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“A ciência, muitas vezes, não é uma democracia”, diz historiador

21/07/2017

Cueto falará no Congresso Internacional de História da Ciência e da Tecnologia, no Rio. Foto: Roberto J. Oscar.


“Não podemos esquecer que existem inequidades e hierarquias, e que muitas vezes a ciência não é uma democracia, mas uma verdadeira pirâmide. A autoridade da ciência se constrói, e muitos países da América Latina não têm o poder ou os recursos que detêm outros cientistas.” A análise é do historiador da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) Marcos Cueto, que abre neste domingo, 23 de julho, no Rio, a 25ª edição do Congresso Internacional de História da Ciência e da Tecnologia (ICHST, na sigla em inglês), cujo tema é Ciência, tecnologia e medicina: entre o global e o local.

Editor científico da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Cueto falará sobre os desafios da história da ciência na América Latina. Um deles é a inserção dos pesquisadores da região nos estudos sobre circulação transnacional do conhecimento, que tem no idioma uma de suas barreiras. “Quando treinamos historiadores, o que pedimos é que leiam inglês, não que escrevam e pensem no idioma”, afirma, pontuando que os recursos disponíveis para tradução são escassos. “É mais difícil para historiadores latino-americanos escrever em inglês e enviar seus trabalhos a boas revistas internacionais.”

Muitos países da América Latina participam dessa circulação transnacional do conhecimento de maneira assimétrica ou não conseguem dela extrair todos os benefícios. Levar isso em conta é um ponto importante.

Nesta entrevista, ele fala sobre processos de invisibilização, isto é, o apagamento de parte dos atores e instituições locais que desempenham importante papel na construção do conhecimento, mas sequer são mencionados em algumas publicações europeias ou norte-americanos.  Cueto comenta ainda casos de cooptação de iniciativas surgidas em países em desenvolvimento, que são apropriadas por programas internacionais e “domesticadas”, como a política brasileira de antirretrovirais.

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“No caso do Brasil, não havia somente a distribuição de medicamentos, mas toda uma cultura e uma campanha política de prevenção, de luta contra a homofobia, de discussão de práticas sexuais. As agências [internacionais] não queriam fazer essas discussões em outros países”, observa. “Temos a capacidade de dar boas respostas para a ciência, mas temos de defender a integralidade dessas respostas. Elas não são medidas isoladas, mas parte de uma maneira de pensar a sociedade, e a saúde e a ciência como direito dos cidadãos”.

O que a realização desse congresso no Rio de Janeiro representa?

Cueto: Este é parte de uma sequência de congressos organizados pela Divisão de História da Ciência e da Tecnologia da União Internacional de História da Ciência e Tecnologia, ambas vinculadas à Unesco, estruturadas como tal somente depois da Segunda Guerra Mundial. A tradição da realização de congressos internacionais da história da ciência começou em Paris em 1929. Após a guerra, os congressos começaram a acontecer a cada quatro anos. O interessante dos últimos anos é que, em 2001, pela primeira vez se realizou, no México, um congresso fora da Europa e dos Estados Unidos. O título foi Ciência e diversidade cultural. Quatro anos depois, em 2005, realizou-se um congresso em Pequim, na China, intitulado Globalização e diversidade: difusão da ciência e da tecnologia na história. Antes do congresso que acontece no Rio, a sede foi Manchester, na Inglaterra, em 2013. O fato de que, nos últimos 17 anos, tivemos dois congressos fora da Europa e dos Estados Unidos mostra um grande crescimento da disciplina fora desses lugares clássicos e mostra também que começam a aparecer novas preocupações entre os historiadores da ciência.

Que preocupações são essas?

Cueto: Uma delas aparece no título do congresso do Rio, que é Ciência, tecnologia e medicina: entre o global e o local. Os estudos de história da ciência na América Latina experimentaram uma renovação desde os anos 1980, quando começou-se a estudar as dinâmicas locais das instituições científicas, com muita ênfase em conceitos como ‘centro’, ‘periferia’ e ‘recepção’, tendo quase sempre a dimensão internacional como um pano de fundo. Não levavam-se muito em conta as interações entre as dinâmicas locais e a ciência europeia e norte-americana. Somente alguns estudos nos últimos anos começaram a ter como foco essas interações. Isso levava muitos historiadores a se perguntarem qual a relação entre a ciência feita localmente e os paradigmas científicos criados no exterior.

O que esse questionamento implica?

Cueto: Questiona-se a ideia de que a ciência é criada em um país industrializado e é adaptada e recebida em um país em desenvolvimento. Pelo contrário, estudos recentes apontam, inclusive, que o conteúdo da ciência muda em uma circulação transnacional. Por isso, para muitos historiadores, os termos ‘global’ e ‘local’ não são novas versões de ‘centro’ e ‘periferia’. Do ponto de vista da América Latina, existem alguns assuntos importantes de se salientar para a literatura internacional, dos quais vou falar na palestra de abertura. Primeiramente, que a circulação é assimétrica. Não podemos esquecer que existem inequidades e hierarquias, e que muitas vezes a ciência não é uma democracia, mas uma verdadeira pirâmide. A autoridade da ciência se constrói, e muitos países ou regiões da América Latina não têm o poder ou os recursos que detêm outros cientistas. Então, participam dessa circulação de maneira assimétrica ou não conseguem dela extrair todos os benefícios. Levar isso em conta é um ponto importante.

De que forma se pode observar essa inserção assimétrica?

Cueto: Podemos mostrar, com relação à América Latina, que a circulação acontece junto a um processo de invisibilização – tornar invisíveis parte dos atores e instituições que participam de determinados processos. Algo clássico é que muito do que se sabe na Europa sobre a América Latina e suas plantas é graças a curandeiros indígenas, guias locais ou pessoas consideradas como diletantes por não ser especializadas segundo os cânones europeus. Depois, o resultado dessas pesquisas aparecem em publicações europeias ou americanas, em que esses intermediários desaparecem. Às vezes, no entanto, os historiadores da ciência latino-americana apontam que, sim, existiram esses intermediários, e que o trabalho de expedições científicas não teria sido possível sem a mediação desses guias indígenas, professores locais, não percebidos como cientistas profissionais pelos padrões europeus.

Embora a circulação transnacional do conhecimento não seja algo novo, esse processo ficou evidente recentemente com o surto de zika, por exemplo, quando o Brasil esteve nos holofotes. As assimetrias das quais você fala se perpetuam ainda hoje?

Cueto: Houve várias iniciativas que surgiram de países em desenvolvimento e de renda média, como o Brasil, que, se não foram invisibilizadas, muitas vezes foram cooptadas, isto é, levadas para programas internacionais e ‘domesticadas’. Uma delas está ligada ao caso do zika. Outro exemplo é o dos antirretrovirais. O Brasil foi o primeiro país do mundo, em 1996, a dar antirretrovirais gratuitamente a todas as pessoas. No início, muitas agências, como o Banco Mundial, achavam que essa era uma medida irracional, que não ia ter sucesso. Mas o Brasil defendeu a ideia de que saúde era um direito. Depois de uns anos, foi aceita a visão de que o acesso a medicamentos era um direito e que isso era mais importante que o lucro das companhias farmacêuticas. Desde 2001, as principais agências mundiais de saúde defenderam a ideia de acesso universal a antirretrovirais. Mas houve uma cooptação, em que se começou a aceitar limitadamente essa ideia.

De que forma isso ocorreu?

Cueto: Dizia-se: vamos aceitar distribuição de antirretrovirais, mas só para as pessoas que precisam mais desses medicamentos, ou incluindo somente a primeira geração desses medicamentos, que tinha mais efeitos colaterais. Ao mesmo tempo, [organismos internacionais] celebravam o Brasil como o grande sucesso a ser imitado pelo resto dos países, o que nunca aconteceu. No caso do Brasil, não havia somente a distribuição de medicamentos, mas toda uma cultura e uma campanha política de prevenção, de luta contra a homofobia, de discussão de práticas sexuais. As agências não queriam fazer essas discussões em outros países. Por exemplo, em países árabes e africanos onde a homossexualidade era um crime, as agências trabalhavam somente distribuindo antirretrovirais quase como uma medida isolada, como uma ‘bala mágica’, como se fala em história das ciências. Além desse processo de internacionalização, na América Latina e no Brasil temos não apenas que celebrar boas iniciativas locais, mas estar atentos a esse processo de cooptação que existe a nível internacional. Temos a capacidade de dar boas respostas para a ciência, mas temos de defender a integralidade dessas respostas. Elas não são medidas isoladas, mas parte de uma maneira de pensar a sociedade, e a saúde e a ciência como direito dos cidadãos. 

Conforme passam a receber mais atenção os estudos sobre circulação global do conhecimento, ainda há espaço para se olhar para as dimensões local e nacional?

Cueto: Na América Latina, ainda existe uma forte tradição de estudos tendo como marco o estado-nação, com trabalhos nos arquivos nacionais. Para muitos dos defensores da ideia de circulação, a história das ciências vai transcender os estados nacionais. É algo que se coloca junto à ideia de globalização: os estados nacionais já não apareceriam como importantes. É verdade que algo assim acontece, que há circulação transnacional. Pesquisas mostram, por exemplo, que as epidemias afetam países de diferentes continentes, mas também que os estudos sobre elas são feitos em diferentes continentes. Para nós, porém, o marco nacional, e também o marco regional latino-americano, ainda é importante. Pode-se ver que a circulação de países de língua espanhola é mais intensa com a Espanha, e, no caso do Brasil, com Portugal, por exemplo. Menciono isso porque muitas pessoas acham que o estado nacional já é algo antigo, ou que as regiões – algo a que se deu ênfase no período da Guerra Fria – já não devem estar tão presentes. Muitos historiadores brasileiros, inclusive, põem em dúvida se o Brasil é parte da América Latina. Acho que a dimensão nacional e a regional têm de ser levadas em consideração nesses estudos de circulação.

Quais são os principais desafios dos historiadores das ciências na América Latina?

Cueto: Vários historiadores da América Latina estão participando desses estudos de circulação transnacional e de história global da ciência, mas um dos problemas que enfrentamos é o idioma. A maioria dos artigos e livros sobre história global e sobre circulação transnacional do conhecimento é publicada em inglês, a língua franca da história e das ciências, em francês ou alemão. Muitos de nós conseguimos ler esses trabalhos, mas é mais difícil para historiadores latino-americanos escrever em inglês e enviar seus trabalhos a boas revistas internacionais. Quando enviam, às vezes precisam de quatro pareceristas, porque os editores de revistas estrangeiras desconfiam ao receber manuscritos de um país de renda média ou em desenvolvimento.

Como se pode enfrentar essa questão?

Cueto: Temos o problema de que, quando treinamos historiadores, o que pedimos é que leiam inglês, não que escrevam e pensem no idioma. Os fundos que temos para tradução são limitados. Esse é um problema, mas também pode ser uma oportunidade no sentido de que poderiam se formar mais redes entre historiadores de diferentes nacionalidades, com diferentes habilidades de língua e que trabalhem em diferentes arquivos do mundo, para escrever artigos sobre história transnacional. Temos que pensar em como resolver esse problema de idioma. Vamos experimentar nos próximos anos uma maior crise econômica, e a história transnacional exige viagens aos acervos de outros países. Muitos professores brasileiros, no passado, iam trabalhar um tempo nos arquivos de outros países, mas isso pode ser um limitador no futuro. Portanto, fazer associação com historiadores de outros países para complementar informação de diferentes acervos também pode ser uma saída.


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