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A pandemia de Covid-19: história, política e biologia

04/05/2020

Ricardo Waizbort*

Stop.
A vida parou.
Ou foi a Covid-19? [1]

Em meio à aterrorizante pandemia de Covid-19, meios de comunicação nos lembram que outras populações humanas, ao longo da história, também estiveram sujeitas a agentes infecciosos que dizimaram uma imensidão quase incalculável de vidas. Um dos casos frequentemente citados é o das epidemias que ceifaram dezenas de milhões de pessoas durante o primeiro século após a chamada conquista espanhola das Américas.

  

Há muitas diferenças, todavia, entre esses dois eventos, para além da distância no tempo: as doenças que mataram os ameríndios a partir da chegada de Colombo eram seletivas, ou seja, matavam os nativos e preservavam os europeus; não se tratou de uma doença só, mas de várias: varíola, sarampo, peste bubônica, influenza, tifo, difteria, febre escarlate entre outras; naquela ocasião as doenças foram transportadas por navios que levavam semanas para chegar aos seus destinos e, agora, basicamente, por velozes aeronaves que transportam pessoas e cargas de um lado ao outro do mundo em questão de horas, ou no máximo de poucos dias; também não havia conhecimento médico então para identificar os agentes envolvidos na hecatombe e consequentemente também não havia tal velocidade no tráfego de informações para facilitar troca de experiências bem e mal sucedidas em relação ao tratamento das enfermidades. Na realidade, com algumas exceções, os espanhóis pouco se importavam com a mortandade; essa lhes favoreceu até certo ponto.

Há uma semelhança alarmante entre eventos do passado e os que acontecem agora: o modo como muitas pessoas, aqui incluindo alguns políticos, encaram a causa ou causas da impressionante mortandade

Todavia, para além de todas as diferenças há uma semelhança alarmante entre tais eventos do passado e os que acontecem agora: o modo como muitas pessoas, aqui incluindo alguns políticos, encaram a causa ou causas da impressionante mortandade. O colapso populacional que afetou os habitantes das Américas de fins do século 15 e ao longo do 16 foi atribuído, ao longo da história, à violência dos espanhóis, às suas armas de fogo, ao seu poder militar, e a uma suposta superioridade intelectual e religiosa.

Em meados do século 20, entretanto, estudiosos da demografia ameríndia e colonial perceberam que nenhuma dessas causas, mesmo associadas, poderiam dar conta da hecatombe populacional dos ameríndios, que no caso de algumas populações chegou a ser de 90%. Algumas estimativas, talvez um tanto extremadas, apontam para mais de cem milhões de mortes.

Foi então que alguns autores atentaram para as doenças epidêmicas. Essa ideia estava apoiada em variados registros históricos (relatos de cronistas, pinturas e desenhos) tanto dos europeus, quanto de Astecas, Incas e Maias, entre outras culturas ameríndias. Então, durante algum tempo pareceu consensual que a causa fundamental das mortes teria sido as doenças trazidas inadvertidamente pelos europeus.

Essa ideia foi batizada na década de 1970 como epidemia em solo virgem (virgin soil epidemics), independentemente por Alfred Crosby (1976) e William McNeill (1976). Ela se baseava na concepção de que os europeus teriam uma imunidade inata e adquirida às doenças que transmitiam, e que tal defesa faltava aos ameríndios que estavam entrando em contato com elas pela primeira vez. No momento atual a humanidade sofre com a Covid-19 em parte por causa da falta de imunidade das populações humanas que nunca tiveram contato com essa espécie de vírus antes, o Sars-CoV-2. Ou seja, experimentamos mais um caso de epidemia em solo virgem.

Mas essa é somente uma parte da história. Já na década de 1980, alguns historiadores e demógrafos apontavam que as doenças trazidas pelos europeus para as Américas não poderiam ser responsáveis isoladamente por tal dizimação populacional. Eles enfatizavam que fatores sociais, além dos biológicos (virulência dos agentes infecciosos, falta de imunidade dos ameríndios) contribuíram para a hecatombe. Eles postulavam que causas sociais devem ser conjugadas com as epidemias, sob o risco de naturalizarmos um desastre histórico que nada teria de necessário e inevitável. Mas o que isso tem a ver com a atual pandemia de Covid-19?

Manter-se em casa isolado é uma decisão política que relativiza o determinismo biológico embutido na ideia de que são os vírus os agentes fundamentais da doença

Em artigo de 2006, o demógrafo italiano Massimo Livi-Bacci aponta que houve outras epidemias em experências de colonização que não se traduziram em tragédia populacional, como o caso de cerca de trinta missões jesuíticas no Paraguai que tutelaram, por motivos diversos, o povo Guarani (Livi-Bacci, 2006). Linda Nash (2014) também recusa a ideia de que as epidemias possam sozinhas explicar tamanho colapso populacional. Esses autores defendem que uma explicação para o fenômeno da hecatombe populacional não pode atribuir apenas às doenças esse resultado desastroso, embora sem elas não seja possível compreendê-lo. A explicação epidemiológica oculta uma forma de compreender as epidemias que ignora as circunstâncias ecológicas e sociais específicas que, no mínimo, pavimentaram o caminho da destruição demográfica.

Mesmo antes, em 2003, outro pesquisador, David S. Jones, inclusive referido por Nash, publicou o artigo Virgin Soil Revisited, no qual discutia os limites da hipótese Crosby-McNeill, de pontos de vista biológico (imunológico), demográfico, sociológico e político. Impossível sintetizar a riqueza crítica do texto de Jones. Segundo Jones, um livro como, por exemplo, Armas, germes e aço, de Jared Diamond, subestima as causas sociais e políticas, quando, por exemplo afirma que os índios americanos não tinham resistência imunológica nem genética a doenças, e que essa ausência teria sido a causa do trágico colapso demográfico:

"Isso não faz sentido. Índios, como todos os seres humanos - e todos os vertebrados – possuem elaborados sistemas imunológicos e podem montar poderosas defesas contra vírus, bactérias, fungos e parasitas, mesmo em uma primeira exposição. Ninguém é imunologicamente indefeso. Haveria alguma coisa que deixaria o sistema imunológico ameríndio mais sutilmente deficiente? Muitas afirmações de “não imunidade” dependem da alegação de que o isolamento ameríndio das doenças, que os deixaram livres no paraíso das Américas, enfraqueceu seu sistema imunológico. Mas os arqueólogos já mostraram que muitas doenças existiam nas Américas antes dos europeus chegarem, incluindo tuberculose, treponematose, pneumonia, osteomielite, febre tifóide, shigella, salmonela, leishmaniose, doença de Chagas, toxoplasmose, amebíase, giardíase, tinha, blastomicose e infestações com vermes, lombrigas e ancilostomídeos. Os sistemas imunológicos dos ameríndios tinham tido exercício pleno" (Jones, 2003, p. 10,).

Não é a imunidade natural ou adquirida que determinará sozinha o tamanho da catástrofe que nos aflige, pois tal resultado depende das decisões de enfrentamento que tomamos

Note-se que Jones enfatiza a diferença entre imunidade genética (inata) e imunidade adquirida (adaptativa), assim como entre resposta imune celular e humoral, que precisariam ser melhor conhecidas e qualificadas para poder dar sustentação à hipótese da epidemia em solo virgem. Jones argumenta que estudos atuais não corroboraram a hipótese de que povos nativos sejam particularmente mais suscetíveis a novas doenças. Todavia, a questão central de Jones não é meramente imunológica, mas sociológica e política. Segundo ele, Crosby já havia atentado para isso, recuando da própria hipótese que contribuiu para criar: “Crosby, depois de considerar o mecanismo do solo virgem, concluiu que as altas taxas de mortalidade refletiam as terríveis condições de vida dos ameríndios, e não uma inerente falta de imunidade inata ou adaptativa” (Jones, 2003, p. 11).

Jones articula um argumento que a meu ver parece fatal para hipótese da epidemia em solo virgem como explicação fundamental do declínio demográfico dos ameríndios. Ele defende de forma aguda que as narrativas que contamos sobre o passado têm consequências sobre como lidamos com epidemias hoje. Tais narrativas modelam nosso pensamento sobre as iniquidades de saúde para os ameríndios e também para outras populações humanas hoje, sobretudo as socialmente mais vulneráveis: “bem poderia ser que as epidemias entre os índios americanos, apesar de sua severidade incomum, tenham sido causadas pelas mesmas forças da pobreza, desnutrição, estresse social, deslocamento, desigualdade econômica e vulnerabilidade ambiental que favoreceram epidemias em todos os outros tempos e lugares” (Jones, 2003, p. 11).

Jones não está questionando a importância das doenças epidêmicas, nem a existência de mecanismos genéticos e imunológicos de resistência e suscetibilidade a doenças. O que está em questão é a contribuição relativa das causas genético-imunológicas de um lado e das causas sociopolíticas do outro. E desse ponto de vista, ele critica a hipótese da epidemia em solo virgem por desconsiderar a interação social entre os ameríndios nativos e os espanhóis. Para Jones, o colapso demográfico de populações extintas não é apenas matéria acadêmica para historiadores e demógrafos. Para ele, nossa interpretação do que ocasionou esse desastre influencia a forma como interpretamos a importância das epidemias hoje, entre ameríndios e outras populações socialmente fragilizadas.

Ao considerar as epidemias como a causa única ou a mais importante da estrondosa ruína dessas populações no passado, tendemos a fazer o mesmo para as populações atuais, não só entendendo as consequências das epidemias como uma fatalidade, via um determinismo imunológico cientificamente discutível, materializado pela hipótese da epidemia em solo virgem, mas também nos eximindo de procurar soluções sociais e políticas, ou seja, buscar mudanças em fatores socioambientais que são relevantes para situações muitas vezes indigentes de populações humanas.

No passado distante, não havia conhecimento científico e direitos humanos, saberes uma tanto desprezados nessas quadras por aqui, em nome de uma saúde financeira e de interesses ideológicos que não existem sem a vida humana

Para além da enorme mortandade, são essas questões sociais e políticas que aproximam os dois eventos separados pelo largo lapso de séculos. Pois se resumimos a causa das mortes da pandemia atual a uma questão biológica/imunológica deixamos de atentar que nossas decisões políticas têm consequências sociais tão dramáticas quanto à própria ação certamente devastadora dos vírus. Talvez a estratégia do isolamento social seja o ponto nevrálgico dessa questão. É claro que política e economicamente, tal decisão tem um impacto tremendo na vida das pessoas, sobretudo das pessoas mais desprotegidas, mais pobres.

Entretanto, como a transmissão do vírus depende de contato, proximidade ou contaminação de superfícies, desprezar ou diminuir a importância do isolamento, principalmente quando as curvas epidêmicas apontam uma escalada no número de mortes, pode representar a diferença entre a vida e a morte de muitos milhares pessoas, tendo em conta o limitado número de leitos disponíveis para os afetados pelas formas mais graves da enfermidade. Portanto, manter-se em casa isolado é uma decisão política que relativiza o determinismo biológico embutido na ideia de que são os vírus os agentes fundamentais da doença. Ou seja, disseminar a ideia de que a doença vai matar muitas e muitas pessoas, independente do isolamento, é muito problemática. Negar o isolamento é proporcionar às numerosíssimas populações virais oportunidades de transmissão além de contribuir para comprometer as estratégias de enfrentamento dos sistemas de saúde, despreparados para um fenômeno de uma magnitude impensável pouco meses atrás.

Assim, os que responsabilizam apenas agentes etiológicos pelo desastre que ora nos devasta, sem indicar a grande importância das condições sociais, também contribuem para um perigoso estreitamento na interpretação do fenômeno e nas estratégias políticas para enfrentá-lo. Livi Bacci salienta que “a catástrofe [dos ameríndios] (...) não foi um destino obrigatório, antes efeito da interação entre fatores naturais e comportamentos humanos e sociais, cujo resultado não estava determinado à partida” (Livi-Bacci, 2007, p. 237).

Assim, não é a imunidade natural ou adquirida que determinará sozinha o tamanho da catástrofe que nos aflige, pois tal resultado depende das decisões de enfrentamento que tomamos. Oxalá nossos políticos se tornem logo mais responsáveis em suas decisões, ou terão que lidar certamente com uma multidão de cadáveres comparável ao que resultou da conquista espanhola. Com a diferença importantíssima de que no passado distante não havia conhecimento científico e direitos humanos, saberes uma tanto desprezados nessas quadras por aqui, em nome de uma saúde financeira e de interesses ideológicos que não existem sem a vida humana.

Ricardo Waizbort é biólogo, especialista em Genética (UFRJ), professor do mestrado em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz); pesquisador titular do Laboratório de Avaliação em Ensino e Filosofia das Biociências (LAEFiB) e professor do Programa de Pós-Graduação em Ensino em Biociências e Saúde (PPG-EBS) do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz)

Para conhecer mais:

CROSBY, Alfred W. Virgin soil epidemics as a factor in the aboriginal depopulation in America. The William and Mary Quarterly, Virginia, v. 33, n. 2, p. 289-299, 1976. DOI: https://doi.org/10.2307/1922166.

LIVI-BACCI, Massimo. Las múltiples causas de la catástrofe: consideraciones teóricas y empíricas. Revista de Indias, Madrid, v. 63, n. 227, p. 31-48, 2003.

LIVI-BACCI, Massimo. The depopulation of Hispanic America after the Conquest. Population and Development Review, Hoboken, v.32, n. 2, p. 199-232, 2006. DOI: https://doi.org/10.3989/revindias.2003.i227.550

LIVI-BACCI, Massimo. Conquista: a destruição dos índios americanos. Lisboa: Edições 70, 2007.

JONES, David S. Population, health, and public welfare. In: HOXIE, Frederick E. The Oxford Handbook of American Indian History. Oxford: Oxford University Press, 2016. p. 413-435. DOI: 10.1093/oxfordhb/9780199858897.013.28

JONES, David S. Virgin soils revisited. The William and Mary Quarterly, Virginia, v. 60, n. 4, p. 703-742, Oct. 2003. DOI: https://doi.org/10.2307/3491697.

McNEILL, William H. Plagues and peoples. New York: Anchor, 1976.

NASH, Linda. Beyond virgin soils: disease as environmental history. In: ISENBERG, Andrew C. (ed.).The Oxford handbook of environmental history. Oxford: Oxford University Press, 2014. p. 76-107. DOI: 10.1093/oxfordhb/9780195324907.013.0003

WAIZBORT, Ricardo F.; Porto, Filipe. Epidemias e colapso demográfico no México e nos Andes do século XVI: contribuições da biologia evolutiva. Hist. cienc. saude-Manguinhos, vol.25, no.2, p.391-407, 2018 DOI: https://doi.org/10.1590/s0104-59702018000200006

WAIZBORT, Ricardo F. O debate inesgotável: causas sociais e biológicas do colapso demográfico de populações ameríndias no século XVI. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. Hum. vol.14, no.3, 2019 DOI: https://doi.org/10.1590/1981.81222019000300012

[1] Paródia pessoal do poema de Carlos Drummond de Andrade: Stop. A vida parou. Ou foi o automóvel?


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