Ir para o conteúdo

Trabalho de Anthony Leeds representou marco para as ciências sociais brasileiras

09/10/2015

Quando Anthony Leeds se estabeleceu no Rio de Janeiro na década de 1960, o Brasil já não era um país desconhecido para o antropólogo norte-americano. No entanto, foi a partir de sua estada na capital fluminense, quando deu início a estudos urbanos precursores e ministrou um curso de antropologia no Museu Nacional, que o autor de uma tese de doutorado sobre a sociedade cacaueira da Bahia imprimiu sua marca nas ciências sociais brasileiras.

Leia mais:
Exposição aborda as favelas cariocas a partir do acervo fotográfico de Anthony Leeds
COC recebe acervo fotográfico do antropólogo Anthony Leeds
Fiocruz aprova projetos na Faperj que celebram os 450 anos do Rio de Janeiro

“Ele representou mesmo essa virada da nossa antropologia e de uma nova visão do que é fazer ciências sociais”, sintetizou a antropóloga Yvonne Maggie, durante o seminário O Rio que se Queria Negar: as Favelas no Acervo do Antropólogo Anthony Leeds, promovido pela Fiocruz, em 22 e 23 de setembro em parceria com o Ministério da Cultura e o Museu da República. O evento se insere nas comemorações dos 450 anos da fundação do Rio de Janeiro e marca o cinquentenário do início das pesquisas de Leeds nas favelas cariocas.

O seminário coroa um projeto que começou com a doação de 770 fotos do acervo de Anthony Leeds à Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) pela viúva de Anthony, Elizabeth Leeds. O casal se conheceu no Rio na época em que Elizabeth veio à cidade como voluntária da organização norte-americana Peace Corps. A partir de então, os dois trabalharam conjuntamente em suas pesquisas. Parte das imagens doadas por ela compõem uma mostra, em cartaz no Museu da República, até 10 de janeiro de 2016, e também ilustram a segunda edição do clássico A Sociologia do Brasil Urbano, de autoria do casal, publicado agora pela Editora Fiocruz.

“Tony [Anthony] sempre usou fotografia nas pesquisas dele, mas foi só a partir dos anos 70 e 80 que ele começou a refletir, escrever e ensinar sobre fotografia e antropologia”, disse Elizabeth Leeds, ao classificar a doação do acervo à Fiocruz como uma “parceria muito feliz”. “Espero que vocês vejam as fotos com a sensibilidade com que elas foram tiradas”, declarou durante o evento a cientista política, presidente de honra do Fórum de Segurança Pública.

Diálogo com pesquisadores brasileiros marcou trajetória de Anthony Leeds

A determinação em estabelecer diálogo com pesquisadores locais foi uma das características de Anthony Leeds destacadas por pesquisadores que conviveram com o antropólogo, reunidos na primeira mesa do evento, coordenada pela vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação da Fiocruz, a socióloga Nísia Trindade Lima.

Além de Yvonne Maggie e Elizabeth Leeds, participaram da mesa Lícia Valladares, professora da Universidade de Lille (França) e pesquisadora visitante da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), José Arthur Rios, colaborador do Conselho Técnico Nacional do Comércio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), e Luis Antônio de Castro Santos, professor visitante sênior da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).

“Anthony Leeds foi sempre, para mim, uma referência daqueles brasilianistas que respeitavam as tradições intelectuais nativas. Uma das dificuldades maiores para entendermos o nosso contato como periferia diante das matrizes intelectuais europeia e norte americana é superarmos a subalternidade”, afirmou Castro Santos. “O Leeds é um exemplo fantástico de alguém que dialogava conosco, nos levava em conta, não numa citação puramente ritualística, mas de fato na construção do pensamento dele”, completou.

Castro Santos conheceu os Leeds em Cambridge, no estado norte-americano de Massachusetts, durante um dos frequentes encontros informais entre professores, pesquisadores e estudantes de pós-graduação. “Lembro-me de perguntar [a Anthony e Elizabeth]: ‘O que que vocês fazem?’. Eu sabia quem era Anthony Leeds, mas não sabia que aquele personagem ao lado do piano era o Anthony Leeds”, relatou. O casal teria respondido, segundo Castro Santos: “Nós somos antropólogos, mas não de índios; nós somos antropólogos da vida urbana”.

Ao estudar as favelas, Anthony Leeds fez ponte entre o local e o universal

A observação aguda e a capacidade de lidar com um manancial de dados e informações foi outra marca de Anthony Leeds, apontada por Castro Santos. Segundo ele, o antropólogo norte-americano buscava estudar situações específicas com vistas a traçar formulações mais gerais. “Sugiro que passemos a não falar apenas do Leeds como uma figura que entendeu de favelas, mas como um antropólogo que entendeu o Brasil, que superou as suas visões específicas. Ele não era um brasilianista focado num tema específico. Ele fazia do ponto específico uma ponte para o universal”, avaliou.

Apesar de centrar seus estudos em uma série de favelas cariocas, entre as quais o Tuiuti e o Jacarezinho, onde morou, Leeds buscou ampliar seu trabalho ao lançar mão do recurso a uma perspectiva comparativa, pouco utilizada na época. Ele recorreu, por exemplo, ao diálogo acadêmico com estudiosos de outros países latino-americanos, apontou a pesquisadora Lícia Valladares. “Leeds não se interessou pelo Rio de Janeiro em si [...]. Seu interesse era propor generalizações, uma explicação global, e não se limitar a estudos de caso tomados isoladamente”, disse.

Leeds foi introduzido no universo das favelas cariocas por José Arthur Rios, então diretor da Sociedade para Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais (Sagmacs), instituição de estudos e pesquisas com foco no planejamento urbano e regional e no desenvolvimento econômico e social. De acordo com Rios, entre as questões que inquietavam Leeds na época em que o conheceu estavam as barreiras e os obstáculos à ascensão social no chamado terceiro mundo.

“Percebíamos que os obstáculos estavam nos anos 1930, e eram primeiramente o latifúndio, que persistia [...], e, em segundo lugar, [...] aquilo que ele percebeu nitidamente na sociedade cacaueira e viria depois macroscopicamente na sociedade brasileira: a estrutura de poder oligárquico”, disse sobre o antropólogo norte-americano, que captou diversos aspectos da vida nacional e descreveu fenômenos como a “panelinha”, análise contida no artigo Brazilian careers and social structure: a case history and model.

Foi depois de escrever esse artigo, apresentado em 16 de outubro de 1962 na Sociedade Antropológica de Washington, que Leeds ficou conhecido no meio acadêmico dos Estados Unidos, apontou Lícia Valladares. No Brasil, a partir de seu contato com a realidade carioca, o antropólogo se interessa pela questão das favelas.

Para Anthony Leeds, favelas não são comunidades

Em sua temporada no Rio, o antropólogo interessou-se por diferentes questões ligadas às favelas, entre as quais, as crianças que nelas habitavam, o futuro dessas localidades, a sua formação, sua heterogeneidade, a presença de equipamentos urbanos e a importância do comércio, explicou Lícia Valladares. Temas que se tornaram incontornáveis de 1980 em diante, a violência e o tráfico de drogas não estavam presentes quando Leeds estudou favelas, portanto não se configuraram como temas prioritários da sociologia urbana naquela época.

Lícia questionou-se, em sua apresentação, sobre o que diria Leeds a respeito dos programas levados a cabo hoje pelo poder público nas favelas. “Eu me arrisco a dizer que Anthony Leeds não parece responder à preocupação dos atuais governantes, que privilegiam o estudo de certas favelas em detrimento de outras, como as do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] por exemplo. Seriam 14 o universo de beneficiadas num universo de mil favelas na cidade do Rio de Janeiro. Por que as favelas do PAC são as beneficiadas e não outras? Acho que Anthony Leeds também se faria essa pergunta. Ele não se enquadraria no PAC e certamente não estaria apoiando o programa Minha Casa, Minha Vida”, avaliou.

Tão replicado hoje por veículos de comunicação, órgãos do governo e outras organizações da sociedade, o termo “comunidade” não era utilizado por Leeds. Na avaliação dele, esse conceito, como definido pela antropologia clássica, não era adequado para caracterizar a vida nas favelas, apontou Lícia. As favelas, observara Leeds, não correspondiam às características usadas pelo antropólogo Robert Redfield ao definir comunidade: união entre os moradores, predominância de relações face a face, nem primazia de relações de troca em oposição a uma economia capitalista baseada no dinheiro. Para Leeds, favela não era uma comunidade, e sim uma localidade. “Favela é simplesmente um qualificativo de lugar. Leeds sabia que não havia união entre todos os moradores de uma mesma favela”, disse Lícia.

Anthony Leeds foi precursor da antropologia urbana no Brasil

A criação do curso de pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional no fim dos anos 1960, no qual Anthony Leeds ministrou seu curso, foi uma espécie de alento para uma geração de cientistas sociais que se via sufocada pelo regime militar. Entre os alunos, estavam o casal de antropólogos Yvonne Maggie e Gilberto Velho. “Minha geração foi salva pela existência desse programa do Museu Nacional. Nós estávamos ali para repensar o Brasil e não para pegar em armas”, afirmou Yvonne durante o seminário.

A ênfase dada por Leeds à importância da realização de trabalhos de campo foi um dos seus principais legados às ciências sociais brasileiras, na avaliação de Yvonne. Foi no curso ministrado pelo antropólogo que Gilberto Velho e ela realizaram seu trabalho etnográfico O Barata Ribeiro 200, em um prédio de apartamentos conjugados no bairro carioca de Copacabana. O estudo deu origem à tese de mestrado de Velho e, mais tarde, ao livro A Utopia Urbana, obra de referência das ciências sociais brasileiras.

Yvonne destacou ainda o recurso à antropologia visual como outra marca da trajetória de Leeds. “A partir das suas fotos, ele nos mostrava com uma espécie de orgulho e encantamento como se podia descrever também através das imagens.  Isso, na época, apesar de o [antropólogo Bronisław] Malinowski ter feito muitas fotos, não era uma tradição. O Tony teve uma importância enorme na antropologia brasileira, a quem nós brasileiros devemos muito”, declarou.

No encerramento da mesa, Nísia Trindade Lima defendeu que é preciso ter “orgulho das ciências sociais construídas no Brasil, que tiveram em Anthony Leeds uma figura de muita importância. Mesmo que isso não seja visível para as novas gerações, ele marcou as nossas leituras. É uma tradição que deve ser sempre revigorada e celebrada”


Compartilhe

Facebook Twitter Google Plus E-mail Imprimir

Compartilhe

Facebook Twitter Google Plus E-mail Imprimir