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Pandemia de Covid-19 destaca importância das iniciativas de divulgação tocadas por pesquisadores e estudantes

2020-10-07

Ary Miranda fala ao púlpito enquanto dois fotógrafos o fotografam

Por Karine Rodrigues

Se a comunicação entre pares é fundamental à formação das redes profissionais e à progressão na carreira, a Covid-19 ressaltou aos pesquisadores a importância de se partilhar conhecimento também fora dos círculos acadêmicos. O olhar voltado a um público mais amplo, por meio de ações de popularização da ciência, é um necessário contraponto à disseminação de notícias falsas e ao negacionismo científico e aproxima a sociedade de quem produz conhecimento nas universidades e centros de pesquisa.

Expandir a pesquisa para além do mundo acadêmico é o grande desafio. Principalmente nós, historiadores da saúde, fomos extremamente requisitados a dar ‘explicações’ sobre a situação atual

Que o digam quatro estudantes e egressos do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde e do mestrado em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde, ambos da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). No meio da pandemia, eles tocam iniciativas que buscam dar visibilidade ao trabalho que produzem como pesquisadores.

“Quando surgiram os primeiros casos da doença no Brasil, eu já estava ‘incomodada’ com o que faria para contribuir de alguma forma, dentro desse novo contexto. Afinal, sou historiadora da saúde e vivemos uma crise sanitária mundial. Estou acostumada a acompanhar esses processos através de fontes históricas, mas, vivê-los, nunca imaginei”, relata a doutora em História das Ciências Daiane Silveira Rossi, 29, veterana na comunicação em eventos acadêmicos e novata nas ações de popularização da ciência.

Daiane conta ter se sentido impelida a botar a boca no mundo e compartilhar o conhecimento adquirido durante os anos de formação, numa tentativa de compreender, historicamente, o que estamos vivendo desde que a Covid-19 surpreendeu o mundo. A partir daí, já gravou vídeos para o canal de uma amiga, participou de lives e postou textos e produções audiovisuais caseiras em suas redes sociais.

“Comunicar, expandir a pesquisa para além do mundo acadêmico é o grande desafio atual. E a pandemia deixou isso ainda mais forte, visto que, principalmente, nós, historiadores da saúde, fomos extremamente requisitados para darmos ‘explicações’ sobre a situação. Cientistas foram chamados quase que diariamente para os principais telejornais para explicar como uma doença se propaga, o que é uma pandemia, como se produz uma vacina, se já tivemos outras ocasiões semelhantes a essa, etc.”, observa ela, que, desde junho de 2019, é pesquisadora bolsista do projeto “Memória Institucional da Fiocruz”, da Casa de Oswaldo Cruz.

Interesse do público motivou ampliação do leque de conteúdo
 

Daiane Rossi
No YouTube, Daiane Rossi discute a história das mulheres na ciência. Foto: Reprodução.


Diante da repercussão dos vídeos e textos que publicou nas redes sociais, Daiane decidiu ampliar o leque temático e falar sobre seus achados na área de gênero. Além de um artigo que analisa a presença das mulheres no acervo da instituição, escrito em parceria os pesquisadores Luiz Otávio Ferreira e Nara Azevedo, ela participa da série de documentários Mulheres na Fiocruz: trajetórias, lançada em junho pela Casa de Oswaldo Cruz.

Precisamos conversar para que cada vez mais pessoas compreendam por que a ciência é importante

“Esses vídeos foram resultado de entrevistas e de pesquisa que eu e outro colega realizamos. Então, cada vez mais, fui me inteirando do universo das mulheres na ciência”, diz, contando ter participado também das pesquisas para um documentário que deve ser lançado até o fim deste ano, sobre as pioneiras no Instituto Oswaldo Cruz.

Enquanto Daiane dá os primeiros passos na popularização da ciência, Sidcley Lyra, recém-egresso do mestrado em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde da Casa de Oswaldo Cruz, é veterano. Já participou de iniciativas de iniciação científica pontuais, como o cineclube de Ciências no Instituto de Microbiologia Paulo de Góis, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e outras que permanecem ativas, como o site A Ciência Explica, lançado há três anos, uma parceria com a amiga Luiza Toledo, microbiologista e mestre em saúde pública e meio ambiente.

Lyra ingressou no mestrado focado na ação, e não na teoria, diz. Mas rapidamente se deu conta da importância do embasamento teórico para tornar a sua prática mais valiosa.

“Quando entrei no mestrado, logo de cara descobri um outro lado da divulgação científica, o acadêmico, com suas metodologias a serem aplicadas, campos de pesquisas bem definidos e muita literatura brasileira e internacional. Eu me apaixonei”, revela o graduado em Microbiologia e Imunologia pela UFRJ.

Divulgação científica busca dar autonomia para tomada de decisões

Durante a pós-graduação na Casa de Oswaldo Cruz, ele analisou três jogos de tabuleiro que abordam o tema microbiologia, para investigar o potencial que teriam no desenvolvimento da alfabetização científica dos jogadores.

“Dentro da Divulgação Científica, o termo alfabetização está centrado no desenvolvimento da população, para que atinjam uma independência científica, contribuindo para a formação cidadã e autonomia nas decisões do cotidiano. Essa perspectiva da alfabetização vai além da aprendizagem de conceitos e fatos, ela envolve a reflexão desse conhecimento”, explica o microbiologista.

Sobre a dissertação, defendida em julho deste ano, Lyra concluiu que os referidos jogos de cartas estimulam a compreensão e a discussão de temas científicos na área da Microbiologia. Tão logo a pandemia permita, o público poderá ter contato com os jogos, na exposição “Todos a bordo! Uma viagem ao corpo humano”, a ser exibida no Museu Ciência e Vida, situado em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.
 

Daiane Rossi
No mestrado, Sidcley Lyra analisou jogos de tabuleiro sobre microbiologia. Foto: Acervo pessoal.


Desde abril, Lyra integra a equipe responsável pelo projeto Covid19 DivulgAção Científica, coordenado pelo Instituto Nacional de Comunicação da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT), sediado na Casa de Oswaldo Cruz, e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

“Produzimos vídeos, infográficos e textos sobre a pandemia. É um trabalho intenso, ainda mais quando estamos vivenciando a produção de conhecimento sobre o vírus e seu impacto na saúde e sociedade praticamente em tempo real. É muito gratificante ver o resultado”, diz.

Sobre a experiência, o microbiologista avalia que a Covid-19 deu mais visibilidade aos impactos da ciência no cotidiano, em especial, em determinadas situações, que exigem discernimento dos riscos. “A decisão, com base científica, de usar máscaras para se proteger do novo coronavírus é um exemplo do impacto da alfabetização científica da população”, enfatiza.

Segundo Lyra, quanto mais os cientistas apresentarem o que fazem para um público amplo, melhor será a relação da sociedade com a ciência. “Só vamos colher bons frutos com isso. Temos a chance de mudar a imagem estereotipada que a sociedade tem dos pesquisadores, vistos como homens, brancos, de meia idade e extremamente malucos, genais e solitários”, diz, acrescentando que universidades e instituições de pesquisa e financiamento deveriam considerar a divulgação científica como uma atividade voluntária, mas integrada à progressão de carreira do pesquisador.

De espectadores a youtubers, casal leva história das ciências às redes

Assim como Lyra, o historiador Jorge Tibilletti, 24, já realiza incursões na área, mas durante a pós-graduação na Casa de Oswaldo Cruz repensou a forma de entrar em contato com o público. Criou, com a esposa e parceira profissional Rebeca Capozzi, 26, da mesma área, o canal Tópicos em História das Ciências, lançado há cerca de três meses.


  
  Jorge Tibilletti lançou canal no YouTube. Foto: Arquivo pessoal.
 

Natural de Paranaguá, no litoral do Paraná, Tibilletti veio ao Rio em 2017, participar de um curso de inverno na Casa de Oswaldo Cruz. Aqui decidiu que sua temporada na cidade seria muito mais longa: ingressou no mestrado e, agora, é aluno de doutorado da instituição – em sua tese, analisa a história da radiobiologia, em especial, as aplicações dos radioisótopos na pesquisa biológica brasileira no contexto da Guerra Fria e as relações diplomáticas entre o Brasil e outros países em torno do tema da energia nuclear.

O mestrado e, agora, o doutorado, ressalta Tibilletti, contribuíram muito para o trabalho no canal no YouTube. “Antes da pós-graduação tive outras experiências de divulgação, em formato de blog”, relata, contando que os resultados não foram muito animadores. Acabou se dando conta de que o caminho seria apostar no audiovisual. A pandemia de Covid-10 deu o empurrãozinho que faltava para encarar o desafio.

“Nós consumimos muito esse formato no nosso dia a dia. Usamos, sobretudo o YouTube, para estudar, assistir notícias, entretenimento. Então, a intenção já existia, mas a decisão efetiva de começar, de forma séria, veio com a pandemia. Além disso, nos impulsionou o fato de não existirem, até onde conhecíamos, outros projetos de divulgação em História das Ciências no YouTube”, detalha.

A intenção de lançar o canal já existia, mas a decisão efetiva de começar veio com a pandemia. Além disso, nos impulsionou o fato de não existirem outros projetos de divulgação em História das Ciências no YouTube

Antes de lançar a iniciativa, o casal pesquisou sobre a parte técnica envolvida na criação de um canal, como iluminação, cenário e áudio. Depois, focou no roteiro. A ideia, segundo Rebeca, é divulgar os vídeos para um público amplo, mas sem perder o rigor acadêmico na apresentação do conteúdo. Para embasar o trabalho, também se inscreveram no curso de Introdução à Divulgação Científica oferecido pelo Campus Virtual da Fiocruz.

“Foi muito importante essa pesquisa anterior, e até hoje discutimos sobre coisas como: qual o melhor dia e horário para postarmos nossos vídeos? Que tipo de linguagem devemos usar em quais tópicos do canal? Qual a periodicidade que devemos adotar para postar os conteúdos?”, enumera ele.

Formada em História na PUC-SP, em 2018, Rebeca é de São Paulo capital e, assim como o marido, chegou ao Rio atraída pelos cursos de pós-graduação oferecidos pela Casa de Oswaldo Cruz. No mestrado em História das Ciências e da Saúde, investiga a construção do conhecimento natural sobre o Novo Mundo, a partir das descrições dos animais da França Equinocial, instalada no Maranhão e cercanias, entre 1612 e 1615.

Vídeo sobre negacionismo chamou atenção do público
 

Daiane Rossi
Escrita dos roteiros requer leituras e planejamento, explica Rebeca Capozzi. Foto: Arquivo pessoal.


“Utilizo tratados de viagem e analiso cartas trocadas pelos frades capuchinhos e seus contemporâneos e um conjunto de cerca de 180 desenhos da fauna local. Procuro compreender através de que ferramentas esses personagens conheciam o mundo natural, especialmente os animais, levando em consideração as epistemologias do conhecimento da época”, detalha ela, que deve defender a dissertação no início do ano que vem. A ideia é emendar com o doutorado.

Para equilibrar os afazeres que o canal exige e os estudos, Rebeca e Tibilletti seguem uma rotina. “A escrita dos roteiros passa por leituras específicas, planejamento do vídeo e do nosso argumento. Depois disso temos que escolher um horário mais calmo para evitar ruídos externos, preparar a iluminação, a câmera, o microfone e fazer a gravação. Mas não acaba ai! Na pós-gravação, fazemos os inserts no roteiro para a editora, escolhemos as imagens, montamos as descrições com as referências e, por fim, pensamos no título do vídeo e fazemos a divulgação”, conta Tibilletti, frisando a contribuição valiosa da prima Heloísa Tibilletti, na edição, e do músico Victor Correia, que compõe as trilhas exclusivamente para o canal.

Em meio à crise política, científica e sanitária que estamos vivendo, as pessoas que se preocupam com a qualidade das informações que estão sendo difundidas passaram a ocupar as plataformas digitais e fazer divulgação científica

O canal possui quatro quadros: “Curso Livre de Introdução à História das Ciências”, a ser concluído em dezembro; o “Temas Contemporâneos”, no qual abordam assuntos atuais à luz da História das Ciências; “Divulgação de Fontes”, onde apresentam fontes, documentos e objetos históricos para quem está se iniciando ou pretende se iniciar na área; e “Entrevistas”, com especialistas da área – a primeira delas será exibida em dia 10 de outubro. “Acompanhamos as métricas do canal, mas ainda estamos aprendendo a interpretá-las. Certamente elas são fundamentais para entender o funcionamento da plataforma, o alcance e a recepção dos vídeos”, acrescenta Tibilletti.

A análise das métricas mostrou que o vídeo mais acessado até agora abordou o negacionismo. “Não é à toa, tendo em vista o momento atual”, diz Rebeca, destacando a importância de se ocupar os espaços para enfrentar a onda de rejeição às informações baseadas em evidências. “Em meio à crise política, científica e sanitária que estamos vivendo, nos quais há pouca informação especializada sendo evidenciada e repercutida pelos governantes, as pessoas que se preocupam com a qualidade das informações que estão sendo difundidas passaram a ocupar as plataformas digitais e fazer divulgação científica”, avalia.

Esse movimento, analisa Daiane, há de ser crescente. Para ela, a comunicação restrita às paredes do laboratório e às salas de aula vão fazer parte do passado. A relevância e o potencial de incentivo de um contato direto do pesquisador com a sociedade, ela conhece bem. Foi ao ouvir a palestra de uma cientista na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), quando tinha 11 anos, que a então aluna da Escola Municipal de Ensino Fundamental José Paim de Oliveira, na área rural de Santa Maria (RS), decidiu-se pela carreira acadêmica.

“Precisamos conversar para que cada vez mais pessoas compreendam por que a ciência é importante”, diz ela, que agora inspira novas gerações falando sobre suas descobertas no dia a dia como pesquisadora.


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