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Política de ‘embranquecimento’ combateu médicas-sacerdotisas em Moçambique, diz historiadora

10/10/2019

No contexto dos conflitos recorrentes durante os processos de colonização e independência de Moçambique, as mulheres foram protagonistas na manutenção de associações religiosas e na legitimidade de seus serviços. Essas lideranças e suas práticas resistiram à repressão do Estado colonial, cujas punições incluíam o encarceramento. É o que revelam estudos conduzidos pela historiadora Jacimara Souza Santana, da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), autora do livro Médicas-sacerdotisas. Religiosidades ancestrais e contestação ao sul de Moçambique (c. 1927-1988), lançado em 2018 pela Editora Unicamp.

Com uma visão holística da enfermidade, a perspectiva médica tinyanga rompe com a visão cartesiana que separa corpo e mente.

Convidada do último Encontro às Quintas, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), Jacimara explicou que a liderança religiosa exercida pelas mulheres foi resultado da visão de trabalho do sistema colonial da época. “Essa posição de destaque, ao ocupar espaços religiosos e defender a guarda do conhecimento, é fruto da migração dos homens para atuar nas minas na África do Sul e em outros países do continente africano, imposição do domínio português”, comentou.
Jacimara destacou que as lideranças religiosas – conhecidas como tinyangas (no plural) e nyanga (no singular) e chamadas por ela de médicas-sacerdotisas – pautam sua atuação pela busca da cura e do bem-estar do povo. Elas realizam, ainda, adivinhações que buscam proteger as pessoas contra forças nocivas da natureza.

“Esses líderes sagrados possuem conhecimento de fitoterapia, são capazes de fazer a comunicação entre o mundo dos vivos e dos mortos, além de apresentar visões de fatos do passado ou futuro”, explicou Jacimara, que dialogou com membros da Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique (Ametramo) e com habitantes da capital Maputo e da província de Gaza.

“Entre os motivos que a levaram a adotar a nomenclatura “médicas-sacerdotisas”, está a predominância numérica de mulheres exercendo a autoridade religiosa no sul de Moçambique”, esclarece a pesquisadora.

Perspectiva tinyanga sobre doença rompe com separação entre corpo e mente

De acordo com Jacimara, a assistência prestada pelas médicas-sacerdotisas – tinyanga – tem uma lógica diferente da adotada pelo Estado colonial português. Na concepção africana de doença, além das questões fisiológicas, é preciso levar em consideração a má relação entre as pessoas, provocada pelos seus antepassados, e as ações resultantes de inveja ou vingança.

“Essa ideia também é muito comum na cultura brasileira, em especial na Bahia, e relaciona a doença ao mau-olhado e à habilidade das pessoas, convencionalmente consideradas negativas, em minar a energia dos outros, resultando em enfermidades, mortes, desavença na família e situações de sofrimentos”, destacou.

Nas práticas das médicas-sacerdotisas, o tratamento inclui dois componentes: um que repassa a relação com o antepassado, por um lado, e outro relacionado a cuidar dos sintomas, que são vistos como um sinal de alerta. “Com uma visão holística da enfermidade, a perspectiva médica tinyanga rompe com a visão cartesiana que separa corpo e mente, corpo e espírito, e concebe uma relação entre a pessoa e a natureza, e as ações de um mundo material visível e o mundo invisível”, pontuou Jacimara.

Refletindo sobre a inserção da assistência à saúde no período colonial, Jacimara Souza Santana revelou que a introdução do modelo europeu em Moçambique gerou conflito com os conhecimentos locais de promoção da saúde. “Essa experiência foi estruturada em detrimento dos médicos e médicas-sacerdotisas, dos tinyanga que já atuavam ali”, disse.

No contexto da colonização, segundo a pesquisadora, os portugueses tentavam impor aos africanos o modelo de medicina que defendia o conhecimento médico como o único legítimo e moderno, comprovado em experiências científicas realizadas em centros de saúde.

“Essa concepção categorizou as práticas africanas como inferiores, primitivas, ilegais e nocivas à saúde das pessoas, o que levou muitos tinyanga a serem punidos com prisão, confisco dos seus pertences religiosos e castigos corporais, caso fossem pegos em flagrantes sem licença para o exercício de suas funções”, complementou.

Estado colonial tentou racializar e categorizar a sociedade moçambicana

A estratégia portuguesa em Moçambique também envolvia associar os africanos ao anti-higienismo. Essa forma de controle da presença da população local nos espaços urbanos se expressava na sua segregação em bairros afastados, que ocupavam espaços marginários nas cidades. O mesmo era observado nas zonas rurais: a colonização teve como impacto a constante relocação de famílias de terras favoráveis ao plantio para terras que não possibilitavam o desenvolvimento dessas atividades.

“Africanos que continuavam negros eram discriminados em relação aos africanos travestidos pela cultura portuguesa. Isso se expressava também na exigência de distinção no tipo de habitação e do consumo de alimentos [a eles destinados], por exemplo. Essa separação era garantida com vigilância policial”, constatou.

Segundo Jacimara, a partir de uma política de ‘embranquecimento’, a autoridade policial tentou racializar e categorizar a sociedade africana, impondo abandono da religiosidade ancestral, suas línguas, seus costumes, assistência de saúde e modo de viver. O objetivo era promover a marginalização social e o desprestígio de sua autoridade com a instalação do Estado colonial português na região.

“As pessoas que adotassem os costumes portugueses – como idioma, religião, modelo de assistência – tinham direito a moradia e emprego e um tratamento diferenciado em relação àqueles que continuavam apegados à tradição. E essa divisão chegou a ser legislada”, declarou.

No entanto, em vez de ser abandonado, como intencionavam missionários e agentes de saúde do governo colonial, o atendimento rotineiro das médicas-sacerdotisas continuava sendo procurado, muitas vezes de modo conjugado com algum tratamento nos postos sanitários e hospitais.

“Se africanos continuaram a procurar tinyanga, apesar das dificuldades criadas pelo Estado colonial para tal acesso, é porque a assistência por membros desse grupo marcava o seu diferencial em relação à europeia”, constatou Jacimara.

Como estratégias para garantir a continuidade de suas práticas religiosas, as médicas-sacerdotisas adotaram o atendimento noturno, realizados em lugares distantes. “Para não deixar evidências, os objetos utilizados nos rituais eram enterrados. Ao ocupar o lugar dos homens, estas mulheres foram fundamentais tanto na garantia da permanência das associações religiosas, no sul de Moçambique, como na criação de novos grupos dentro dessas entidades, garantindo que a religiosidade ancestral fosse perpetuada”, concluiu.


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