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“A função social do Museu da Vida é inspiradora”, diz Antonio Benitez

13/12/2017

Antonio Benitez
Benitez: "troca de experiências trará benefícios mútuos". Foto: Jeferson Mendonça


Líder da equipe de Ciência Contemporânea do Museu de Ciência e Indústria de Manchester (www.msimanchester.org.uk), na Inglaterra, e diretor do Festival de Ciência (www.manchestersciencefestival.com) da cidade, o espanhol Antonio Benitez esteve no Rio de Janeiro durante duas semanas para participar de um intercâmbio com a Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). Resultado de um edital do British Council, a parceria também prevê a ida de um pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz a Manchester no início de 2018. O objetivo da ação é promover a troca de ideias e avaliar as possibilidades de cooperação entre as duas instituições.

Durante a sua intensa programação no Rio, Benitez conheceu as instalações do Museu da Vida e da Fiocruz, em Manguinhos, onde participou de simpósio científico e encontros com pesquisadores e gestores da instituição. No fim de sua primeira visita ao país, Antonio Benitez destacou a importância estratégica do Brasil para o Reino Unido e disse que ficou muito impressionado com a “função social” que o Museu da Vida promove com as escolas públicas e as comunidades pobres na cidade. De acordo com o pesquisador espanhol de 38 anos, que há 16 vive no Reino Unido, “os museus europeus têm muito a aprender com o modelo da Fiocruz e do Museu da Vida sobre essa função social tão importante que realizam”.

O que é o Museu de Ciência e Indústria de Manchester?

Antonio Benitez: Nós começamos a funcionar como Museu da Ciência e Indústria na década de 1960, sobretudo com coleções científicas e industriais que vinham da Universidade de Manchester. Em 1983, nós mudamos para os edifícios que ocupamos agora, que pertenceram à primeira estação de trem de passageiros do mundo, que unia as cidades de Manchester e Liverpool. Nossa função enquanto museu é contar a história de Manchester e o papel que a região teve na Revolução Industrial e Científica. É uma coleção de interesse nacional e internacional, porque Manchester foi a sede da revolução que depois se espalhou pelo mundo. Em 2012, nosso museu se uniu ao Science Museum Group (https://group.sciencemuseum.org.uk) grupo de museus de ciência do Reino Unido. São cinco museus, que juntos recebem mais de cinco milhões de visitantes ao ano e formam o maior e mais importante grupo de museus de ciência no mundo. Em Manchester, nós recebemos cerca de 700 mil visitantes por ano. As exposições e o programa educativo são os dois principais pontos do nosso programa. Atualmente nós estamos com uma exposição muito popular sobre robôs (www.msimanchester.org.uk/whats-on/robots) e o impacto dos robôs em nossa vida.

Como funciona o Festival de Ciência?

Antonio Benitez: Nós iniciamos o festival em 2007. Tudo começou como uma experiência do Museu da Ciência e Indústria e um grupo de organizações, como universidades e outros museus de ciência, no sentido de explorar a possibilidade de um festival de ciência na região de Manchester. Era um festival pequeno, que começou a crescer ano a ano, tanto no número de visitantes quanto no número de eventos relacionados, até chegar ao ponto de se transformar no festival de ciência mais popular do Reino Unido, com 136 mil visitantes em 2016 e cerca de 300 eventos, que acontecem durante onze dias, nas férias escolares de outubro. O público é muito diverso e tem a participação de famílias, jovens e adultos. Nosso festival é uma celebração da ciência. Nós não damos aulas formais de ciência, mas oferecemos experiências singulares, que têm o objetivo de despertar a curiosidade do público sobre os nossos temas.

Qual foi o motivo de sua visita à Fiocruz?

Antonio Benitez: A visita foi uma oportunidade de intercâmbio oferecida pelo British Council, uma chamada pública para fazer parte de um intercâmbio profissional com colegas de museus do Brasil. Eu achei uma oportunidade incrível para conhecer a prática museológica no Brasil e, sobretudo, o trabalho comunitário que os museus do Rio de Janeiro fazem. Também é uma oportunidade muito boa para o grupo de museus de ciência do Reino Unido, do qual nós fazemos parte. O Brasil é um país prioritário em nossas relações internacionais. Para o grupo de museus de ciência do Reino Unido, essas colaborações, não só locais, regionais, mas também internacionais, são realmente importantes. O Brasil é uma de nossas áreas de prioridade estratégica para desenvolver relações com outros museus e com profissionais que trabalham nos dois países.

Como foi a sua experiência no Museu da Vida?

Antonio Benitez: Foi uma visita fascinante. Uma oportunidade não só de conhecer, com mais profundidade, como funcionam os museus no Rio de Janeiro, mas também de conhecer melhor os aspectos sociais e culturais da cidade e do país. A maior parte do tempo eu tive reuniões para aprender coisas diferentes sobre o trabalho que a Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) e o Museu da Vida realizam, sobretudo o trabalho comunitário, realizado fora da instituição, que nos interessa muito. Iniciativas como o Ciência Móvel são muito importantes, assim como o oferecimento de transporte para ajudar as escolas locais, de áreas mais desfavorecidos, a irem a Manguinhos. Nós identificamos esse trabalho como uma grande fonte de inspiração. Também foi uma oportunidade para aprender com a maneira como o Museu da Vida utiliza algumas plataformas artísticas para comunicar e fazer projetos de divulgação científica. Os museus europeus têm muito a aprender com o modelo da Fiocruz e do Museu da Vida sobre essa função social tão importante que realizam. Foi uma chance única de aprender com colegas de diferentes equipes que realizam uma função social tão extraordinária.

Quais as impressões de sua primeira visita ao Brasil?

Antonio Benitez: As minhas primeiras impressões do Brasil foram muito positivas. Você logo vê que é um país muito dinâmico. Há sobretudo duas coisas sobre o Brasil mais conhecidas na Europa: a música e o futebol. Esses são dois motivos fundamentais pelos quais se conhece o Brasil no mundo. O mais interessante na minha visita, portanto, foi conhecer a realidade social do país, inclusive política, financeira e comunitária. Sem dúvida, a oportunidade de conhecer tudo isso mais de perto foi surpreendente e um dos pontos altos deste intercâmbio. É um país com muitos recursos, do ponto de vista natural e do ponto de vista do conhecimento. Mas a desigualdade social também é algo que chama muito a atenção quando se chega ao Brasil.

É possível imaginar um festival de ciência no Rio de Janeiro?

Antonio Benitez: Eu penso que sim. No Festival de Ciência de Manchester, o slogan é “parte laboratório, parte pátio de recreio e de jogos”. A nossa visão privilegia a criatividade, a inovação e, sobretudo, a ideia de jogar com a ciência. Isso encaixa muito bem com o público local, que pode não estar interessado na ciência, mas pode estar interessado em uma das experiências que oferecemos. São experimentos com conteúdo científicos, mas as plataformas que nós utilizamos são baseadas na arte, na filosofia, na criatividade e, sobretudo, nos jogos. Então eu creio que poderia haver algo parecido no Brasil. Por experiência própria, o conselho que eu daria era começar em pequena escala, para depois crescer, do ponto de vista cultural e artístico, com a participação de outras instituições e colaboradores, incluindo outros agentes sociais.

Que lições deste intercâmbio você leva de volta para a Inglaterra?

Antonio Benitez: Eu levo, sobretudo, algo admirável, que é a responsabilidade e a função social do Museu da Vida. Essa diversidade de públicos e visitantes que existe aqui é um diferencial que eu gostaria de levar de volta pra Manchester, porque creio que a Fiocruz e o Museu da Vida são exemplos muito bons de como a função social do museu é fundamental para todas as organizações e todas as pessoas que nelas trabalham. Eu acho que esse foi o meu principal aprendizado.

Quais serão os desdobramentos desta parceria?

Antonio Benitez: Os próximos passos serão a ida do Diego Bevilaqua (assessor técnico de Divulgação Científica da Casa de Oswaldo Cruz) para a visita aos museus de Manchester, no início de 2018. Nós precisamos de tempo para processar tudo o que vivemos nessa experiência e para pensarmos no que vamos fazer em conjunto. Eu penso que há oportunidades de cooperação, em programas, com objetos e exposições, e aposto, sobretudo, no intercâmbio de experiências e habilidades que podem beneficiar as equipes do Reino Unido e do Brasil. A troca dessas experiências trará benefícios mútuos. Eu penso que o Reino Unido tem muita coisa a aprender com o Brasil e vice-versa. É uma questão de avaliar as oportunidades para pensarmos o que se pode fazer.


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