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Saúde pública, cidadania e democracia: COC lembra o legado de Hesio Cordeiro

2020-11-12

Imagem extraída do Fundo Hesio Cordeiro
sob a guarda da Casa de Oswaldo Cruz

 

 O médico, sanitarista, pesquisador e professor Hesio de Albuquerque Cordeiro marcou profundamente a história da saúde pública moderna no Brasil. Morto no dia 8 de novembro de 2020, aos 78 anos, Hesio foi um dos principais articuladores e criadores do Sistema Único de Saúde (SUS), lançando as bases para a reforma sanitária brasileira e contribuindo para a conformação acadêmica da Saúde Coletiva no País. Mineiro de Juiz de Fora, formou-se médico em 1965 na Faculdade de Ciências Médicas, na Universidade do Estado da Guanabara (UEG), atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde brotaram as primeiras inquietações com a prática médica dominante fundamentada em um sistema de saúde excludente e despreparado para lidar com as necessidades da população brasileira. 

Hesio foi um grande intelectual, pensando o complexo industrial da saúde e várias questões associadas à percepção da seguridade social como um direito de cidadania

Nos anos 1970, estabeleceu o Instituto de Medicina Social (IMS), pioneiro no Brasil e na região da América, e foi um dos criadores da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco), da qual foi um de seus primeiros presidentes. Quando presidente do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps), em meados da década de 1980, Hesio foi uma das sustentações políticas e institucionais mais relevantes para o projeto de criação da Casa de Oswaldo Cruz (COC) como iniciativa inovadora da Fiocruz dedicada à história e memória da saúde e das ciências. Com sua sensibilidade e parceria, foi possível dar início a projetos essenciais aos percursos inaugurais da Casa na investigação histórica, na história oral, e na formação de acervos documentais em saúde pública e ciência. 

Entre as homenagens que recebeu ao longo de sua vida, seu protagonismo e compromisso com a  saúde pública foram reconhecidos pela Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp), em 1988, quando recebeu o título de doutor honoris causa da Ensp por suas contribuições ao movimento sanitário, que culminaram na implantação do SUS no Brasil. Hesio Cordeiro recebeu o mesmo título da Fiocruz, em 2014; no ano seguinte, foi homenageado pela Fundação com o título de Pesquisador Honorário. 

Hésio Cordeiro, primeiro à esquerda, Paulo Gadelha, ex-presidente da Fiocruz,
e Nísia Trindade, atual presidente da Fundação Oswaldo Cruz. Foto: Peter Ilicciev

Um homem de virtudes

Entre os amigos, colegas, alunos, sanitaristas e acadêmico, Hesio é lembrado não apenas pela grandeza intelectual e firmeza na liderança, mas também pela delicadeza, bondade e amabilidade. Sua capacidade de acolher diferentes opiniões e pontos de vista e de apontar novos caminhos e soluções, baseados em consenso, não somente deixa saudades, mas um legado que se reflete em cada instituição e profissional envolvidos com a saúde pública no Brasil.

A presidente da Fiocruz e ex-diretora da COC, Nísia Trindade Lima, ressaltou o papel de intelectual, além de gestor e construtor do SUS. "Hesio foi um grande intelectual, pensando o complexo industrial da saúde e várias questões associadas à percepção da seguridade social como um direito de cidadania. Sua visão ampla sobre o setor empresarial em saúde também foi fundamental no processo de reforma sanitária e nas políticas que se seguiram", explicou Nísia, acrescentando que sua "experiência como reitor da Uerj, ao convocar um congresso interno, foi também uma referência para o modelo de gestão participativo que, sob a liderança de Sérgio Arouca, a instituição desenvolveu. " 

"Por isso, a Fiocruz lamenta profundamente a perda de Hesio Cordeiro, mas afirma sua presença sempre como intelectual, gestor, cidadão exemplar, pessoas das mais amáveis e generosas que conheci", concluiu a presidente da Fiocruz. 

Hésio Cordeiro, à esquerda, e Paulo Gadelha. Foto:
Peter Ilicciev

O ex-presidente da Fundação (2009-2016) e ex-diretor da COC (1985-1997), Paulo Gadelha, destaca a firmeza e a capacidade de apontar caminhos como características do sanitarista. Coordenador da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030, Gadelha afirma: “Hesio Cordeiro era dotado de uma capacidade ímpar de articular, de uma maneira extremamente acolhedora, diversidade de opiniões, mas com firmeza e capacidade de apontar caminhos. 

"Para mim, desde o início da faculdade de medicina da Uerj, quando se constituía o Instituto de Medicina Social, a minha pós-graduação, a construção da Casa de Oswaldo Cruz, Hesio sempre foi uma figura presente, amiga e inspiradora. Uma grande saudade e muita falta ele faz nesses tempos tão difíceis que estamos atravessando", finaliza Paulo Gadelha sobre o fundador do Instituto de Medicina Social, na Uerj. 

Hesio Cordeiro era dotado de uma capacidade ímpar de articular, de uma maneira extremamente acolhedora, diversidade de opiniões

Ao recordar o antigo professor, a médica, Adriana Cavalcanti de Aguiar afirma que Hesio era um "mestre alquimista em inovação educacional". Aos 17 anos, recém-ingressada na Uerj, no início dos anos 1980, Adriana foi levada a visitar uma favela na zona Norte do Rio. "A recordação mais vívida: nossa visita à comunidade de São Carlos, no Estácio, em dia de chuva, no Rato Molhado, área de particular pobreza. Fiquei encantada com a acolhida daqueles a quem visitamos: cafezinho, bolinho... que pessoas mais amáveis, compartilhando seus quitutes com um bando de adolescentes, que em sua maioria nunca havia estado numa favela", recorda a pesquisadora do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica (Icict) e do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). 

"Foi meu debute com as ideias e práticas desse fundador do Instituto de Medicina Social (IMS), agora batizado em sua homenagem como Hesio Cordeiro", acrescenta a pesquisadora. 

Exposição realizada pela COC em 2013 apresentou a trajetória
de Hésio Cordeiro em seus múltiplos papeis. Imagem: Acervo COC

"Persuasivo, capaz de ouvir e sintetizar ideias", pontuou o médico e professor do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/Uerj) sobre Hesio Cordeiro. Para Paulo Henrique Rodrigues, "sem ele certamente a luta pelo SUS teria sido muito mais difícil, se é que teríamos o SUS", provoca. "Hesio era um comandante suave, capaz de ouvir, sintetizar as ideias de todos, e, principalmente, enxergar muito mais longe do que os demais", avalia Rodrigues. 

O médico pediatra e sanitarista Paulo Buss, coordenador geral do Centro de Relações Internacionais da Fundação Oswaldo Cruz, ex-presidente da Fiocruz (2001-2008), presidente da Federação Mundial de Saúde Pública, também chama atenção para a importância do colega. 

Sem ele certamente a luta pelo SUS teria sido muito mais difícil, se é que teríamos o SUS

"Hesio Cordeiro, Sergio Arouca e outros grandes nomes da saúde brasileira foram capazes de arquitetar um projeto consistente baseado no direito à saúde, construindo um sistema de saúde que hoje, finalmente, é reconhecido pelos brasileiros e pelo mundo em geral como um dos mais sólidos do mundo", ressalta Buss. 

Paulo Buss, ex-presidente da Fiocruz, homenageia
Hésio Cordeiro (à direita) durante entrega do título de
Pesquisador Honorário da Fiocruz. Foto: Peter Ilicciev


De acordo com o ex-presidente da Fiocruz, Hesio Cordeiro foi e continuará sendo na nossa memória um dos maiores sanitaristas brasileiros de todos os tempos: "Desde 1970, quando liderou uma equipe de jovens médicos dentro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) para criar um pioneiro Instituto de Medicina Social (IMS) no Brasil e na região da América, um projeto muito original, inclusive do ponto de vista global e mundial", conclui. 

Hesio Cordeiro, Sergio Arouca e outros grandes nomes da saúde brasileira foram capazes de arquitetar um projeto consistente baseado no direito à saúde

"Além da sua notável produção intelectual e acadêmica, seu compromisso social com o povo brasileiro, seu profundo conhecimento de saúde pública, Hesio foi um grande articulador político", declarou Luiz Antonio Santini, ex-diretor geral do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca). Na avaliação do médico e pesquisador associado ao Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz, Hesio Cordeiro tinha visão de estadista. "Sua visão de estadista contribuiu para realizar a transição entre o antigo modelo previdenciário e um sistema de saúde único e universal", disse Santini, para quem Hesio Cordeiro "era um ser humano generoso, de grande caráter e carisma." 

O coordenador da iniciativa Prospecção Estratégica do Sistema de Saúde Brasileiro ‘Brasil Saúde Amanhã’, diretor do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), José Carvalho de Noronha, destaca o pioneirismo de Cordeiro ao renovar o campo da Saúde pública e da medicina. 

"Foi pioneiro no Brasil em alargar e renovar o campo da Saúde Pública e da Medicina como fundador do Instituto de Medicina Social (IMS) na Universidade do Estado do Rio de Janeiro em 1971, inaugurando a abordagem biopsicossocial radical do processo saúde e doença, campo que será depois conhecido como Saúde Coletiva", explica o médico da Fiocruz. Um dos fundadores da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), [Hesio Cordeiro] será seu presidente de 1983 a 1985. 

A exposição fez parte das comemorações pelos 25 anos do SUS
do qual Hésio Cordeiro foi um dos principais articuladores e
criadores. Foto: Acervo COC

Segundo Noronha, Hesio participou ativamente da reconstrução democrática do Brasil, assumindo na Nova República, em 1985, a presidência do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps), maior orçamento do país na Saúde. À época, porém, atendia apenas os trabalhadores formais com carteira assinada. "Hesio rompe essa limitação e, antes mesmo da Constituição de 1988, expande esse atendimento à toda a população brasileira através da articulação com os Estados e Municípios", afirma o pesquisador. 

"Pensador ousado e comprometido com a soberania, justiça e democracia, Hesio deixa ao Brasil suas digitais no campo da Ciência, da Saúde e da Educação", finaliza José Carvalho de Noronha sobre o sanitarista. 

Pensador ousado e comprometido com a soberania, justiça e democracia, Hesio deixa ao Brasil suas digitais no campo da Ciência, da Saúde e da Educação

Leia os depoimentos na íntegra

Hesio Cordeiro: trajetória 

Hesio Cordeiro é um personagem sobre o qual muito se tem a dizer quando se trata de refletir sobre a trajetória da moderna saúde pública brasileira. O historiador e pesquisador da COC, Carlos Henrique Paiva, explica a influência do sanitarista. "Atraindo e articulando em seu entorno gerações de estudiosos e militantes pela reforma sanitária brasileira, Hesio produziu inquestionáveis contribuições à conformação, no âmbito acadêmico, da saúde coletiva brasileira. Suas contribuições igualmente se estendem ao terreno das políticas públicas, em um movimento que, na segunda metade dos anos 1980, culminaria na fundação do Sistema Único de Saúde", destaca Paiva.

A  biografia de Hésio Cordeiro se mistura com os acontecimentos da história
da saúde do movimento sanitário do Brasil em anos recentes. Foto: Acervo COC

 

A Faculdade de Ciências Médicas da antiga UEG e atual UERJ, viveu uma fase riquíssima, em que contou com a instigante convivência de Piquet Carneiro, Nina Pereira Nunes e Moisés Szklo, o que colaborou diretamente para a criação de um curso para a formação de profissionais médicos no campo da medicina social no início dos anos 1970. Nascia assim o Instituto de Medicina Social da Uerj, uma instituição que teve papel decisivo nas discussões em torno da renovação do conceito e das práticas em saúde, bem como no processo da reforma sanitária brasileira. 

A quantidade de prêmios e homenagens que recebeu ao longo de sua trajetória ajudam, apenas em parte, a aquilatar a importância do médico, professor e pesquisador Hesio Cordeiro para o Brasil

Naquele mesmo contexto, a partir de 1979, Hesio participou dos Simpósios sobre Política de Saúde da Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados, em um momento decisivo para aqueles que lutavam tanto pelo fim da ditadura, quanto pela instauração de um sistema de saúde universal e público. É também nesse cenário que Hesio assumiu a direção da Abrasco, entidade por todos conhecida, que teve papel-chave na configuração de um novo campo para a produção científica em saúde no Brasil e na luta política que culminaria no estabelecimento do atual sistema de saúde brasileiro. 

Segundo Carlos Henrique Paiva, é preciso mencionar o papel estratégico que assumiria o Inamps no contexto da reforma sanitária. "Com o apoio direto do Instituto, várias iniciativas de ensino e pesquisa foram desenvolvidas, inclusive na Fiocruz. Foi um período de produção de sinergias raras", conta o pesquisador da COC. 

Enquanto Hesio estava à frente do Inamps, promovendo algumas das mudanças decisivas que preparariam o terreno para o SUS; realizava-se, a partir de março de 1986, a VIII Conferência Nacional de Saúde. Fórum em que se consagrariam os princípios mais caros ao movimento sanitário: a saúde como direito de todos e dever do Estado; a universalização e integralidade na assistência à população; o sistema único, a descentralização e a participação social como elementos fundamentais a serem perseguidos. 

Desde então, o "incansável Hesio", nas palavras de Carlos Paiva, muito contribuiu para a criação e fortalecimento de diversas instituições e quadros da saúde pública brasileira. "A quantidade de prêmios e homenagens que recebeu ao longo de sua trajetória ajudam, apenas em parte, a aquilatar a importância do médico, professor e pesquisador Hesio Cordeiro para o Brasil. Ele deixa gerações e gerações da boa cepa de trabalhadores do SUS e da ciência brasileira", declara o historiador da Casa de Oswaldo Cruz. 


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