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Encontro às Quintas: Com a participação de médicos, Inquisição perseguiu curandeiros em Portugal

2014-11-26

Curandeiros de áreas rurais e pequenas aldeias foram punidos em Portugal nos séculos 17 e 18 sob acusação de bruxaria, feitiçaria, pacto com o demônio e charlatanismo. O que teria levado a Inquisição - instituição que se mantinha com o confisco dos bens dos condenados - a perseguir essas pessoas, em geral muito pobres? Essa é uma das questões que o historiador norte-americano Timothy D. Walker, da Universidade de Massachusetts Dartmouth, aborda no livro Médicos, Medicina Popular e a Inquisição: a repressão das curas mágicas em Portugal durante o Iluminismo.

A obra, cuja tradução para o português foi lançada pela editora Fiocruz em parceria com a editora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, foi o tema da palestra proferida pelo pesquisador no último Encontro às Quintas de 2014, promovido pela Casa de Oswaldo Cruz. Para Walker, parte da explicação para a perseguição aos curandeiros está na atuação de médicos também como funcionários da Inquisição.

“Eles manipulavam a Inquisição para reprimir os curandeiros”, declarou o palestrante sobre o conflito entre os médicos e aqueles que praticavam uma medicina popular. “Sem as denúncias dos médicos e cirurgiões, a Inquisição nunca iria atacar curandeiros, pois eles eram pobres [...] A Inquisição vivia do confisco dos bens das pessoas condenadas e não ganharia nada em termos financeiros atacando alguém tão pobre”, explicou.

De acordo com o historiador, os médicos atuavam como familiares da Inquisição, pessoas que vigiavam a população e denunciavam quem agia de forma pouco ortodoxa. Ao desempenhar essa função, gozavam de vantagens: eram isentos de impostos e desobrigados de abrigar soldados em suas casas, uma prática da época. “Ser familiar da Inquisição para essa nova classe de letrados funcionou também como um sistema de networking para conhecer outros médicos e pessoas de classe média”, acrescentou Walker.

Interior de Portugal enfrentava falta de médicos

Naquele período, buscar tratamento em um curandeiro era comum entre a população pobre do interior de Portugal. O contingente de 10 a 12 médicos formados por ano na faculdade de medicina da Universidade de Coimbra, a única do país, não era suficiente para atender a toda a população. A maior parte dos egressos preferia ficar nas grandes cidades, como Lisboa e Porto, ou ia para o Brasil ou a Índica em busca de sucesso profissional.

“A visão popular do médico e do cirurgião não era muito boa. Eles eram vistos como alguém que causava dor e eram caros. A maneira dos curandeiros [atuarem] era muito mais suave”, disse o pesquisador. A população preferia, portanto, recorrer a curandeiros e saludadores. Os primeiros utilizavam substâncias, plantas, ossos, pedras, além de encantos e rezas para curar. Já a segunda categoria, acreditava-se, podia recuperar as pessoas com o simples toque das mãos. “Em termos teológicos, [o saludador] era uma ameaça muito maior à igreja”, afirmou o historiador.

Além de denunciar quem praticava a medicina popular, os médicos desempenhavam outras atividades na Inquisição. Era deles a incumbência de tratar os prisioneiros e atender as sessões de tortura. O objetivo era garantir que, diante dos maus tratos, os acusados se mantivessem lúcidos. “Eles tinham de verificar se a tortura não estava afetando a capacidade do prisioneiro de dar informações confiáveis”, explicou Walker.

Curandeiros condenados eram exilados

A pena dada a maior parte dos curandeiros condenados era o exílio em outra cidade portuguesa. Quem reincidisse, era enviado para destinos fora do país, como Brasil ou Angola. Essas pessoas também podiam ser mandadas para a prisão ou tinham de se submeter a trabalho forçado. Segundo Walker, a pena de morte raramente era aplicada nesses casos.  “Depois da condenação, havia o ato de fé, com humilhação pública. O condenado tinha de sair na frente de todas as pessoas pedindo desculpas, pois havia feito algo contra Deus e contra a sociedade”, declarou. A punição incluía vestir roupas com ilustrações que explicavam o crime cometido e a pena à população analfabeta da época. Tudo isso visava evitar a reincidência.

Motivados por questões teológicas e profissionais, o ataque aos curandeiros também teve influência das ideias racionais vindas de fora de Portugal. Num período em que a Inquisição barrava a entrada de livros científicos do Norte da Europa, os médicos portugueses conseguiam manter-se a par com as novas ideias no campo da medicina por meio da troca de cartas com colegas expatriados, cristãos novos que migraram para outros países, pois estavam proibidos de atuar em Portugal. O combate aos curandeiros era, para esses profissionais, uma forma de combater práticas de cura medievais.

A investida da Inquisição contra os curandeiros não conseguiu, no entanto, acabar com a sua existência em Portugal, afirmou Walker. “Nessa disputa, os curandeiros ganharam. A Inquisição nunca conseguiu fazê-los parar com suas práticas. No fim do século 18, curandeiros tratavam livremente pessoas vindas de diversas classes sociais”, declarou.


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