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Fontes para pensar o Brasil e a sociologia brasileira: os arquivos José Arthur Rios e Carlos Alberto de Medina

2020-06-04

Ana Luce Girão, Glauce Farias, Laurinda Maciel, Luciana Heymann, Mariana Zampier, Marcus Vinicius Gomes, Patrick Ribeiro e Ricardo Augusto dos Santos*

O acervo do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz foi enriquecido, nos últimos anos, com a chegada de arquivos pessoais de cientistas sociais cujas atuações combinaram atividade acadêmica e pesquisa aplicada em áreas vulneráveis do país. O entendimento de que suas trajetórias são fundamentais para compreender  o desenvolvimento dos estudos sobre o homem rural e o morador das favelas, bem como as políticas sanitárias e de habitação levadas a cabo nesses territórios está na base da ampliação da política de acervo da Casa, até então voltada, basicamente, para sanitaristas e cientistas da área biomédica.

Anthony Leeds (1925-1989), antropólogo norte-americano, foi o primeiro titular com esse perfil, cujo arquivo foi doado à COC em 2007. Seu trabalho de campo nas favelas do Tuiuti e Jacarezinho, nas quais residiu, as pesquisas que desenvolveu em mais de cem comunidades do Rio de Janeiro, mas também nas barriadas em Lima, Peru, fazem de seu arquivo um tesouro para pesquisadores interessados na história dos estudos sobre favela. O arquivo encontra-se organizado e disponível à consulta por meio da Base Arch,  e foi objeto de eventos acadêmicos, de uma exposição fotográfica no Museu da República em 2015 e de uma tese de doutorado (Viana, 2019).

O entendimento de que suas trajetórias são fundamentais para compreender  o desenvolvimento dos estudos sobre o homem rural e o morador das favelas, bem como as políticas sanitárias e de habitação levadas a cabo nesses territórios 

Outros arquivos igualmente interessantes são os dos sociólogos José Arthur Rios (1921-2017) e Carlos Alberto de Medina (1931-2010), ambos doados à Casa de Oswaldo Cruz em 2018. Os dois arquivos estão em fase de organização e tiveram o término desse trabalho adiado em função das medidas de isolamento social devido à Covid-19. A atual etapa de identificação dos dois acervos, no entanto, já nos permite apresentá-los, na expectativa de aguçar a curiosidade dos leitores, que em breve poderão explorá-los em contato direto com seus documentos. Pequenas notas biográficas antecedem os comentários sobre os dois conjuntos documentais.

José Arthur Rios e os estudos de comunidade

José Arthur Rios nasceu na Tijuca, no Rio de Janeiro, filho único de uma família de origem baiana por parte de pai e portuguesa por parte de mãe. Em 1939 ingressou na Faculdade de Direito em Niterói, no mesmo Estado, concluindo o curso em 1943. Simultaneamente frequentou a Faculdade Nacional de Filosofia, onde se aproximou das ciências sociais. Lecionava em algumas escolas e exercia a advocacia quando se casou, em 1943, com Regina Alves de Figueiredo, filha do líder católico Jackson de Figueiredo.

Logo se aproximou dos intelectuais católicos que frequentavam o Centro Dom Vital: Alceu Amoroso Lima, Américo Piquet Carneiro, José Fernando Carneiro, entre outros. Levado por esse último, Rios participou do movimento Resistência Democrática, um grupo de intelectuais que atuava contra a ditadura de Getúlio Vargas. Nesse grupo se reuniam ainda Adauto Lúcio Cardoso, José Barreto Filho, Dario de Almeida Magalhães, Mario Pedrosa, Carlos Lacerda e Gustavo Corção.

Por influência do professor Lynn Smith, que havia sido adido agrícola da embaixada norte-americana, foi para os EUA em 1946 cursar o mestrado em Sociologia na Universidade de Louisiana. Retornou aos EUA em 1948, de novo com apoio de Smith, para fazer o doutorado. Na ocasião lecionou na Universidade de Vanderbilt, mas não conseguiu concluir sua pós-graduação. De volta ao Brasil, aceitou o convite da Fundação Getulio Vargas para atuar como pesquisador no núcleo de Estudos de População.

Em meados dos anos 1950 foi convidado pelo Diretor do Departamento Nacional de Educação, Nelson Romero, para coordenar a Campanha Nacional de Educação Rural, que tinha o propósito de realizar um inquérito dos níveis de vida da população do campo a partir da escola, fazendo dela um ponto de apoio e irradiação de práticas agrícolas adequadas, de higiene, saúde e cooperativismo. Rios participou do treinamento de educadores sanitários e educadores de adultos e desenvolveu cursos para médicos, enfermeiros e assistentes sociais.

Os arquivos José Arthur Rios e Carlos Alberto de Medina, além de serem portas de entrada para o estudo da sociologia brasileira, de seus métodos e práticas, reúnem fontes que dialogam com temas candentes em nossa sociedade (...). São fontes que documentam uma visão humanista e integrada dos problemas brasileiros, com a qual ainda podemos aprender.

Durante sua atuação no Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), ligado ao Ministério da Educação e Saúde, colaborou com o educador sanitário Nilo Chaves de Brito Bastos. No SESP criou a Seção de Pesquisa, para a qual convidou o sociólogo Carlos Alberto de Medina e o antropólogo Luiz Fernando Raposo Fontenelle. Em 1960 deixou o SESP, ali permanecendo como assessor, e criou seu próprio escritório de consultoria em pesquisa, a Sociedade de Pesquisa e Planejamento (SPLAN). A atividade como consultor teve seguimento nos anos 1970, no Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Social e Econômico (INED), empresa que sucedeu a SPLAN. No início dos anos 1960 foi também assessor do Senado, onde analisava propostas legislativas e redigia esboços de discursos para senadores.

Em 1958 o jornal O Estado de S. Paulo encomendou à Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais (SAGMACS) um estudo sobre as favelas do Rio de Janeiro. Como representante da SAGMACS na Capital Federal, Rios conduziu a pesquisa ao lado do sociólogo Carlos Alberto de Medina e do arquiteto Helio Modesto. Esse estudo, publicado pelo jornal nos dias 13 e 15 de abril de 1960, é considerado o marco inicial da pesquisa sociológica em favelas.

No início da década de 1960, como secretário de Carlos Lacerda, governador do Estado do Rio de Janeiro, Rios orientou campanhas de mutirão junto a associações de moradores em mais de 80 favelas, prática que conheceu durante suas viagens ao interior do Brasil. A resistência de Rios diante da política de remoção indiscriminada das comunidades, defendida por interesses imobiliários, resultou em sua saída do cargo.

Entre os anos 1970 e 1990, paralelamente à atividade de consultor, desenvolveu pesquisas sobre violência e criminalidade, com participação em vários grupos de trabalho vinculados ao Ministério da Justiça e dedicados à reforma do sistema penitenciário e à política criminal. Seu investimento nesses temas também o levou a participar de seminários e grupo de trabalho ligados às Nações Unidas.

O fundo arquivístico de José Arthur Rios é composto por cerca de 30 metros de documentos, em sua maioria textuais mas também fotográficos e cartográficos, e cobre temas variados, o que permite ser explorado a partir de diversas perspectivas e matrizes disciplinares.

Rios foi também professor no ensino superior, tendo integrado o corpo docente da PUC-Rio, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Santa Úrsula. Foi membro titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e teve importante trajetória em centros de pesquisa e ensino internacionais. Ao longo de sua carreira publicou vários livros, entre os quais A educação dos grupos (1954), Problemas humanos das favelas cariocas (1960), Recomendações sobre a reforma agrária, em coautoria (1961), Estudo de Problemas Brasileiros (1964), Sociologia da corrupção, em coautoria (1987), Ensaios de olhar e ver (2011), além de livros de poesia. Publicou ainda muitos ensaios sobre o tema da violência na Carta Mensal, publicação do Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio (CNC), cujos originais se encontram no arquivo.

Rios: acervo reflete as diferentes metodologias de pesquisa utilizadas pelo sociólogo

O fundo arquivístico de José Arthur Rios é composto por cerca de 30 metros de documentos, em sua maioria textuais mas também fotográficos e cartográficos, e cobre temas variados, o que permite ser explorado a partir de diversas perspectivas e matrizes disciplinares.

Encontram-se em seu arquivo documentos relativos a consultorias para organizações públicas e privadas, que Rios realizou pelos escritórios da SPLAN e do INED ao longo das décadas de 1960 e 1970. Estudos sobre o artesanato nos estados do Ceará, Bahia e Rio Grande do Sul estão bem retratados, assim como pesquisas relativas à estrutura socioeconômica de diversos municípios, encomendadas pelos respectivos poderes executivos. A documentação acumulada na atividade de consultor consiste em projetos e propostas de pesquisa, tabelas, gráficos, mapas, roteiros de entrevistas, questionários, relatórios, cronogramas, currículos dos pesquisadores envolvidos, orçamentos, contratos, pareceres, além de fontes de consulta, como artigos e recortes de jornais e revistas.

O crime e a criminologia, entendida como o estudo de aspectos do delito criminoso e do perfil do indivíduo que comete o delito, são temas bastante presentes no arquivo, que documenta sua participação em seminários no Brasil e no exterior principalmente a partir da década de 1970, quando esteve ligado ao Instituto Latino Americano das Nações Unidas para Prevenção de Delito e Tratamento de Delinquente (ILANUD), ao Instituto de Pesquisas Criminais das Nações Unidas (UNICRI) e ao Ministério da Justiça. O tema dos menores infratores também é contemplado devido a pesquisas que realizou sobre as condições que os levam ao delito e a aplicação de penas a esses jovens. As drogas também aparecem devido à sua relação com o crime e a violência social.

Rios utilizou diferentes metodologias nessas pesquisas, com reflexos nos documentos presentes no acervo. Mais uma vez, são propostas e projetos de pesquisa, planos de trabalho, questionários, entrevistas, fichas de dados, tabelas, levantamento de dados estatísticos, recortes de jornais e revistas, cadernos de apontamentos e relatórios, além de sua própria produção intelectual.

Outro tema recorrente na carreira do sociólogo é o da estrutura agrária brasileira, em especial o da reforma agrária, retratado no arquivo por meio do seu envolvimento com a sociologia e a educação rurais, assuntos caros ao titular. Rios pesquisou a realidade rural brasileira, imigração, consumo agrícola e estabelecimentos agrícolas, e para realizar seus trabalhos acumulou recortes de jornais e revistas, levantamentos estatísticos, tabelas, artigos e apontamentos. Há também em seu arquivo farta correspondência com T. Lynn Smith, personagem central na formação e atuação de Rios como sociólogo. A relação dos dois foi debatida no artigo de Thiago da Costa Lopes e Marcos Chor Maio (2017).

O arquivo pessoal  de Medina é constituído por 2,8 metros de documentos textuais (manuscritos, datilografados e impressos), em sua maioria relatórios de pesquisa e textos de sua própria autoria. O arquivo contém ainda fotografias, matérias de jornais e periódicos sobre temas que foram objeto de estudo e interesse, além de separatas e cópias de artigos publicados.

As favelas e o desenvolvimento urbano têm também forte presença no acervo, decorrente das consultorias prestadas pelo titular, bem como de sua atuação no governo de Carlos Lacerda. Recortes de jornais e revistas, fichamentos, gráficos e anotações, textos apresentados em palestras, conferências e seminários, além de relatórios de pesquisa e artigos científicos documentam sua atuação voltada para essa temática, na qual os diálogos com Anthony Leeds e Carlos Alberto de Medina podem ser entrevistos.

Dois outros temas que aparecem no arquivo, porém com menor expressão em comparação aos anteriores, são o suicídio e o desaparecimento de pessoas. Rios dedicou-se a eles tanto para a ONU como na qualidade de professor da UFRJ. A documentação reúne o projeto apresentado à universidade, fichas de pessoas desaparecidas, tabelas com números de desaparecimentos e de suicídios de jovens, recortes de jornais relatando suicídios, gráficos, mapas de setores por amostragem, além de diversos apontamentos. Pesquisas sobre a vida dos estudantes de ensino superior, das quais resultaram questionários, entrevistas, apontamentos, tabelas e gráficos, também documentam sua atividade na universidade.

Chamam atenção, ainda, documentos sobre a sociologia cristã e a vida de seu sogro, Jackson de Figueiredo. Em virtude do envolvimento de Rios com associações de cunho católico, como o Centro Dom Vital e a União dos Juristas Católicos, o acervo reflete a influência do pensamento conservador na vida e na carreira do titular. Há textos publicados em jornais de pensadores católicos brasileiros, como Gustavo Corção e Alceu Amoroso Lima, e farto material sobre a vida e obra de Jackson de Figueiredo, líder católico e fundador do Centro Dom Vital, além de correspondência tratando da doação do acervo de seu sogro ao IHGB.

Esse sobrevoo temático não esgota o potencial de pesquisa no fundo José Arthur Rios.  Muitas perguntas poderão ser respondidas pelo acervo, e muitas serão sugeridas a partir do contato com ele. Duas particularidades merecem registro antes de passarmos ao arquivo de Carlos Alberto de Medina. Primeiro, o grande volume de material de pesquisa, muitas vezes ausente dos arquivos – onde se encontram mais facilmente seus resultados na forma de artigos e livros –, o que permite uma visão abrangente sobre o “fazer sociológico” ao longo de mais de quatro décadas. Métodos e técnicas de pesquisa estão materializados em formulários, roteiros de entrevista, tabelas e gráficos.  Em segundo lugar, o arquivo documenta a trajetória de um sociólogo multifacetado, que atuou na universidade, em órgãos de governo e em atividades de consultoria, permitindo entrever o trânsito entre essas diferentes esferas. Nísia Trindade Lima e Marcos Chor Maio (2010) analisaram a relação entre ciência social e educação sanitária na trajetória de Rios e chamaram a atenção para sua atuação fora da academia, sublinhando suas conexões com a formulação de políticas públicas em vários campos. Os autores realizaram uma longa entrevista com o titular, em 2006, que está disponível à consulta no Departamento de Arquivo e Documentação, ampliando ainda mais as possibilidades de estudo sobre vários temas destacados aqui, e permitindo combinar a pesquisa no arquivo – assim que as etapas de organização forem finalizadas – à interpretação do próprio titular sobre sua atuação ao longo dos anos 1940 a 1980, foco da entrevista. Interessa-nos ainda destacar que as fontes reunidas no arquivo Rios dialogam fortemente com a documentação reunida por Carlos Alberto de Medina. Um resumo de sua trajetória e uma breve apresentação da documentação deixarão claras essas conexões.

Carlos Alberto de Medina e a sociologia voltada para a ação social

Medina nasceu no Rio de Janeiro e formou-se pela Faculdade Nacional de Direito, atual UFRJ. Assim como Rios e outros profissionais de sua geração, iniciou a trajetória nas ciências sociais na década de 1940 em instituições governamentais e agências internacionais que atuavam no Brasil com políticas para as áreas de saúde, planejamento e desenvolvimento. Por esse caminho, os dois titulares atuaram no Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), na Seção de Pesquisa Social, onde Medina ganharia experiência com estudos de comunidades em áreas rurais.

No final dos anos 1950, como diretor da Sociedade para Análise Gráfica e Mecanográfica Aplicada aos Complexos Sociais (SAGMACS), da qual Rios era coordenador, participou da pesquisa “Aspectos humanos da favela carioca”, já referida, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Ao longo de sua trajetória e munido de uma sociologia voltada para a ação social, Medina também participou e coordenou dezenas de pesquisas relacionadas a favelas, violência, criança, adolescência e família. No Centro Latino-americano de Pesquisas em Ciências Sociais (CLAPCS), vinculado à Unesco, atuou como diretor e pesquisador, assim como no Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris), entidade vinculada a organismos internacionais de ajuda a países subdesenvolvidos. Dedicou-se também à docência durante toda a vida, atuando como professor, orientador e conferencista.

Medina publicou quinze livros entre as décadas de 1970 e 2000, alguns em coautoria. Muitos foram editados pela editora Vozes e pelo Cefai (Centro de Estudos da Família, Adolescência e Infância), do qual participou. Destaca-se, em sua produção, A Favela e o demagogo (1964); Música Popular e comunicação (1973); Família e mudança: o familismo numa sociedade arcaica em transformação (1974) e Participación e trabajo social (1985).

Um acervo de notas, reflexões, desenhos e engenhos

Seu arquivo pessoal é constituído por 2,8 metros de documentos textuais (manuscritos, datilografados e impressos), em sua maioria relatórios de pesquisa e textos de sua própria autoria. O arquivo contém ainda fotografias, matérias de jornais e periódicos sobre temas que foram objeto de estudo e interesse, além de separatas e cópias de artigos publicados. A produção dos documentos data, predominantemente, das décadas de 1970 a 2000, mas há registros dos anos 1960 e mesmo anteriores refletindo sua longa e fértil produção. Assim como ocorre com Rios, o arquivo documenta o modo como o titular realizava suas pesquisas e elaborava seus textos.

Chama atenção, na documentação, a presença de 48 cadernos de anotações manuscritas, ordenados numericamente pelo titular, que perfazem mais de cinco mil páginas escritas entre 1995 a 2009.  Os apontamentos tratam de uma multiplicidade de temas, tais como política, economia, criminalidade, família, religião e educação.  Há ainda diários de viagem, elaborados durante incursões pelo interior do país ou viagens internacionais, e anotações sobre o cotidiano, geralmente voltadas para aspectos da sociedade brasileira. É interessante observar que, embora independentes, os cadernos dialogam entre si por meio de anotações que funcionam como remissivas, indicando a dedicação do titular à produção de tais reflexões e uma forte organicidade desse conjunto documental.

De forma menos expressiva, porém não menos importante, Medina acumulou textos de análises acerca da obra de historiadores, sociólogos e psicólogos, o que sugere sua interlocução com esses autores. Aspecto bastante interessante do acervo é a presença de registros que documentam sua produção artística, como roteiros de peças teatrais, romances e grande quantidade de desenhos que, não raro, ilustram os textos de aulas e palestras que o titular proferiu ao longo de sua trajetória. Vale destacar o diálogo entre as anotações de aula e os desenhos, por exemplo, nas explicações sobre a trajetória percorrida pelo odor, desde a narina até o cérebro, e suas implicações físicas. Os desenhos sobre a audição também são interessantes e originais, a revelar uma forma lúdica de ensinar. 

Destaca-se, ainda, no conjunto do acervo o que o autor intitulou Cartuchinhos, que funcionava como um clube de assinaturas. Medina redigia ensaios e artigos sobre temas diversos e os enviava por correio para uma lista de “assinantes”, geralmente amigos e conhecidos. Os Cartuchinhos circularam de 1982 a 1987 e resultaram em cerca de 1.300 páginas de textos sobre grande variedade de assuntos, sobretudo política, violência e família.

A produção intelectual de Medina, como se pode observar, abrange uma diversidade de temas, corolário de sua visão abrangente sobre a sociedade brasileira, com grande ressonância na atualidade. É o caso, por exemplo, das reflexões críticas sobre a economia neoliberal e suas consequências sociais, matéria bastante presente em seus escritos.

Para finalizar, cabe uma observação geral sobre a riqueza desses acervos. Os arquivos José Arthur Rios e Carlos Alberto de Medina, além de serem portas de entrada para o estudo da sociologia brasileira, de seus métodos e práticas, reúnem fontes que dialogam com temas candentes em nossa sociedade, como a realidade do Brasil rural, das favelas, da violência e da criminalidade. Mais do que isso, são fontes que documentam uma visão humanista e integrada dos problemas brasileiros, com a qual ainda podemos aprender.

* Ana Luce Girão, Glauce Farias, Laurinda Maciel, Luciana Heymann, Mariana Zampier, Marcus Vinicius Gomes, Patrick Ribeiro e Ricardo Augusto dos Santos atuam no Departamento de Arquivo e Documentação (DAD) da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) e são responsáveis pela organização dos dois arquivos

Referências

LIMA, N. T.; MAIO, M.C. Ciências sociais e educação sanitária: a perspectiva da Seção de Pesquisa Social do Serviço Especial de Saúde Pública na década de 1950. Hist. cienc. saude-Manguinhos, vol.17, no.2 Rio de Janeiro abr./jun. 2010 (https://doi.org/10.1590/S0104-59702010000200014, acesso em 15/05/2020).  

LOPES, T. da C. MAIO, M.C. Comunidade e democracia na sociologia de T. Lynn Smith e José Arthur Rios. Rev. Bras. Ci. Soc. vol.32,  n.95,  São Paulo  2017. (https://doi.org/10.17666/329516/2017, acesso em 15/05/2020).

VIANA, R. de A. Encontros etnográficos e antropologia em rede: a favela do Jacarezinho e a pesquisa de Anthony e Elizabeth Leeds na década de 1960. Tese (Doutorado em História das Ciências e da Saúde) – Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro, 2019. 353 f.


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