz Luiz Antonio Teixeira fez uma análise de cunho histórico sobre o processo de desenvolvimento do controle do câncer de mama no Brasil. “O que me interessa é compreender como esse processo científico se produz, se difunde, se divulga, em diversos locais diferentes. A gente parte do princípio que a criação do conhecimento, em especial sua divulgação e consumo, é histórica, localmente determinada, por um determinado grupo de atores”, afirmou Luiz Antonio.

Ao reconstruir a história do controle de câncer no país, o pesquisador destacou o processo de organização da saúde pública e as tensões entre as esferas do público e do privado como fatores fundamentais para se compreender o tema. “Esses dois aspectos fazem com que a questão do rastreamento mamográfico tenha sido historicamente, sobretudo a partir da década de 90, bastante confuso e até hoje se mostre bastante controverso. Em especial em relação à ampliação do rastreamento e também a questão da idade para o rastreamento”, argumentou.

Luiz Antonio Teixeira também destaca como o câncer historicamente foi visto como uma “doença feminina”. “Durante muito tempo se imaginava que câncer eram doenças mais visíveis, como câncer de mama e de colo”, disse o pesquisador, revelando como o rastreamento e o combate ao câncer de colo de útero influenciaram o tratamento do câncer de mama. “Um dos argumentos centrais do nosso trabalho é que o câncer de colo de útero foi o modelo principal para a criação de propostas de rastreamento organizado de câncer de mama no Brasil”, explicou.

As tensões entre os modelos de prevenção ao câncer de mama – de um lado, o rastreamento baseado no auto-exame e no exame clínico das mamas, do outro, a mamografia – representavam a complexidade dos debates entre o poder público, a iniciativa privada, especialistas e associações de mulheres e doentes, que ganharam força a partir dos anos 90. “Esse processo está em aberto e continua a ser passível de diversas discussões”, informou Luiz Antonio, acrescentando: “Os parâmetros de transformação da mamografia em ferramenta certa para o diagnóstico de câncer de mama permanecem incertos. Sua definição não depende somente de evidências científicas, mas das posições relativas de grupos com interesses e poderes historicamente construídos e consolidados”.

Trajetória científica

As concepções científicas sobre o controle do câncer no Brasil foram a base da apresentação do pesquisador Ronaldo Corrêa Ferreira da Silva, que há 27 anos atua do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca). Com enfoque na questão do rastreamento, Ronaldo debateu os diferentes paradigmas relacionados à história natural do câncer de mama. “O objetivo da intervenção é identificar a doença bem no início da sua história natural de forma a reduzir a sua mortalidade. Dentro do controle do câncer de mama, a questão do rastreamento talvez seja a intervenção sanitária mais discutida e mais polêmica”, declarou.

A partir dos paradigmas que, desde meados do século XIX, identificavam o câncer como uma doença localizada, o pesquisador do Inca demonstrou como a mastectomia se tornou o padrão de combate ao câncer de mama no país durante quase todo o século XX. “A ideia de que o câncer de mama era uma doença local gerou duas grandes ideias: a primeira, que quanto mais cedo identificar melhor. A segunda, de fazer tratamentos radicais, uma vez identificado o câncer naquela mama”, explicou Ronaldo Corrêa.

Segundo o pesquisador do Inca, o desenvolvimento da proteômica e da genômica no século XXI contribuiu para a alteração destes paradigmas e colocou em dúvida a contribuição das cirurgias radicais e do rastreamento mamográfico para a diminuição da mortalidade do câncer de mama. “Pesquisas revelaram que a cirurgia radical diminuía a reincidência local, mas a sobrevida a longo prazo não diminuía. No caso da mamografia, descobriu-se uma dificuldade de encontrar os subtipos de câncer mais agressivos, porque eles crescem muito rápido e a mamografia é feita num determinado intervalo”, afirmou Ronaldo, ressaltando ainda que os “subtipos menos agressivos são os mais prevalentes e chegam a 75% dos casos”.


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