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Hércules contra a febre amarela: clássicos integram a biblioteca particular de Oswaldo Cruz

07/11/2017

Em 17 de maio de 1909, Oswaldo Cruz conheceu um dos romancistas estrangeiros mais influentes no Brasil no início do século 20, o francês Anatole France (1844-1924). O encontro, na Academia Brasileira de Letras, onde o escritor seria homenageado, foi registrado pelo próprio Oswaldo Cruz em um exemplar de La rôtisserie de la reine Pédauque de 1892, considerada por muitos – incluindo o próprio cientista – a obra prima de France.

“O senhor matou a Hidra! O senhor é um benfeitor da humanidade. Sim, foi assim que se formou a lenda de Hércules”, teria dito o francês ao sanitarista em referência a seu recente feito: debelar a epidemia de febre amarela que ceifava vidas e era motivo de má fama ao Rio de Janeiro em um momento em que a cidade disputava com a capital argentina o posto de “Paris” sul-americana. A anotação foi feita pelo próprio Oswaldo Cruz em uma das primeiras páginas da obra.

Da sessão em homenagem a France, participaram 14 dos quarenta acadêmicos, incluindo José Verissimo, um dos fundadores da academia, quem apresentou Anatole France a Oswaldo Cruz. A academia era sediada no Silogeu Brasileiro, prédio situado junto ao passeio público, no centro do Rio, e assim chamado por abrigar diversas associações científicas e literárias. Além da Academia de Letras, estiveram ali instaladas a Academia de Medicina, da qual Oswaldo Cruz fazia parte, o Instituto dos Advogados do Brasil e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.   

O exemplar de La rôtisserie de la reine Pédauque em que o cientista registrou o episódio integra a Coleção Oswaldo Cruz. O conjunto, sob a guarda da Biblioteca de História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), inclui mais de 70 obras de literatura e música. Somente de autoria de Anatole France, são 11 obras, entre as quais Le crime de Sylvestre Bonnard, de 1881, seu primeiro grande êxito literário.

Oswaldo Cruz: cientista transitou pelo mundo das letras

Com um estilo que remetia a Voltaire, France foi uma “coqueluche” entre a intelectualidade brasileira da época, o que se evidenciou pela pompa com que foi recebido no Rio de Janeiro, por onde passou brevemente antes de rumar para Buenos Aires. Durante a homenagem na Academia de Letras, o então presidente da entidade, Rui Barbosa, discursou-lhe em francês. O satirista, cuja produção foi marcada por certo ceticismo urbano, viria a ser agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1921.

Pouco mais de quatro anos após a homenagem a Anatole France, a 26 de junho de 1913, Oswaldo Cruz voltaria à Academia de Letras para tomar posse como um de seus imortais. A eleição de um membro não proveniente do mundo das letras gerou descontentamento em alguns setores, avessos à condução de Cruz para ocupar a cadeira 5, que fora de Raimundo Correia, poeta parnasiano que o sanitarista classificou como “genial” em seu discurso de posse.

No discurso de recepção, Afrânio Peixoto, dirigindo-se ao cientista, tratou de dissipar as críticas: “Podereis passar sem nós; a Academia vos requestou. Nisto ela é bem feminina – que pecado feliz! – quando procura possuir todas as jóias ao seu alcance. E, se os que a invejam, neste momento, fingem exigir razão prática de sua escolha, ela lhes confia que não conseguiu ainda divulgar diferença essencial entre ciências e letras, a não ser que umas se fazem com as outras, e estas, pela literatura – revelação do ambiente, do povo, da ocasião – incluídas assim no determinismo científico”.

De Goethe a Padre Antônio Vieira: os clássicos literários na Coleção Oswaldo Cruz

Destaca-se na coleção Oswaldo Cruz o romance The Life and Adventures of Martin Chuzzlewit, de Charles Dickens, um dos principais romancistas ingleses do período vitoriano, autor de Oliver Twist e A tale of two cities. O enredo de Martin Chuzzlewit gira em torno da personagem que dá título à obra, um aprendiz de arquiteto deserdado por seu rico e excêntrico avô. Ele parte, então, para os Estados Unidos onde passa por uma série de desventuras. Desiludido, retorna à Inglaterra e se reconcilia com o avô.

Integra também a biblioteca particular do sanitarista um dos tomos da coleção Oeuvres de Chateaubriand, um compêndio da produção do escritor, político, diplomata e historiador francês François-René de Chateaubriand (1768-1848). O volume reúne duas das chamadas obras históricas do autor: Essai historique, politique et moral sur les révolutions anciennes et modernes, considérées dans leurs rapports avec la Révolution française, de 1797, e Études historiques sur la chute de l’empire romain, la naissance et les progrès du christianisme et l’invasion des barbares, de 1831. Nesses textos, Chateaubriand reflete sobre o trabalho do historiador e dedica-se a questões metódicas da historiografia francesa da época.

Outro item que se destaca na coleção é o sexto tomo das Obras Completas de Voltaire, escritor e filósofo iluminista francês. Defensor da primazia da razão, o pensador apontava a busca pela felicidade de todos os homens por meio do progresso das ciências e das artes como o objetivo da vida, em contraponto às ideias de busca da salvação da alma pela penitência.

Esse tomo, de 1869, compreende sete grupos de textos: Mémoires, Lettres anglaises, Dialogues, Romans, Facéties, Poëmes et Poésies, além de correspondência mantida com D’Alambert. Entre eles, está Éloge historique de la raison, uma alegoria que conta a história da Razão e sua filha, a Verdade: depois de anos tendo de esconder-se em um poço, ambas emergem e percebem que podem começar seu reinado.

Clássico da literatura mundial, o romance em tom autobiográfico Die Leiden des jungen Werthers (Os sofrimentos do jovem Werther), de Goethe (1749-1832), também integra a Coleção Oswaldo Cruz. O livro virou febre na Alemanha com o relato de um triângulo amoroso: Werther apaixona-se por Charlotte e passa a visitá-la diariamente, embora a moça esteja noiva. O protagonista acaba perdendo a cabeça e resolve se matar. À época de sua publicação, relataram-se episódios em que jovens se suicidaram empunhando a obra de Goethe, o que levou à proibição temporária da publicação de novas edições.

Na seara musical, a coleção Oswaldo Cruz inclui uma análise crítica de Fliegender Holländer (O holandês errante), uma ópera em três atos de Richard Wagner, que estreou em 1843 em Dresden (Alemanha). Ambientada em uma aldeia pesqueira da Noruega, a narrativa conta a história de um navegador holandês que é punido por Deus por blasfemar contra seu nome, perdendo-se de sua pátria para sempre, a menos que surgisse em sua vida uma mulher que lhe fosse plenamente fiel. De autoria de Mar Chop, a crítica, que inclui partituras comentadas, consta da publicação semanal ilustrada Universum.

Entre as obras em língua portuguesa que pertencem à Coleção Oswaldo Cruz está um dos tomos dos Sermões do Padre Antônio Vieira (1608-1697). A obra do religioso, que atuou na Companhia de Jesus em terras brasileiras, compreende textos em estilo conceptista, modalidade barroca cuja estrutura se constrói pela lógica argumentativa.

Com uma obra marcada por uma visão humanista de mundo, Lima Barreto (1881-1922) também está presente na biblioteca particular do cientista. Em seu romance de estreia, Recordações do escrivão Isaías Caminha, de 1909, questões como o racismo e a exclusão social, espinhosas à época, dão a tônica da narrativa, que ilustra as falhas do País na integração dos negros à sociedade brasileira após a sanção da Lei Áurea. Ambientada na redação de um grande jornal, o livro de Lima Barreto apresentou um retrato impiedoso de figuras importantes do jornalismo da época, o que lhe fechou espaços na imprensa carioca e atrapalhou sua carreira. A obra, portanto, somente mais tarde viria a se tornar um clássico da literatura brasileira.

 


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