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Gestão de riscos: COC lança relatório do primeiro ciclo de aplicação da metodologia

2020-07-20

por Jacqueline Boechat

 
  

Edifícios e jardins históricos, sítios arqueológicos, coleções biológicas, acervos arquivísticos, museológicos e bibliográficos. A Fiocruz detém um significativo patrimônio científico e cultural resultante de seus processos de trabalho, desde sua criação no início do século 20, ainda como Instituto Soroterápico Federal. Como qualquer patrimônio, esse conjunto de bens valioso para a história das ciências e da saúde não está imune a uma gama de riscos de naturezas diversas, o que torna imprescindível desenvolver ações de planejamento e gerenciamento para minimizar perdas e garantir sua transmissão às gerações futuras.

Com a finalidade de testar uma metodologia de gestão de riscos compatível com as diversas tipologias de acervo sob a guarda da Fiocruz, a Casa de Oswaldo Cruz (COC) desenvolveu o projeto de pesquisa “Conservação preventiva do patrimônio científico e cultural da Fiocruz: metodologia para desenvolvimento de planos de gerenciamento de riscos”, aplicado a alguns dos acervos sob responsabilidade da própria COC, em um ciclo piloto que deu origem a um relatório de conclusão publicado em julho no repositório institucional Arca. O documento apresenta um extenso levantamento de referências bibliográficas e informações sobre os acervos, incluindo a identificação de riscos possíveis, como incêndios, descaracterização e furtos, por exemplo, e estratégias de prevenção de danos.

Nesse primeiro ciclo, o grupo de trabalho formado por profissionais de diversas áreas da unidade conseguiu dominar a metodologia, a partir da consultoria do especialista José Luiz Pedersoli, criar estratégias para os riscos prioritários a serem tratados e avançar para uma segunda etapa envolvendo novos objetos. Foi também estabelecida uma parceria com o ICCROM (International Centre for the Study of the Preservation and Restoration of Cultural Property) e o Instituto Canadense de Conservação, instituições criadoras do Método ABC, abordagem escolhida para o desenvolvimento da pesquisa: “Vamos desenvolver um sistema de gestão de riscos por meio de uma ferramenta web, o que vai democratizar e tornar mais acessível a adoção dessa metodologia para os acervos culturais”, afirma o vice-diretor de Patrimônio Cultural e Divulgação Científica da COC, Marcos José Pinheiro .

O trabalho nos garantiu uma visão ampliada das principais vulnerabilidades dos acervos e das características do contexto em que estão inseridos.

Além desses resultados, a arquiteta Carla Coelho, coordenadora do grupo de trabalho, destaca como fator de sucesso a qualificação da equipe, não somente no domínio da abordagem da gestão de riscos, mas na capacidade de adaptá-la a diferentes situações: “O trabalho nos garantiu uma visão ampliada em relação às principais vulnerabilidades dos acervos e às características do contexto em que estão inseridos. Isso nos deu subsídios para definir, por exemplo, protocolos visando à conservação dos acervos e à segurança dos funcionários e usuários a serem seguidos nessa situação de distanciamento social por conta da pandemia que estamos vivendo agora”.

A aplicação da metodologia

A gestão de risco está entre as principais orientações e estratégias do Preservo - Complexo de Acervos da Fiocruz, iniciativa que tem o objetivo de prover infraestrutura e tecnologias modernas para a guarda e o acesso público ao extenso patrimônio da Fiocruz. “[A gestão de riscos] permite ter uma visão integrada de riscos aos quais estão sujeitos os bens culturais, estabelecer ações para tratá-los em todos os seus estágios, da prevenção à reação, e fornecer subsídios para o estabelecimento de prioridades e alocação de recursos”, explica Marcos José Pinheiro.

A gestão de riscos permite ter uma visão integrada de riscos aos quais estão sujeitos os bens culturais, estabelecer ações para tratá-los em todos os seus estágios, da prevenção à reação, e fornecer subsídios para o estabelecimento de prioridades e alocação de recursos.

O Método ABC adota como premissa a necessidade de conhecer bem os acervos e de realizar revisões e atualizações periódicas, em um processo cíclico de cinco etapas. Também prevê ações sistêmicas de monitoramento e a realização de revisões periódicas para atualização dos dados levantados, para que caso necessário, novas estratégias sejam traçadas. Para a realização do ciclo-piloto, foram considerados: parte do acervo arquitetônico – o Pavilhão Mourisco (Castelo da Fiocruz) e os acervos móveis nele abrigados, a Coleção Entomológica do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e a Seção de Obras Raras da Biblioteca de Manguinhos, a Cavalariça e o Pavilhão do Relógio; o acervo museológico; o acervo arquivístico e o acervo da Biblioteca de História das Ciências e da Saúde da COC.

Para os acervos arquivístico e bibliográfico, tendo em vista a iminência de sua transferência para o Centro de Documentação e História da Saúde (CDHS), foram identificados os riscos a que estariam expostos durante esse processo, o que contribuiu para o planejamento da transferência. Já em relação aos edifícios históricos e ao acervo museológico, o risco de incêndio foi considerado um dos mais preocupantes, pois, apesar de a probabilidade de ocorrência ser baixa, seu impacto pode ser extremamente negativo.

“A partir dos resultados, foi possível analisar soluções para minimizar esse risco, complementando as que já se encontram implantadas, incluindo o aprimoramento das ações de manutenção, a definição de protocolos para as diferentes atividades realizadas nos edifícios que possam contribuir para o risco de incêndio e a realização de campanhas e treinamentos com usuários dos acervos com foco na prevenção”, explica Carla Coelho.

O projeto de pesquisa “Conservação preventiva do patrimônio científico e cultural da Fiocruz: metodologia para desenvolvimento de planos de gerenciamento de riscos” está vinculado ao Grupo de Pesquisa “Saúde e Cidade: arquitetura, urbanismo e patrimônio cultural” do mestrado profissional em Preservação e Gestão do Patrimônio Cultural das Ciências e da Saúde. Ao longo do primeiro ciclo, a pesquisa contou com recursos do CNPq para contratação de bolsistas de pesquisa, que contribuíram para o levantamento de dados necessários ao desenvolvimento do trabalho.

Como observa Carla Coelho, “esse trabalho reforça a importância da pesquisa e do desenvolvimento em preservação de acervos para o aprimoramento constante das estratégias de conservação, tal como definido em nossa Política de Preservação e Gestão de Acervos Culturais das Ciências e da Saúde, como também no Política de Preservação dos Acervos Culturais da Fiocruz, mais abrangente e que contempla todos os acervos da instituição”, conclui.

 

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